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David Bowie cantou de um lado do muro e do outro Berlim devolveu sua voz

há 24 horas
5 min de leitura

Em 1987, “Heroes” atravessou uma fronteira que milhões de pessoas ainda eram proibidas de cruzar. Naquela noite, Bowie descobriu que algumas canções carregam sentimentos maiores do que seus próprios autores

David Bowie
Imagem: Alamy

Há uma diferença brutal entre cantar para uma multidão e ouvir uma multidão que você não consegue enxergar. David Bowie conheceu essa diferença em 6 de junho de 1987, diante do Muro de Berlim. De um lado, o palco, os amplificadores, as luzes e milhares de pessoas.





Do outro, uma cidade submetida à vigilância, à repressão e à experiência cotidiana de viver separada do restante do mundo por uma decisão política. Entre aquelas duas realidades havia concreto, arame farpado e homens armados. Mas havia também uma música que nenhuma daquelas estruturas conseguiria deter.


Bowie já tinha vivido muitas vidas quando chegou àquela apresentação. Havia sido Ziggy Stardust, encarnado o Duque Branco Magro, atravessado o glam rock, o soul, a música eletrônica e o experimentalismo com uma inquietação que parecia não lhe permitir permanecer muito tempo no mesmo lugar. Sua carreira era uma sucessão de transformações, algumas fascinantes, outras desconcertantes. O artista que parecia tão interessado em inventar personagens também passava a vida tentando compreender o homem que existia por trás deles.


E foi justamente em Berlim que essa busca ganhou uma de suas expressões mais profundas. Em 1977, Bowie havia gravado “Heroes” nos estúdios Hansa, próximos ao muro que dividia a cidade. Ao lado de Brian Eno, Tony Visconti e músicos como Robert Fripp, construiu uma composição de intensidade crescente. A guitarra de Fripp parece suspensa no ar, produzindo uma tensão quase física. A voz começa contida, como uma confidência, e vai se expandindo até alcançar uma urgência que beira o desespero. Bowie canta como alguém que precisa fazer suas palavras atravessarem uma distância impossível.





A letra acompanha dois amantes diante de uma realidade que insiste em separá-los. Há um beijo junto ao muro, há o medo, há a consciência de que a felicidade pode durar muito pouco. O heroísmo imaginado por Bowie não depende de uma grande vitória. Ele pertence a pessoas comuns, capazes de encontrar alguma coragem mesmo quando tudo ao redor parece determinado a esmagá-las.


Essa é uma das contradições mais bonitas de “Heroes”: sua grandeza nasce justamente da consciência de que somos frágeis. A canção não promete que o amor resolverá a violência do mundo. Não garante que os amantes permanecerão juntos ou que os obstáculos desaparecerão. Ela oferece um dia. Um único dia em que duas pessoas podem desafiar aquilo que lhes foi imposto.


Existe uma honestidade nessa ideia. Afinal, quantas vezes a vida nos permite experimentar alguma felicidade sem que ela venha acompanhada do medo de perdê-la? Quantas pessoas precisam lutar pelo direito de amar, de existir, de atravessar uma fronteira, de permanecer em sua própria terra? Quantas histórias são interrompidas porque alguém, em algum lugar, decidiu que determinados seres humanos não deveriam ter as mesmas liberdades que outros?


Dez anos depois da gravação, essas perguntas ganharam rostos que Bowie sequer conseguia ver.


Naquela noite de junho, enquanto ele se apresentava em Berlim Ocidental, pessoas se reuniam do lado oriental para escutar o concerto. A música atravessava a fronteira, alcançando jovens que viviam sob as restrições da Alemanha Oriental. A polícia reprimiu parte daqueles que tentavam se aproximar. Havia pessoas sendo impedidas de ouvir um show na própria cidade.


Antes de cantar “Heroes”, Bowie enviou seus cumprimentos aos amigos que estavam do outro lado do muro. E então aconteceu algo que permaneceria com ele pelo resto da vida.

