Rita Braga atravessa o tempo e reinventa o fado em “Fado Tropical”
- Marcello Almeida
- há 23 horas
- 3 min de leitura
Sabe aqueles discos que nascem como quem revisita uma casa antiga, uma memória afável, e vai abrindo uma janela que nunca existiu? Vamos falar sobre isso

Entre Lisboa e a acústica do Brasil, cantora portuguesa lança um disco que não pede licença ao passado, mas conversa diretamente com ele. Daquelas coisas belas da nossa música brasileira.
Rita Braga não chega ao fado como quem busca abrigo. Ela chega como quem investiga, cutuca, desmonta e remonta. Seu novo álbum, Fado Tropical, lançado no dia 2 de abril nas plataformas de streaming e também em vinil em Portugal, é menos um exercício de reverência e mais um gesto de escuta, mas não uma escuta simples; é uma escuta profunda que vai seguindo a reinvenção.
Quinto trabalho de sua discografia, e o primeiro inteiramente em português, o álbum nasce de uma inquietação que já vinha amadurecendo. Depois de circular com Illegal Planet em 2024, Rita se viu tomada por uma pergunta que tem atravessado pesquisadores e músicos: e se o fado não tivesse começado em Lisboa, mas aqui, do outro lado do Atlântico? Essa hipótese, ainda em debate, não aparece como tese acadêmica no álbum, mas como pulsação. Como intuição artística.
O resultado é um trabalho que olha para trás sem andar para trás, entende? Existe uma proeza inexplicável nessas canções. Produzido pela própria Rita em parceria com Pat Oak, com mixagem de Suse Ribeira e master de Yan Hart-Lemonnier, Fado Tropical constrói uma ponte sonora onde o tradicional não é engessado e o contemporâneo não soa deslocado.
Há fado, claro. Mas há também eletrônica, surf rock, traços de neo jazz e uma liberdade que recusa fronteiras rígidas. Não é fusão por estética. É linguagem viva. Essa liberdade, no entanto, não vem da superfície. Rita mergulhou fundo. Vasculhou arquivos, partituras, textos e registros que atravessam do século XIX às primeiras décadas do século XX. Há um rigor silencioso nesse processo, uma espécie de arqueologia afetiva que sustenta tudo o que vem depois.
Isso se revela com força em duas faixas centrais do disco: “Um Quarto de Hora” e “Cinza e Pó”. Ambas partem de letras inéditas de fadistas do século XIX, encontradas em obras raras — História do Fado (1903), de Pinto de Carvalho, e A Triste Canção do Sul (1904), de Alberto Pimentel. Rita não apenas resgata esses fragmentos: ela os reencena. No primeiro caso, tensionando o fado com uma marcha quase fúnebre. No segundo, evocando uma atmosfera espectral, onde esqueletos e cemitérios parecem sussurrar, algo que, nas palavras dela, dialoga até com o imaginário de Tom Waits.
Essa mesma “Cinza e Pó” ganha ainda um corpo extra com a participação de Paulo Furtado, conhecido como The Legendary Tigerman, na guitarra. O encontro não é decorativo. Ele amplia a textura do disco, reforçando essa ideia de um fado que se expande, que respira outros ares.
Antes mesmo do álbum, Rita já havia sinalizado esse caminho ao revisitar “Chão de Estrelas”, clássico da era de ouro do rádio brasileiro, composto por Silvio Caldas e Orestes Barbosa. A versão, feita ao lado de JP Simões, funciona quase como um prólogo emocional do que viria depois: um gesto de aproximação, de reconhecimento de raízes que atravessam oceanos.

Ao longo das 11 faixas, Fado Tropical vai se revelando como um território em movimento. A instrumentação é um capítulo à parte. Há violoncelo, marimba, saxofones, guitarras, percussões que surgem de lugares pouco óbvios, “junk percussion”, castanholas, camadas que se sobrepõem sem perder o fio condutor. Ao lado de Rita, músicos como Bruna Moura, Ryoko Imai, João Cabrita, Tó Trips e outros ajudam a construir esse corpo sonoro múltiplo, onde cada detalhe parece pensado, mas nunca preso.
No fundo, o que Braga faz aqui não é apenas revisitar o fado. É devolvê-lo ao estado de pergunta. E talvez seja justamente isso que torna Fado Tropical tão vivo: ele não tenta preservar o gênero como peça de museu. Ele o coloca em circulação outra vez, sujeito ao risco, ao erro, à descoberta. Como toda música que ainda respira.
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