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Obsessão, em seu interessante terror moderno, explora os riscos dos relacionamentos abusivos e tóxicos

Um terror psicológico que encontra nos medos da vida real sua maior fonte de inquietação

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução


No caos moderno que vivemos, entre correrias e obrigações, recebendo inúmeras informações a cada instante e sobrevivendo a problemas psicológicos cada vez mais recorrentes, é sábio o gênero terror também tomar outro rumo, algo que fique sintonizado com os problemas que nos afligem nestes tempos. Assuntos como luto, trauma, relações tóxicas, egocentrismo, depressão e bullying passaram a servir como bases necessárias para o gênero.



 


As criaturas com suas armas letais e diversas formas cruéis de matar suas vítimas que antes dominavam, tais como Jason e Freddy Krueger, foram dando espaço para conflitos que até então sempre nos assombram e que hoje em dia estão mais frequentes. Temores e medos tão reais, dos quais não escapamos, muitos deles que podem ficar por uma vida inteira (como a lembrança de um ente querido cuja perda não aceitamos tão facilmente).

 

Obsessão (Obsession, 2025), filme escrito e dirigido por Curry Barker, cai profundamente nessa questão, embora carregue uma premissa simples, não extrapole em sangue e sequer utilize efeitos mirabolantes. Novamente, a exemplo dos irmãos Philippou (Faça Ela Voltar, 2025), estamos diante de uma obra interessante vida de um diretor sem muita experiência e que começou a construir suas carreira como youtuber.

 

O filme acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem tímido perdidamente apaixonado por uma de suas melhores amigas, Nikki (Inde Navarrette). Sem nunca ter coragem de revelar seus sentimentos, ele compra um estranho acessório que promete realizar um desejo assim que for quebrado. Após realizar seu desejo, Nikki passa a amar Bear, porém de uma maneira verdadeiramente e profundamente perturbadora.

 

Sem ter pressa, Barker vai preparando o espectador. Faz questão de modelar gradativamente as constantes e assustadoras mudanças comportamentais de Nikki, muitas delas surgindo em passagens brutais e inesperadas na tela. Ela consegue injetar temor e medo nas expressões macabramente forçadas que faz, bem como em sua forma de chamar a atenção de Bear.

 

Muitas cenas são chocantes, sem abusarem da visceralidade. O ‘body horror’ está presente, embora em doses pequenas, muitas vezes representando o comportamento de Nikki, que pode chegar até a praticar atos de automutilação. Para se ter uma ideia, uma cena que poderia parecer trivial com a personagem escondendo seu rosto atrás de um jarro de flor, acaba revelando um momento profundamente inquietante que acaba influenciando no que virá a seguir na relação entre os dois personagens.

 

Créditos: Universal Pictures / Divulgação
Créditos: Universal Pictures / Divulgação

Não desenvolvendo um universo estranhamento complexo e também não querendo se aprofundar tanto em mitologias, o filme incomoda em recursos simples, muitas vezes até minimalistas. Cantos escuros, a movimentação/os gestos dos personagens (inclusive de Nikki) e até mesmo uma descontraída reunião entre amigos podem esconder surpresas e sustos, além de progredir ainda mais com a tensão crescente.

 

O terror aqui não é construído de forma abrupta, brutal ou de maneira convencional. A sensação de desconforto cresce conforme percebemos que a relação entre os personagens começa a tomar novos rumos. Quando a necessidade obsessiva, a recusa em deixar ir, o desejo de ter alguém exatamente como você imagina resvalam para um panorama sombrio, inquietante e perigoso.





O magnífico trabalho de som (que ganha forças com o grito e os choros de Nikki) e a iluminação conferem um charme a mais para o longa. A câmera também faz um belo trabalho, sobretudo quando pensamos o tanto que ela é importante nos filmes desse gênero. Destaque para o elenco que convence, sobretudo Inde Navarrette que certamente deve ser incluída como uma das candidatas ao Oscar do próximo ano.

 

Obsessão é um filme de terror interessante e capaz de falar muito sobre a modernidade, que aponta novos rumos para o gênero da nova safra. Explorar o que é tão próximo de nós, tão real, que convive tanto em nossa sociedade. É assustador e ao mesmo tempo faz um alerta. Quando o gênero terror acerta esses dois objetivos só temos a agradecer.

Trailer:


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