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Manic Street Preachers: o preço de tolerar o intolerável

há 1 dia
4 min de leitura

Inspirada na Guerra Civil Espanhola, If You Tolerate This Your Children Will Be Next recupera uma advertência contra o fascismo e provoca uma reflexão sobre a indiferença diante do autoritarismo

Manic Street Preachers
Imagem: Reprodução


Uma criança morta. Sobre seu corpo, uma identificação numérica. Acima, aviões militares atravessam o céu. A imagem fazia parte de um cartaz produzido pelo governo republicano espanhol durante a Guerra Civil, entre 1936 e 1939. Não havia qualquer delicadeza naquela campanha. A intenção era mostrar ao mundo o que os bombardeios estavam fazendo com a população civil.





Abaixo da fotografia, uma advertência que atravessaria o século:


“Se vocês toleram isso, seus filhos serão os próximos.”


Décadas depois, os Manic Street Preachers recuperaram aquelas palavras para dar nome a uma das canções mais marcantes de sua trajetória. Lançada em 1998, no álbum This Is My Truth Tell Me Yours, If You Tolerate This Your Children Will Be Next nasceu da memória dos voluntários galeses que viajaram à Espanha para combater as forças de Francisco Franco, integrando as Brigadas Internacionais em defesa da República.


A composição carrega uma contradição musical fascinante. Sua melodia é melancólica, quase acolhedora, enquanto a letra revisita o medo, a guerra e a disposição daqueles que decidiram enfrentar o fascismo. Não existe celebração da violência, mas o reconhecimento de que houve pessoas dispostas a arriscar a própria vida diante de uma ameaça que muitos preferiram observar à distância.


A canção chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas. Uma advertência antifascista, nascida de uma das experiências mais sangrentas da Europa do século XX, encontrava espaço no coração da música popular.


O que torna essa história tão perturbadora é perceber que os mecanismos que permitem o avanço do autoritarismo não desapareceram com a derrota dos regimes fascistas europeus. A intolerância não começa necessariamente com soldados marchando pelas ruas. Pode surgir na desumanização de grupos sociais, na perseguição a adversários, na transformação de minorias em ameaças e na repetição de discursos que apresentam a violência como uma solução aceitável.





E existe uma responsabilidade coletiva quando essas práticas deixam de provocar indignação.


O Brasil conhece as consequências de um regime autoritário. Viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985, período marcado por censura, perseguições políticas, prisões arbitrárias, tortura e assassinatos cometidos por agentes do Estado. Décadas depois, em 8 de janeiro de 2023, assistiu à invasão e depredação das sedes dos Três Poderes por manifestantes que defendiam uma ruptura da ordem democrática.


Não se trata de confundir divergência política com autoritarismo. Uma democracia precisa da oposição, do debate e da liberdade para contestar seus governantes. Mas existe uma diferença fundamental entre criticar instituições e defender sua destruição pela força. A liberdade não pode ser utilizada como justificativa para eliminar as liberdades dos outros.


Eu estava trabalhando em um hospital quando a pandemia chegou ao Brasil, em 2020. Como técnico em radiologia, acompanhei de perto uma realidade que nenhuma reportagem seria capaz de traduzir inteiramente. Vi situações que ainda hoje me acompanham e senti o peso de uma tragédia que ultrapassou os corredores dos hospitais.


Por isso, não consigo tratar com indiferença o desprezo pela ciência, a desinformação ou os discursos que diminuem a importância da saúde pública. Para quem esteve na linha de frente, o SUS nunca foi apenas uma sigla, tampouco uma bandeira partidária. Era parte essencial da resposta a uma emergência que colocou milhares de profissionais diante dos limites da própria resistência.


É também por isso que defendo a educação pública, as universidades, a pesquisa científica, o ProUni e os programas sociais que procuram ampliar oportunidades e reduzir desigualdades. Nenhuma dessas políticas está acima de críticas, mas existe algo profundamente injusto em tratar direitos e instrumentos de inclusão como privilégios dispensáveis.





Não é preciso depender de um benefício para reconhecer sua importância na vida de outra pessoa. Uma sociedade não pode ser medida apenas pelo que oferece àqueles que já possuem condições de sobreviver. Também precisa ser julgada pela maneira como trata os que mais necessitam de proteção. E quando penso nas próximas gerações, a advertência dos Manic Street Preachers deixa de parecer tão distante: o futuro dos nossos filhos também depende daquilo que estamos dispostos a defender no presente.


O problema não está apenas naqueles que praticam a violência, mas também na normalização de discursos que procuram justificá-la. Quando o sofrimento alheio passa a ser considerado aceitável em nome de uma causa, os limites da convivência democrática começam a se desfazer.


A história não se repete de maneira idêntica. O Brasil contemporâneo não é a Espanha de 1936, assim como os conflitos políticos atuais possuem circunstâncias próprias. Mas reconhecer essas diferenças não impede que observemos mecanismos semelhantes de intolerância, desumanização e desprezo pelas garantias democráticas.


A memória histórica serve também para isso. Não para transformar qualquer adversário em fascista, mas para reconhecer os sinais concretos de uma ameaça antes que suas consequências se tornem irreversíveis. Em 1998, os Manic Street Preachers não estavam apenas recuperando uma antiga campanha de guerra. Ao transportar aquelas palavras para uma canção pop, colocaram uma questão histórica diante de outra geração. O que estamos dispostos a tolerar?





A pergunta exige mais do que indignação nas redes sociais. Exige responsabilidade diante da violência, compromisso com os direitos fundamentais e disposição para reconhecer a humanidade de quem pensa, vive ou acredita de maneira diferente.


O cartaz espanhol não foi produzido para que as gerações futuras admirassem sua força estética. Foi criado porque pessoas estavam morrendo enquanto a Europa discutia como reagir. Quase noventa anos depois, sua mensagem continua difícil de encarar.


A criança daquela foto já não tinha um futuro. O aviso era dirigido a todos que ainda podiam impedir que outras crianças tivessem o mesmo destino.



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O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

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