System of a Down, 11 de Setembro e a fúria de Serj
- Marcello Almeida

- 24 de mai.
- 6 min de leitura
O manifesto de Serj Tankian após o 11 de Setembro: como o vocalista do System of a Down denunciou a hipocrisia dos EUA em plena crise

Em setembro de 2001, o System of a Down estava prestes a conquistar o mundo. Com guitarras afiadas, letras sarcásticas e um discurso inflamado contra a guerra, a banda lançava Toxicity, seu segundo disco, uma semana antes dos atentados terroristas que destruíram o World Trade Center e abalaram o mundo.
Mas enquanto os Estados Unidos ainda contavam os mortos e digeriam o trauma, o vocalista Serj Tankian decidiu ir além do luto imediato. No dia 13 de setembro, apenas dois dias após os ataques, ele publicou um manifesto em seu blog pessoal, refletindo sobre as causas profundas da tragédia. Não era uma provocação. Era um alerta. Um pedido de lucidez num momento tomado pelo medo e pela fúria.
O texto, intitulado Understanding Oil (“Entendendo o Petróleo”), viralizou na recém-nascida cultura digital da época e transformou Tankian em um alvo. Foi chamado de traidor. Acusado de insensibilidade. E sua análise política, centrada no histórico intervencionismo dos Estados Unidos e no papel do país na geopolítica do Oriente Médio, quase afundou a turnê da banda.
Tankian questionava, em essência, o que pouca gente tinha coragem de perguntar naquele momento: por que os EUA foram atacados? Para ele, a resposta passava pelas décadas de alianças com regimes autoritários, invasões, golpes orquestrados e interesses energéticos escondidos sob o pretexto de “libertação”.
“Tragicamente, às vezes, a tentativa de controlar os recursos dos outros leva à perda dos nossos próprios recursos – como vidas humanas”, escreveu Tankian, num dos trechos mais impactantes do manifesto.
Ele não defendia o terrorismo. Não minimizava o horror dos atentados. Mas recusava a narrativa simplista de “bons contra maus”. Tankian queria expor o ciclo de violência, e as causas estruturais que o alimentam: a desigualdade, a opressão, e o colonialismo disfarçado de diplomacia.
Naquele momento, poucos queriam ouvir. O país se preparava para a guerra. Em pouco tempo, o Afeganistão seria invadido. O Iraque viria depois. E o medo, impulsionado pela mídia e pelo governo de George W. Bush, calaria quase toda forma de dissidência.
Mas Tankian resistiu. E sua banda, ao invés de recuar, dobrou a aposta. Nos anos seguintes, o System of a Down lançaria mais álbuns com ataques ainda mais frontais ao militarismo e à cultura armamentista dos EUA, tornando-se uma das vozes mais potentes da música política do século 21.
Agora, mais de duas décadas depois, revisitamos esse texto histórico — não apenas como registro de um momento tenso e decisivo da história americana, mas como reflexo da coragem de um artista que se recusou a aceitar a versão oficial dos fatos.
Porque questionar, pensar e resistir — mesmo em meio ao caos — ainda é um ato de coragem.
Abaixo, você pode ler o manifesto de Serj Tankian na íntegra, traduzido para o português.
Os ataques/bombardeios brutais desta semana em Nova York e Washington D.C., juntamente com ameaças de novos ataques ali e em outras partes do país, mudaram nossos tempos para sempre. Enquanto a grande mídia se concentra nos detalhes da destruição e nas palavras genéricas dos políticos, tentarei entender e explicar os acontecimentos a partir da cerca. BOMBARDEAR E SER BOMBARDEADO SÃO A MESMA COISA EM LADOS DIFERENTES DA CERCA.
O terror não é uma ação humana espontânea e sem fundamento. As pessoas não simplesmente sequestram aviões e cometem haraquiri (suicídio) sem um peso de reflexão sobre o ato. Ninguém na mídia parece perguntar: POR QUE ESSAS PESSOAS COMETERAM ESSE ATO HORRÍVEL DE VIOLÊNCIA E DESTRUIÇÃO?
Para entender essa resposta, devemos primeiro olhar para a política dos EUA no Oriente Médio. Durante grande parte do século XX, empresas norte-americanas buscaram obter direitos e concessões de petróleo em países do Oriente Médio e da Europa Oriental. Após a Primeira Guerra Mundial, acordos secretos firmados pelo nosso Departamento de Estado renderam direitos de petróleo da então derrotada Turquia para campos que hoje pertencem ao Iraque e à Arábia Saudita, em troca de ignorar um crime contra a humanidade — o genocídio dos armênios pelos turcos. Os lucros do petróleo foram os fatores motivadores por trás de muitas tentativas da CIA e dos EUA de desestabilizar regimes democráticos no Oriente Médio (como no caso do Irã, nos anos 1950, quando o xá substituiu o primeiro-ministro que se recusava a ceder os direitos do petróleo aos EUA — e como o povo não pôde lidar com o xá, um governo extremista liderado pelo aiatolá Khomeini acabou prevalecendo). Durante a guerra Irã-Iraque, os EUA forneceram armas e conselhos para ambos os lados. Essas não são ações de uma superpotência rica que deseja paz. Não esqueçamos que Saddam Hussein, antes de ser visto pelos EUA como o anticristo, era aliado próximo dos EUA e da CIA.
