Pink Floyd: quando o autoritarismo encontra uma plateia disposta a aplaudir
Em The Wall, o Pink Floyd transformou um espetáculo de rock em uma representação perturbadora do fascismo. Quase cinco décadas depois, a obra continua provocando uma pergunta incômoda: como uma sociedade aprende a aceitar aquilo que deveria temer?

O público aplaude. No palco, um homem vestido de preto discursa diante de bandeiras com martelos cruzados. A multidão responde em coro, ergue os braços e obedece. O espetáculo, que deveria ser um concerto de rock, se transforma em um comício fascista. Pessoas consideradas indesejáveis são apontadas, perseguidas e expulsas. A violência ganha contornos de celebração coletiva.
A cena pertence a The Wall, obra concebida por Roger Waters para o Pink Floyd, lançada originalmente como álbum duplo em 1979 e adaptada para o cinema por Alan Parker em 1982. No filme, Pink, interpretado por Bob Geldof, imagina a si mesmo como um líder autoritário, capaz de transformar sua plateia em uma massa obediente.
É uma das sequências mais perturbadoras da história do rock. Não apenas pela estética inspirada nos regimes totalitários do século XX, mas pela facilidade com que aquela multidão fictícia aceita participar da violência. O fascismo aparece como espetáculo. E o espetáculo funciona.
A transformação de Pink não surgiu por acaso. Durante uma apresentação do Pink Floyd em Montreal, em 1977, Roger Waters cuspiu em um fã após se irritar com seu comportamento. O músico reconheceria posteriormente a gravidade daquele gesto, que o levou a refletir sobre o isolamento emocional e a distância que havia construído entre si e o público.
Foi dessa experiência que nasceu parte do conceito de The Wall. O muro que separa o artista das pessoas também representa as barreiras erguidas pelo medo, pelo sofrimento e pela incapacidade de reconhecer o outro.
No universo criado por Waters, esse isolamento acaba assumindo uma forma monstruosa. Em In the Flesh e Waiting for the Worms, a fantasia autoritária de Pink transforma preconceito, perseguição e violência em demonstrações de poder. O próprio Alan Parker relatou ter ficado assustado durante as filmagens ao perceber o entusiasmo de parte dos figurantes diante da encenação fascista. O diretor temia que alguns estivessem levando aquele personagem perturbador a sério demais.
A ironia é terrível. Uma obra concebida para denunciar o autoritarismo conseguia demonstrar, durante sua própria realização, como a estética do poder podia exercer fascínio.
Essa observação ajuda a compreender uma das questões centrais de The Wall: o perigo não está apenas naquele que ordena, mas também na facilidade com que uma multidão pode deixar de questionar.
Em Como as Democracias Morrem, publicado em 2018, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt analisam como governos democraticamente eleitos podem enfraquecer as instituições responsáveis por limitar seu próprio poder. A erosão democrática nem sempre começa com tanques nas ruas ou o fechamento do Parlamento. Pode avançar gradualmente, por meio da deslegitimação dos adversários, do incentivo à violência política e de ataques às liberdades civis.
O autoritarismo não precisa anunciar suas intenções com honestidade. Pode se apresentar como defensor da ordem, da liberdade e até da própria democracia, enquanto trabalha para esvaziar o significado dessas palavras. O Brasil conhece os riscos desse processo.
Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, em Brasília. Os ataques ocorreram uma semana depois da posse de Luiz Inácio Lula da Silva e foram acompanhados por reivindicações de intervenção militar contra o governo eleito. As investigações e os julgamentos posteriores documentaram crimes contra o Estado Democrático de Direito e tentativas de ruptura institucional.
É importante distinguir oposição política de ataque à democracia. Criticar um presidente, discordar de decisões judiciais, protestar contra políticas públicas e exigir mudanças são direitos fundamentais. Defender que a força substitua o resultado das urnas pertence a outra categoria.
Nenhuma democracia pode exigir concordância com seus governantes. Mas também não consegue sobreviver quando a derrota eleitoral passa a ser tratada como autorização para destruir suas instituições.
O mais inquietante é perceber como a violência política pode ser normalizada antes de chegar às ruas. Quando adversários deixam de ser reconhecidos como cidadãos legítimos, quando jornalistas são tratados automaticamente como inimigos e quando a divergência passa a justificar ameaças, alguma coisa essencial já começou a se deteriorar.
É nesse terreno que a fantasia autoritária de The Wall encontra sua dimensão mais atual. Pink não precisa convencer a multidão de que está cometendo uma injustiça. Precisa convencê-la de que existe um inimigo. A partir daí, a perseguição ganha uma justificativa, a violência parece necessária e a obediência se transforma em demonstração de pertencimento.
O personagem não representa uma descrição literal de todos os movimentos políticos contemporâneos. Mas expõe mecanismos de desumanização que atravessaram diferentes períodos históricos e continuam merecendo vigilância. A democracia, afinal, não é uma garantia permanente. Depende de instituições, leis, fiscalização e, sobretudo, de uma cultura política capaz de reconhecer limites ao exercício do poder.
Nenhum governante deveria estar acima da Constituição. Nenhuma ideologia deveria transformar a violência em virtude. E nenhum cidadão deveria precisar demonstrar fidelidade a um líder para ter seus direitos respeitados.
O que torna The Wall tão devastador é que sua crítica não oferece o conforto de imaginar o autoritarismo como uma monstruosidade distante, restrita aos livros de história. Roger Waters constrói uma fantasia na qual o ódio encontra organização, símbolos, palavras de ordem e uma multidão disposta a segui-lo.
Os martelos marcham em perfeita sincronia. Não há rostos, dúvidas ou diferenças. Apenas uma força que avança e esmaga tudo que encontra pelo caminho. Talvez essa seja a imagem mais assustadora deixada pelo Pink Floyd: uma sociedade em que pensar se tornou menos importante do que obedecer.
A última pergunta, porém, não pertence somente ao personagem que discursa diante da multidão. Pertence também à plateia. Em que momento o aplauso deixa de ser admiração e passa a ser cumplicidade?
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