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Quando o punk entrou na sala errada: os Ramones, Phil Spector e o disco que quase saiu à força

Nem todo muro de som protege. Alguns aprisionam

 Ramones
Foto: Peter Noble / Redferns via

A história do rock adora caos. E costuma romantizá-lo. Mas há sessões de estúdio que não soam caóticas. Elas rangem. As gravações de End of the Century (1980), dos Ramones, não foram só difíceis.


Foram estranhas, tensas, desconfortáveis. Daquelas que ninguém quer reviver, mas todo mundo conta. No centro desse atrito estava um nome pesado demais para uma banda que sempre viveu de leveza agressiva: Phil Spector.



Parecia uma ideia boa no papel. Nunca foi no estúdio. Antes de entrar nessa história, é preciso entender quem era Spector. Um gênio da produção. Um arquiteto do famoso Wall of Sound, aquela muralha sonora feita de camadas, repetições, obsessão por detalhe. Um homem que transformava canções simples em monumentos. E, ao mesmo tempo, alguém conhecido por controle excessivo, humor instável, atitudes erráticas. Isso tudo já circulava como aviso nos corredores da indústria.


Agora imagine esse produtor diante de quatro caras que acreditavam no oposto de tudo isso. Os Ramones gravavam rápido. Tocavam mais rápido ainda. Canções diretas, dois minutos, sem espaço para virtuosismo ou grandiloquência. Punk como recusa. Punk como corte seco.


O choque era inevitável. A gravadora queria alcance. Rádio. Mercado. Um disco que pudesse ir além do circuito punk. Spector parecia o nome certo para “abrir” o som da banda. Polir. Empilhar. Tornar maior. Os Ramones toparam, mais por cansaço do que por convicção.

E então veio o estúdio.



Com o tempo, as histórias se acumularam. Relatos de sessões intermináveis. De obsessão por uma única introdução de guitarra repetida até a exaustão. De portas fechadas. De clima pesado. E, claro, o episódio que virou quase folclore: a suposta presença de uma arma durante as gravações, usada por Spector para intimidar e manter músicos no estúdio.


Não há boletim de ocorrência. Não há registro técnico. O que existe são memórias cruzadas, entrevistas, biografias, versões que variam nos detalhes, mas concordam no essencial: ninguém estava confortável ali.


Johnny Ramone teria sido impedido de ir embora. A mesma sequência tocada por horas. Não por aprimoramento. Por controle. A música como teste de resistência. Importante dizer: essa história vive no território da memória oral do rock. Não é documento. É mito. Mas mitos não surgem do nada. Eles se alimentam de ambientes reais, de sensações compartilhadas, de experiências que deixam marca.



O estúdio, naquele momento, deixou de ser espaço criativo e virou campo de batalha silencioso. O resultado foi End of the Century. Um disco diferente de tudo o que os Ramones haviam feito até então. Mais encorpado. Mais cheio. Mais “produzido”. Para alguns fãs, uma heresia. Para outros, uma curiosidade fascinante. Comercialmente, funcionou melhor do que os álbuns anteriores. Artisticamente, dividiu opiniões e a própria banda.


A colaboração não sobreviveu ao álbum. As cicatrizes ficaram. Anos depois, membros dos Ramones deixaram claro o desconforto com o processo e, em alguns casos, com o resultado final. Não era o som que eles tinham em mente quando começaram a tocar juntos em Nova York.



Ainda assim, o disco permanece. Não como consenso. Mas como ponto de inflexão. Um registro de quando o punk aceitou entrar num castelo sonoro e percebeu, tarde demais, que ali dentro as regras eram outras.


End of the Century não é apenas um álbum dos Ramones. É o retrato de um encontro que nunca deveria ter sido simples. Um lembrete de que nem todo gênio sabe ouvir. E de que, às vezes, a obsessão criativa deixa de ser método e vira ameaça.


O punk sobreviveu. Mas saiu daquele estúdio sabendo exatamente o que não queria ser.

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