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Camila, Camila: o medo de uma mulher não é uma guerra cultural

há 18 horas
4 min de leitura

Quase quatro décadas depois, a canção do Nenhum de Nós continua expondo a violência nos relacionamentos. Em um Brasil onde o antifeminismo ganha espaço político, sua mensagem permanece dolorosamente atual.

Nenhum de Nós
Imagem: Reprodução


Camila tinha dezessete anos. Tinha medo das mãos, do olhar e das marcas que encontrava diante do espelho. Aprendeu a baixar a cabeça, a conviver com a vigilância e a reconhecer o silêncio como parte de sua rotina. Não há romance nessa história. O que o Nenhum de Nós colocou em música, em 1987, foi o retrato de uma jovem submetida à violência em um relacionamento.





Ainda assim, Camila, Camila atravessou gerações como um clássico do rock brasileiro, frequentemente lembrado pelo refrão melódico e pela força sentimental de sua interpretação. A canção ganhou vida própria, circulou por rádios, festas e apresentações, mas nem sempre foi acompanhada pela compreensão daquilo que estava sendo contado.


Thedy Corrêa explicou que a composição, assinada também por Carlos Stein e Sady Homrich, nasceu de uma história envolvendo uma pessoa conhecida pelo grupo. Os músicos souberam das dificuldades enfrentadas por uma jovem em seu relacionamento com um namorado descrito como grosseiro e agressivo. Transformaram aquela experiência em uma narrativa na primeira pessoa, dando à personagem uma voz que o medo parecia sufocar.


Quase quarenta anos depois, a música encontra um país que avançou na legislação de proteção às mulheres, mas ainda convive com agressões, ameaças, controle psicológico e assassinatos motivados pela violência de gênero.


O Brasil de 2026 também assiste à expansão de discursos políticos que transformam o combate ao feminismo em identidade pública. Nas eleições de outubro, Eduarda Campopiano, do PL, foi eleita a deputada estadual mais votada de São Paulo, apresentando-se como adversária declarada do movimento feminista.


Durante um debate, a parlamentar questionou a própria existência do feminicídio como categoria específica, embora tenha defendido agravantes para agressões praticadas mediante superioridade física.


A distinção jurídica merece ser apresentada corretamente. Mas também merece uma pergunta: o que significa transformar o reconhecimento de uma violência historicamente documentada em mais um campo de confronto ideológico?





O feminicídio não é uma expressão inventada para constranger homens. Na legislação brasileira, identifica o assassinato de mulheres por razões relacionadas à condição feminina, incluindo situações de violência doméstica e familiar. É possível discutir leis, penas, políticas públicas e a eficácia dos mecanismos de proteção. O debate democrático permite isso. O que não deveria encontrar espaço é a banalização do sofrimento de quem convive com ameaças e agressões dentro da própria casa.


Camila não conheceu o Brasil da Lei Maria da Penha. A música surgiu dezenove anos antes da legislação, sancionada em 2006, que estabeleceu mecanismos específicos de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres. Em 2026, a lei completou vinte anos. Duas décadas de avanços jurídicos e de uma luta que continua longe de terminar.


O mais perturbador é perceber como comportamentos denunciados pela canção permanecem reconhecíveis. O homem que vigia, controla, ameaça e agride não desapareceu com a chegada de novas gerações. Tampouco desapareceram os discursos que procuram justificar a violência como ciúme, excesso de paixão ou problema particular de um casal.


É nessa confusão que o abuso encontra terreno para se repetir. Não existe demonstração de amor no medo das mãos de alguém. Não existe cuidado na vigilância permanente, nem paixão que justifique humilhação, agressão ou ameaça. E nenhuma tradição familiar deveria servir de abrigo para essas práticas. Quando o feminismo é apresentado indistintamente como inimigo, corre-se o risco de apagar uma história de reivindicações que ajudou a ampliar direitos, denunciar agressões e romper o silêncio em torno da violência doméstica.


Não significa que todas as correntes feministas sejam iguais ou estejam acima de críticas. Significa reconhecer que a proteção à integridade física e à autonomia das mulheres não deveria depender da simpatia por um movimento político. A discussão também exige responsabilidade dos homens. Não basta condenar um feminicídio depois que ele acontece e permanecer indiferente às ameaças, aos comportamentos de controle e às humilhações que tantas vezes o antecedem.


O silêncio diante do abuso não se torna menos grave porque acontece entre amigos, parentes ou conhecidos.


Em Camila, Camila, a violência já estava presente antes que a sociedade brasileira construísse boa parte dos instrumentos legais de proteção de que dispõe hoje. A canção ajudou a dar visibilidade a uma experiência que durante muito tempo foi escondida sob expressões como desentendimento conjugal e problema de família. É justamente por isso que ela continua relevante.


Não porque o Brasil esteja condenado a repetir eternamente os mesmos erros, mas porque os avanços conquistados exigem proteção, aplicação efetiva das leis e disposição para enfrentar comportamentos que ainda encontram justificativas no cotidiano.





A música do Nenhum de Nós não nasceu para oferecer respostas simples sobre política. Nasceu de uma história de violência. Mas, quando a dignidade das mulheres se transforma em objeto de disputa pública, essa história adquire inevitavelmente uma dimensão política.





O refrão continua sendo cantado. A melodia continua bonita. O público continua reconhecendo aquele nome repetido tantas vezes. Mas Camila nunca precisou apenas que alguém cantasse seu nome. Precisava que alguém reconhecesse o que estavam fazendo com ela.



Se você sofre violência ou conhece alguma mulher nessa situação, denuncie. O Ligue 180 oferece orientação e acolhimento gratuitos, 24 horas por dia. Em situações de emergência, ligue 190. O silêncio não pode ser uma opção diante da violência.

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