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Medida Provisória, de Lázaro Ramos, usa Futurismo e Distopia para tratar de temas como racismo.

Atualizado: 28 de nov. de 2022

Urgente, futurista e contextualizado com a nossa realidade, 'Medida Provisória' se faz necessário em 2022

Foto: Divulgação

"Medida Provisória" é uma adaptação da peça "Namíbia, Não!" de autoria do ator, dramaturgo e roteirista Aldri Anunciação. A peça chegou aos teatros em 2011. Com uma narrativa capaz de repercutir bastante nos tempos atuais devido a várias temáticas abordadas, inclusive falando sobre racismo, nada mais justo chegar aos cinemas. A direção é de Lázaro Ramos que, depois de uma ampla filmografia atuando como ator, faz sua estreia como diretor.


Mas esse filme não chegou de maneira fácil. Enfrentou obstáculos para chegar aos cinemas brasileiros, além disso, chegou a sofrer boicote e foi adiado quatro vezes antes de ser aprovado pela Ancine (Agência Nacional de Cinema). Chega numa época turbulenta onde temas delicados podem gerar controvérsias e abrir espaço para discórdias e discussões jogando a produção para um lugar obscuro dentro do panorama artístico de nosso país.


Primeiro fato importante da produção é mostrar a distopia dentro de um panorama brasileiro. O Cinema precisa explorar mais esse recurso. Dessa forma, o filme coloca seus personagens inseridos em um Brasil distópico que agora tenta reparar, de forma desajustada, o passado escravocrata dos cidadãos afrodescendentes. A medida provisória então chega na forma de uma viagem de retorno para esses cidadãos aos seus países de origem. Mas a medida, antes voluntária, passa a ser obrigatória causando um caos geral, despertando o racismo em sua forma mais opressora e crua possível.


Num apartamento de subúrbio, vamos acompanhando a vida de três personagens: o advogado Antônio (Alfred Enoch) e sua esposa, a médica Capitú (Taís Araújo), além do extrovertido primo de Antônio, o jornalista André (Seu Jorge em outra ótima atuação). De uma rotina simples em seus trabalhos e vidas pessoais, os três personagens passarão a viver momentos conturbados num filme onde a complexidade da situação fica mais intensa e corrosiva a cada cena.


Tomando o ofício do Cinema para mostrar as feridas reais de uma sociedade que ainda mastiga o preconceito racial (em 2022), ‘Medida Provisória’ dá suas cutucadas diretas em meio a cenas e personagens que surgem. Seja pela inveja do segurança do prédio onde Capitú trabalha que não aceita o carro bonito que Antônio dirige ou seja pela dona do prédio onde o trio mora que vê na possibilidade da Medida, um jeito de se livrar dos vizinhos negros.

A narrativa emprega metáforas precisas que colocam o Cinema em conformidade com muito do que presenciamos na vida real. A criação de um Ministério irrelevante com o ridículo nome de Ministério da Devolução, na verdade, só esconde um governo fascista que já estigmatizava a raça negra os chamando de Melanina Acentuada. Uma lei que surge contra o cidadão e que lhe é imposta à força, sem direito a contrapropostas.


O humor comparece, apesar de sutil e criativo. A cena em que as perguntas de André desconcertam a funcionária Isabel (Adriana Esteves), responsável pela divulgação da Medida, além do jovem vizinho asiático do trio que teima em dizer ser tão negro quanto eles, estão ali para suavizar os momentos tensos, embora tragam uma parte crítica na trama.


A trilha sonora, recheada de bons representantes, torna-se um elemento muito importante para o objetivo da trama. A voz impactante de Elza Soares em “O Que Se Cala” casa com um dos propósitos da trama, comumente citado pelo advogado Antônio a plenos pulmões: ‘devemos resistir’. Aliás, o filme faz questão de ressaltar isso e tudo se reflete na frase citada no final: ‘Num estado de cultura de morte, viver é desobediência civil’.



No mais, a trilha é bem diferenciada e se preocupa em fazer uma ponte entre o Passado e a Modernidade (Cartola e Baco Exu do Blues), chegando ao ponto de resgatar o clássico “O Guarani” de Antônio Carlos Gomes. O rapper Emicida faz uma ponta no filme.


"Medida Provisória" acaba se saindo melhor como um ensaio do que propriamente um filme. Para um início como diretor, Lázaro se sai bem e consegue colocar influências corretas de filmes que citam o Futurismo e a Distopia como ingredientes básicos (pense em "Distrito 9" do diretor Neil Blomkamp).

A própria magia do Teatro (onde a trama nasceu) deixa sua impressão quando observamos que muitas cenas acabam importantes sem precisarem de locações externas, como foram as que ocorreram dentro do apartamento do trio, sobretudo através de diálogos e da clausura opressiva dos personagens Antônio e André.


É um caminho novo para o Cinema. Moderno, colorido, visualmente dinâmico, preocupado com a realidade de um país que ainda esconde seus preconceitos, pegando referências do cinema americano e europeu sem deixar de inseri-las em nossa verve artística. Pode não ser espetacular, embora seja importante, necessário e pode importunar. Que esse cinema então resista.

 

Medida Provisória

Medida Provisória


Ano: 2022

País: Brasil

Direção: Lazaro Ramos

Duração: 1h 21 min

Elenco: Seu Jorge, Taís Araújo, Alfred Enoque, Adriana Esteves

Produtor: Daniel Filho e Tânia Rocha

Gênero: Drama

 

NOTA DO CRÍTICO: 7,5

 

Assista ao trailer do filme:


 

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