BRITPOP não é nostalgia: é Robbie Williams voltando onde nunca esteve inteiro
- Marcello Almeida
- há 9 horas
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Um acerto de contas barulhento, imperfeito e surpreendentemente vivo com os anos 90 que ainda assombram

Com BRITPOP, Rob Williams mergulha em uma viagem nostálgica pelos embalos dos anos 90 e a febre do britpop, mas não pense que Williams entrega um álbum do gênero. As canções desse novo trabalho são sobre a ideia de britpop que ficou cravada e atravessada nele desde os longínquos anos 90. Entender isso é necessário. E muda tudo quando você coloca pra rolar essa belezinha de disco, todo redondo e gostoso de ouvir.
Um disco que bebe das melhores fontes energéticas e esbanja um ar carismático e melódico. Se você, assim como eu, ama aquelas canções grudentas (no bom sentido) do Oasis, vai amar isso aqui. São 17 faixas contagiantes, mas, acima de tudo, é um trabalho inquieto, feito por alguém que claramente não estava em paz naquela época e resolveu voltar lá agora.
E isso soa tão humano e verdadeiro. Quantas vezes você não quis voltar para um determinado tempo de sua vida? BRITPOP acerta em cheio nisso. Acerta porque Williams já não precisa provar mais nada para ninguém.
E eu gosto dessa ideia. Gosto porque nada aqui soa datado. Não é aquele resgate limpinho, não se deixa cair na armadilha de se parecer com museu, nem com a ideia de revival com camiseta vintage. São canções forjadas pela lembrança e pelos sentimentos; um disco de exageros, excessos, falhas e contradições… camadas que se misturam, funcionam bem juntas e formam aquele tipo de nostalgia que não tenta se redimir em nada.
E o contexto do lançamento já reforça muito esse sentimento. BRITPOP sofreu atrasos, foi adiado e relançado quase de supetão, estilo aquele jogo meio estratégico para bater recorde e, quem sabe, empatar com os Beatles em termos de números de álbuns nº 1 no Reino Unido. Eu sei, tudo isso soa meio estranho, meio torto. Meio calculado. E, curiosamente, combina com o disco. Porque BRITPOP também é estranho, assim como a gente em alguns momentos da vida, assim como eu enquanto escrevo este texto.
No meio disso tudo, de melodias pop e agridoce, surge aquela ideia de ver Robbie voltar aos anos 90, justamente ao período em que ele estava perdido (quem nunca), viciado, ridicularizado pela imprensa e tentando desesperadamente parecer algo que não era. Tem menos cara de celebração e mais de acerto de contas. Não aquele tipo de acerto bonito, resolvido; um acerto que ainda coça na pele e fuça na alma.
Ele mesmo disse que este é “o álbum que queria fazer quando saiu do Take That”. Talvez seja mesmo, e tudo bem. Mas tenho a impressão e a sensação de que é um disco que ele não conseguiria fazer naquela época. A abertura com “Rocket”, trazendo o gigante Tony Iommi, já deixa claro que isso aqui não é britpop purista. É aquele britpop filtrado por arena rock, glam, ego e cicatriz. Age mais como uma declaração de intenção do que como um retrato fiel de época.
Nem tudo aqui se encaixa perfeitinho, nem tudo funciona. “Cocky”, por exemplo, traz a ótima presença de Gaz Coombes, do Supergrass, e flerta com o Oasis errado; lembra mais aquela fase dos Gallagher meio cansada do que aquela arrogância elétrica do começo de tudo. Um contraste com o próprio conceito. Mas, quando funciona… funciona bonito. E a maior parte é bonita.
“All My Life” e, principalmente, “Spies” mostram um Robbie totalmente confortável em assumir a herança vocal, o arrasto nas sílabas; a arquitetura das guitarras é precisa e em momento algum vira caricatura. “Spies”, pra mim, é um dos grandes momentos do álbum. Faixa bonita, nostálgica sem ser patética. Hedonista sem parecer aquela propaganda barata de cerveja. Tem brilho, tem melodia, tem aquela melancolia agridoce de quem sobreviveu à própria juventude, aos amores que se foram e ficaram apenas na memória.
“Pretty Face” embarca nesse mesmo clima. É daquelas faixas que pedem volume alto e janela aberta, mesmo que você saiba que o passado não tem volta. Que delícia de música. Então o disco resolve se sabotar. E ainda bem. “Morrissey”, coescrita com Gary Barlow, é absurda. Jocosa. Levemente homoerótica. Uma homenagem improvável ao ex-vocalista dos Smiths que parece existir só porque alguém pensou: “por que não?”. E esse “por que não” é parte do charme de BRITPOP.
“It’s OK Until the Drugs Stop Working” é outro desvio delicioso. Melodicamente, parece ter saído de um compacto esquecido entre o fim dos anos 60 e o início dos 70. White Plains, Christie, esse pop açucarado que ninguém espera encontrar em 2026. É quase ofensivo de tão fora de lugar. Mas gostoso e agradável de ouvir.
“Human”, com Jesse & Joy e Chris Martin, talvez seja a música mais bonita do disco. Uma balada eletrônica luminosa sobre inteligência artificial, empatia e humanidade. Não tem absolutamente nada a ver com britpop. E isso é um problema? Eu acho que não.
Porque BRITPOP não é sobre o gênero. É sobre um cara olhando para trás e percebendo que aquela era dourada também foi brutal. Que enquanto o discurso era guitarras, bandeiras e identidade britânica, ele estava afundando, sem saber que logo faria “Angels” e pisaria em todo mundo que a imprensa jurava que dominaria o futuro.
O álbum não tem um novo “Angels”. Nem um novo “Let Me Entertain You”. E talvez seja por isso que ele funcione tão bem. Não tenta criar um hino eterno. Prefere ficar nesse lugar intermediário, confortável, falho, humano e bonito. Pode ser o disco que Robbie Williams queria fazer quando saiu do Take That. Mas ele só conseguiu fazer agora. E, honestamente, ainda bem.