Então, qual foi o sistema de crenças das administrações americanas consecutivas que causaram tudo isso? A PAZ NO ORIENTE MÉDIO LEVARÁ A PREÇOS MAIS ALTOS DE PETRÓLEO E GASOLINA. Não esqueçamos também do poder da indústria bélica, disfarçada de defesa, que ainda vende bilhões de dólares em armas para a região. Portanto, não tem sido do interesse econômico de curto prazo dos EUA promover a paz no Oriente Médio. Seguindo esse raciocínio, os EUA incentivaram governos extremistas, derrubaram democracias (como no caso do Irã, substituindo-a por uma monarquia), manipularam eleições e cometeram muitos outros crimes políticos inomináveis em benefício de suas empresas no exterior.
Não esqueçamos também do Pânico Vermelho. Durante a guerra entre a antiga União Soviética e o Afeganistão, os EUA armaram e apoiaram o Talibã — uma organização muçulmana fundamentalista — e permitiram que exportassem ópio e heroína de seu país para financiar essas armas. Assim, o Talibã ascendeu ao poder e ao controle com a ajuda dos EUA. Hoje, os bombardeios no Iraque ainda continuam — já não mais cobertos pela mídia —, o embargo econômico permanece, matando milhões de crianças, e, recentemente, enquanto o mundo e a Assembleia Geral da ONU clamavam pelo envio de forças de paz a Israel e à Palestina para conter a escalada da guerra e os assassinatos, os EUA vetaram a decisão do Conselho de Segurança e impediram a possibilidade de paz naquele que é o lugar mais volátil do mundo.
Pessoas na Sérvia, no Líbano, no Iraque, no Sudão e no Afeganistão — para citar alguns — já viram bombas cair, nem sempre em alvos militares, matando civis inocentes, como ocorreu ontem na cidade de Nova York. As guerras travadas por nosso governo, em nosso nome, caíram no meio da nossa sala de estar. Meia hora de destruição fechou os mercados financeiros do mundo, atingiu o quartel-general das nossas Forças Armadas, fez nossos líderes correrem para os bunkers e deixou nossos cidadãos dominados pelo medo e pelo pânico.
O que mais me assusta, mais do que o que ocorreu, é o que nossas reações aos acontecimentos podem causar. O presidente Bush pertence a uma longa geração de presidentes republicanos que adoram economias de guerra. A mídia concentrou-se apenas nos bombardeios, por assim dizer, e nos tipos de retaliações que se avizinham. O que todos deixam de perceber é que os atentados são uma reação a injustiças existentes no mundo, geralmente invisíveis à maioria dos americanos. Reagir a uma reação seria patrocinar ainda mais reações. Em outras palavras, acredito que o terror se multiplicará se passos concretos não forem dados para promover a paz no Oriente Médio, AGORA. Isso não significa que não devamos encontrar os culpados — Bin Laden ou quem quer que seja — e julgá-los. Simplesmente, enquanto uma grande injustiça perdurar, a violência virá à tona.
Folclores indígenas, a Bíblia, Nostradamus e muitas outras crenças religiosas apontam para esta era com as imagens dos desastres de ontem e as condições ecológicas que vivenciamos diariamente. Guerra, rumores de guerra, fome, incêndios persistentes, etc., estão à nossa porta. Podemos superar essa possível visão com o poder do espírito humano, da compreensão, da compaixão e da paz. É HORA DE COLOCAR NOSSAS NECESSIDADES DE SEGURANÇA E SOBREVIVÊNCIA — ALCANÇADAS APENAS POR MEIO DA PAZ — ACIMA E ALÉM DOS LUCROS, ESPECIALMENTE NESTES TEMPOS.
SOLUÇÃO:
– Os EUA devem parar de contornar o Conselho de Segurança da ONU e permitir o envio de tropas e missões de paz ao Oriente Médio. Parar a violência primeiro.
– Parar os bombardeios e as patrulhas no Iraque.
– Com os avanços atuais no uso de combustíveis alternativos, desenvolvê-los plenamente para automóveis e outras utilidades, a fim de tornar o país menos dependente de uma reserva natural já em declínio — o petróleo.
Ao iniciar a paz, já teríamos abalado os alicerces do apoio a Bin Laden — e/ou a todos que patrocinam atividades como as que vimos ontem — e quebrado o domínio dos extremistas sobre o mundo islâmico. Por outro lado, se realizarmos bombardeios no Afeganistão ou em outro lugar para agradar à opinião pública, muito provavelmente matando civis inocentes no processo, estaremos criando ainda mais mártires prontos para morrer em retaliação à retaliação. Como mostrado nos eventos de ontem, não se pode impedir alguém que está disposto a morrer.















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