Enterrando os Mortos: o verdadeiro horror que surge quando a humanidade é consumida pela perda
- Eduardo Salvalaio
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Um filme de zumbi que encontra humanidade onde só deveria existir morte

Muita coisa do gênero terror envolvendo zumbis mudou desde a época do clássico A Noite dos Mortos-Vivos, uma obra atemporal criada por George Romero em 1968. Os zumbis vieram então surgindo em meio a comédias (Todo Mundo Quase Morto, 2004) ou então ficaram bastante agressivos e velozes ao ponto de serem mais ágeis que os próprios personagens vivos (Com Unhas e Dentes, 2025).
Em Enterrando os Mortos (We Bury the Dead, 2024), o diretor Zak Hilditch (1922, 2017), que também escreveu o roteiro, prefere fazer um filme onde a manifestação zumbi acontece de forma lenta, sem apelar para violência extrema e exagerada, tentando criar em seus personagens um vínculo maior com a o luto, a perda e a compaixão com nossos familiares e amigos.
Outra mudança é que não estamos diante de uma pandemia onde infectados surgem a cada esquina. A causa aqui é um teste militar americano feito com uma arma experimental que acidentalmente ocorre na Tasmânia e que mata parte da população. Entretanto, alguns mortos podem retornar à vida. O governo então resolve criar um grupo de voluntários para percorrer o país e recolher os mortos. Caso alguém retorne à vida, os militares precisam executá-lo.
Ava (Daisy Ridley) é uma fisioterapeuta americana que entra como voluntária, porém a intenção dela é outra: encontrar o marido que estava num resort do país. Infelizmente, ela se encontra distante da região que o esposo estava. Porém, ao conhecer Clay (Brenton Thwaites), outro voluntário, ela toma coragem e parte numa jornada atrás de seu objetivo.
Entre flashbacks de Ava com seu esposo e o recolhimento diário de corpos, o diretor traça uma narrativa bastante ligada ao sentimentalismo e ao dramático, colocando a importância da família, de nossos relacionamentos e até de nossas rotinas em meio à própria fragilidade humana.
Esse não é um filme indicado para quem espera ação, ritmo frenético, gore e sangue. Sim, teremos algumas cenas tensas, mas são poucas. Em outros momentos, o diretor brinca com o espectador apenas insinuando que algo pode acontecer com nossos personagens vivos. Fácil sentir aproximação com Ava, embora ela não possua nenhum aspecto de heroína e apenas deseja encontrar seu marido.

Filmado na Austrália, os cenários capturam a essência de um filme pós-apocalíptico, apesar de não caírem na ambientação do caos total. A fumaça espalhada pelos campos ao redor das estradas, os carros largados pelas ruas e imagens perturbadoras nos colocam diante de uma atmosfera sombria, mesmo que o filme não se entregue ao completo Terror.
Assim como aconteceu com Párvulos: Filhos do Apocalipse (2024), Enterrando os Mortos é uma produção que enfatiza um maior desenvolvimento dos personagens e traz um conceito que possui um pouco mais de profundidade narrativa em relação aos filmes do gênero.
Mesmo que seja um filme de terror com zumbis, a intenção aqui não é expor uma carnificina barata e sensacionalista, e sim, revelar o verdadeiro horror que se encontra nas consequências da humanidade consumida pela perda. Uma alegoria sobre o que perdemos e o legado que sobrevive.
O filme fecha com uma cena extremamente bela e tocante, ao som de ‘Help I’m Alive’ do Metric, expondo a ideia de que ainda há esperança e humanidade em meio ao caos e a tragédia.

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