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Oasis: a classe trabalhadora também tinha o direito de conquistar o mundo

há 23 horas
4 min de leitura

De Manchester para o mundo, os irmãos Gallagher transformaram a inconformidade de uma geração operária em alguns dos maiores hinos do rock britânico

Oasis
Foto: Simon Emmett


O Oasis nasceu de uma Inglaterra que conhecia muito bem o desemprego, a desigualdade e o desprezo reservado àqueles que vinham dos bairros operários. Em Burnage, na zona sul de Manchester, Noel e Liam Gallagher cresceram entre as dificuldades de uma família de origem irlandesa e as consequências de uma década marcada pelas políticas de Margaret Thatcher.





A indústria britânica perdia empregos, comunidades inteiras enfrentavam o abandono econômico e uma geração começava a perceber que trabalhar duro já não oferecia qualquer garantia de futuro. Foi nesse ambiente que dois irmãos encontraram na música uma maneira de confrontar o destino que parecia reservado a eles.


Antes dos grandes palcos, Noel Gallagher conheceu a rotina de trabalhos mal remunerados, passou pela construção civil, por uma padaria e por outros empregos que pagavam as contas sem oferecer grandes perspectivas. Liam também viveu o desemprego. Nenhum dos dois surgiu dos círculos privilegiados da indústria cultural britânica. Suas referências estavam nos Beatles, nos discos que circulavam entre amigos, no futebol, nos pubs e nas ruas de Manchester.


Quando o Oasis começou a ganhar forma, aquela experiência de classe já estava impregnada na maneira como os irmãos enxergavam o mundo. Havia arrogância, certamente, mas havia também algo profundamente compreensível naquela confiança quase ofensiva: jovens acostumados a receber pouco da vida estavam decididos a exigir tudo.





Definitely Maybe, lançado em 1994, carregava essa tensão em cada guitarra. Em "Rock 'n' Roll Star", Noel transformou a fantasia de abandonar uma existência ordinária em uma afirmação de identidade. "Cigarettes & Alcohol" expunha o desencanto de uma juventude diante de um mercado de trabalho incapaz de oferecer perspectivas atraentes. "Bring It On Down" vinha carregada de ressentimento social, enquanto "Live Forever" apresentava uma disposição quase insolente de continuar vivendo, desejando e acreditando no futuro.


O disco tinha a urgência de quem conhecia os limites impostos pela própria condição econômica e se recusava a aceitar que esses limites também determinassem o tamanho dos seus sonhos.



A voz de Liam era fundamental para essa identidade. Seu jeito de cantar, com o corpo inclinado para trás, as mãos frequentemente presas às costas e o rosto projetado em direção ao microfone, transmitia uma mistura de desafio e vulnerabilidade. Noel, por sua vez, compreendia a força de uma melodia capaz de atravessar estádios sem perder a intimidade de uma canção cantada entre amigos.


O Oasis encontrou uma linguagem que dispensava sofisticação acadêmica e virtuosismo ostensivo. Sua música tinha a dimensão coletiva das arquibancadas, dos encontros depois do expediente, das noites em que uma canção conseguia aliviar o peso de uma semana inteira. Milhares de pessoas reconheciam naqueles refrões sentimentos que raramente encontravam espaço na representação elegante e domesticada da classe trabalhadora.


O sucesso também expôs uma antiga divisão da sociedade britânica. Na rivalidade alimentada pela imprensa entre Oasis e Blur, diferenças musicais foram convertidas em uma disputa simbólica entre o norte operário e o sul associado à classe média.


A comparação frequentemente reduzia duas bandas complexas a caricaturas sociais, mas revelava uma questão que ultrapassava a música: quem tinha legitimidade para representar a cultura britânica? Os Gallagher não escondiam o sotaque de Manchester, não procuravam suavizar suas origens e tampouco demonstravam interesse em corresponder às expectativas de comportamento das elites culturais.


Sua presença incomodava porque contrariava a ideia de que o reconhecimento artístico precisava vir acompanhado dos códigos sociais tradicionalmente valorizados por essas elites.


Seria equivocado, entretanto, transformar o Oasis em uma organização política ou atribuir aos Gallagher uma consciência revolucionária que nunca constituiu o centro de sua trajetória. A banda acumulou contradições, comportamentos questionáveis e relações bastante ambíguas com o poder. A própria indústria que inicialmente se encantou com sua irreverência tratou de convertê-la em mercadoria.


O entusiasmo da chamada Cool Britannia, posteriormente associado ao governo de Tony Blair, incorporou parte daquela energia cultural a uma narrativa de renovação nacional. O espírito insurgente dos primeiros discos acabou convivendo com o dinheiro, o estrelato e os interesses de uma indústria que sempre soube transformar inconformismo em produto.





,Ainda assim, existe uma dimensão política impossível de retirar da história do Oasis. Ela está na origem social dos músicos, na maneira como suas canções atravessaram diferenças econômicas e na identificação construída com milhões de jovens que conheciam o desemprego, a precariedade e a sensação de terem recebido um futuro menor do que aquele prometido às gerações anteriores.


Em 96, quando a banda reuniu multidões em Knebworth, a distância entre as pequenas casas de Burnage e os maiores palcos britânicos parecia ter sido atravessada por uma geração inteira. O tamanho daquele acontecimento também revelava a força de uma cultura popular frequentemente subestimada por quem julgava possuir autoridade para definir o que merecia reconhecimento artístico.


Oasis nunca precisou apresentar um programa político para que sua história carregasse as marcas de um conflito de classes. O próprio desejo de escapar de uma vida determinada pela origem econômica já continha uma recusa importante, ainda que individual e contraditória.


Noel e Liam conquistaram riqueza, fama e privilégios que os afastaram materialmente do universo em que cresceram, mas as primeiras canções conservaram a memória daquele lugar. Quando milhares de pessoas cantam "Live Forever" ou "Don't Look Back in Anger", parte dessa identificação permanece viva.





É a lembrança de uma juventude que encontrou no rock uma possibilidade de imaginar a própria existência para além do trabalho, da sobrevivência e das expectativas impostas por sua posição social. Em uma sociedade que sempre procurou convencer os trabalhadores a conhecer seu lugar, o Oasis apareceu fazendo um barulho extraordinário sobre tudo aquilo que desejava conquistar.



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