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Antes de Ziggy, antes da fama: quando David Bowie enfrentou o preconceito com o próprio cabelo

Tudo começa pequeno. Às vezes com um corte que se recusa a obedecer

David Bowie
Foto: Dezo Hoffman/Shutterstock

Em 1964, muito antes de o mundo aprender a pronunciar o nome David Bowie com reverência, havia apenas um garoto magro, de 17 anos, enfrentando algo banal e violento ao mesmo tempo: o ódio cotidiano dirigido a quem ousava parecer diferente.



O nome dele ainda era David Jones. O palco, um estúdio da BBC. O motivo, cabelo.

Na Inglaterra do início dos anos 1960, homem de cabelo comprido não era moda, era provocação. Era visto como afronta direta à ideia de masculinidade aceita. Ganhava apelido na rua. Era barrado em bares. Era parado pela polícia. Às vezes apanhava. Tudo isso por alguns centímetros a mais de fio.


Bowie entendeu cedo que o corpo é um campo político. E resolveu agir. Nascia ali, entre ironia e estratégia, a Society for the Prevention of Cruelty to Long-Haired Men. O nome já dizia tudo. Uma paródia das instituições respeitáveis. Um espelho apontado para o ridículo do conservadorismo. Não era exatamente uma ONG, nem queria ser. Era um gesto. Um ruído. Um dedo cutucando a ferida.


Em novembro daquele ano, Bowie apareceu no programa Tonight, da BBC, falando sério e rindo por dentro. Denunciou o deboche diário. Comentários como “Querida!” ou “Posso carregar sua bolsa?” não eram piadas inocentes. Eram formas de enquadrar, diminuir, corrigir. Ele disse, em rede nacional, que aquilo precisava parar. Não era só estética. Nunca foi.


Claro, havia ali também cálculo. O empresário Les Conn enxergou a oportunidade. Um produtor da BBC exigia que Bowie cortasse o cabelo para se apresentar. Bowie disse não. A sociedade surgiu como resposta e, ao mesmo tempo, como jogada de visibilidade. Bowie aprendeu rápido que conflito também comunica. Que escândalo bem direcionado abre portas que o talento sozinho ainda não consegue empurrar.



Isso não diminui o gesto. Pelo contrário. Revela algo essencial: Bowie sempre soube usar o sistema contra ele mesmo.


A defesa do cabelo comprido era, no fundo, defesa do direito de existir fora da norma. Era identidade. Era recusa. Era o embrião de tudo o que viria depois. Ziggy Stardust não surge do nada. Aladdin Sane não cai do céu. O Thin White Duke não aparece por acaso. Todos eles já estavam ali, escondidos naquele garoto que se recusava a obedecer um pente.


A sociedade não durou. Nem precisava. Seu valor não está na longevidade, mas no símbolo. Aos 17 anos, Bowie já entendia que causar desconforto é uma forma legítima de avançar o mundo alguns milímetros. Que a imagem também fala. Que o choque abre frestas.



Antes dos palcos lotados, dos discos históricos, da aura de gênio, havia isso: um jovem dizendo, em voz alta, que ninguém deveria ser punido por parecer diferente. O nome ainda não era Bowie. Mas a atitude já era.



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