As vozes começaram a responder. Bowie conseguia ouvir pessoas cantando do outro lado da barreira. Não podia abraçá-las, aproximar-se delas ou sequer distinguir seus rostos. Mas elas estavam ali.


Aquelas vozes atravessavam o concreto e devolviam ao cantor uma música que, dez anos antes, havia nascido justamente da imagem de pessoas tentando preservar o amor diante daquela divisão.


O homem que passara a carreira inteira criando identidades encontrou, naquele instante, uma experiência que dispensava qualquer personagem. Anos depois, Bowie recordaria aquela apresentação com uma emoção que o tempo não havia conseguido diminuir:


“Quando tocamos ‘Heroes’, parecia um hino, quase como uma oração.”





Ele contou que ouvir as pessoas cantando do outro lado o deixou profundamente comovido. Nunca havia vivido algo semelhante e acreditava que jamais voltaria a viver. É difícil imaginar o que significa estar diante de uma plateia cuja existência você conhece apenas pelo som. Saber que aquelas pessoas estão próximas, mas que a política, a repressão e a história transformaram alguns metros de distância em uma separação quase intransponível.


E perceber que, durante alguns minutos, uma canção permite a todos compartilhar o mesmo sentimento. O muro continuou de pé naquela noite. As pessoas continuaram separadas. A repressão não desapareceu quando os instrumentos foram desligados. A realidade permaneceu tão dura quanto antes.


Mas algo havia acontecido. E isso importa porque a história não precisa ser romantizada para ser emocionante. Bowie não derrubou o Muro de Berlim com uma música. Sua queda, em novembro de 1989, foi resultado de processos políticos, pressões sociais e da mobilização de milhares de pessoas. Reduzir essa conquista a um concerto seria diminuir a coragem de quem viveu e enfrentou aquela realidade.


O que Bowie proporcionou naquela noite foi outra coisa: um momento em que pessoas separadas por um regime político puderam reconhecer umas às outras através da música. Décadas depois, “Heroes” continua provocando uma emoção difícil de domesticar. Ela aparece em filmes, atravessa gerações, acompanha despedidas, encontros e momentos em que precisamos reunir alguma coragem para continuar. Cada pessoa chega até ela carregando suas próprias perdas, seus desejos e aquilo que ainda espera da vida.


Há quem encontre nessa música uma declaração de amor. Há quem escute nela a urgência da liberdade. Outros reconhecem o sentimento de quem passou a vida inteira tentando encontrar um lugar onde pudesse existir sem pedir desculpas por ser quem é. Bowie conhecia esse sentimento. Sua obra desafiou convenções de gênero, aparência, comportamento e identidade artística. Ao longo de décadas, mostrou que ninguém deveria ser obrigado a permanecer aprisionado à versão de si mesmo que o mundo considera aceitável.


Por isso, existe algo particularmente comovente em perceber que uma de suas músicas mais importantes não fala de um ser extraordinário. Fala de duas pessoas que desejam ficar juntas, apesar do medo, apesar da violência e apesar de tudo aquilo que tenta separá-las.


David Bowie morreu em janeiro de 2016. O Muro de Berlim já havia desaparecido havia mais de 26 anos. A cidade que ele conheceu dividida tornou-se outra. O mundo também mudou, embora continue produzindo suas próprias fronteiras, seus mecanismos de exclusão e suas formas de negar liberdade a quem simplesmente deseja viver.


Aquela apresentação de 1987 permanece porque nos obriga a pensar no que realmente significa ser livre. Na possibilidade de amar sem perseguição. De circular sem medo. De pensar, criar, discordar e existir sem que alguém determine os limites da nossa humanidade.

Bowie passou boa parte da vida procurando novas maneiras de cantar sobre a condição humana. Em Berlim, diante de um muro construído para separar pessoas, ouviu sua própria voz retornar carregada da esperança daqueles que estavam do outro lado.


E é impossível não se emocionar com o significado daquele encontro. Porque, naquela noite, enquanto David Bowie cantava sobre a possibilidade de sermos heróis por um único dia, havia pessoas do outro lado do concreto tentando conquistar algo muito mais simples.

O direito de viver todos os dias em liberdade.




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