Entre a beleza e a dor, existe Strangest Thing, do The War on Drugs
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 3 min de leitura
Em "Strangest Thing", o The War on Drugs transforma guitarras, silêncio e melancolia em uma jornada emocional que permanece muito depois do último acorde

Tem canções que parecem que foram compostas para toda a eternidade. Elas ficam ali, em algum canto entre a alma e o coração. Esse é um dos inúmeros poderes da música (quando feita com alma e sentimento) e um detalhe que me leva a amar tanto esse universo que ela provoca dentro de mim.
Uma dessas canções que levo comigo é a linda Strangest Things, do The War on Drugs, lançada no ótimo disco A Deeper Understanding. E, claro, esse sentimento não é apenas meu. A faixa é considerada por muitos fãs da banda como uma das melhores músicas da carreira deles.
O que mais impressiona nessa canção é como ela cresce aos poucos. Ela começa contida, quase introspectiva, e vai ganhando força até explodir naquele solo de guitarra maravilhoso. E algo dentro da gente explode junto também. Aquela mistura gostosa e linda de melancolia, esperança e uma sensação de estrada infinita, algo bem característico no som do The War on Drugs.
Se você curte Bruce Springsteen, o saudoso Tom Petty ou até mesmo Dire Straits, provavelmente vai sentir essas influências ali, mas sem soar como uma cópia. A identidade da banda é muito própria. E aquele trecho em que Adam Granduciel questiona se está “vivendo no espaço entre a beleza e a dor” acaba resumindo bem o espírito da música: ela fala sobre se perder, tentar encontrar um caminho e continuar seguindo em frente.
Daquelas canções para colocar na estrada, dirigir à noite ou simplesmente ouvir de fones de ouvido e deixar ela te levar. Porque, no fundo, Strangest Things parece falar daquele momento em que você percebe que passou tanto tempo tentando encontrar respostas que esqueceu de olhar para a estrada que já percorreu. Não existe um refrão explosivo (nem precisa) esperando para ser cantado em estádios lotados. Não é uma letra que foi escrita de forma calculada para emocionar e, por isso, ela faz isso tão bem.
O que existe aqui é algo maior. Existe um horizonte. Um daqueles que parecem nunca chegar, mas que, curiosamente, fazem a viagem valer mais do que o destino. É difícil explicar. Esse é o charme dela. Ela dói, mas porque nunca fala diretamente da dor em si. Ela apenas sabe caminhar ao lado dela.
Pra se ter uma ideia, é como se cada acorde da guitarra soasse como uma lembrança tentando sobreviver ao tempo. A bateria não acelera o coração. Ela intimamente imita seus batimentos. Os sintetizadores não preenchem espaço. Eles criam, na verdade, uma atmosfera onde passado, presente e futuro deixam de existir por alguns minutos.
Tenho a impressão de que Granduciel canta como quem conversa consigo mesmo depois de uma longa noite de insônia ou dirigindo sem saber exatamente para onde está indo. E, estranhamente, essa falta de direção e respostas se transformam em conforto. A gente sempre comete o erro de querer entender tudo com urgência. A música faz o movimento contrário. Ela nos convida a permanecer dentro da dúvida. A aceitar que algumas perguntas talvez nunca encontrem uma resposta definitiva.
Vai ver esse seja o milagre e a magia de Strangest Things. Ela não tenta mudar quem você é. Apenas nos faz lembrar que todos nós carregamos partes quebradas, memórias que nunca cicatrizaram completamente e estradas que continuam abertas dentro da gente. E, quando a última nota desaparece, fica uma sensação curiosa no ar. Não de tristeza. Nem de felicidade. Fica o silêncio.
E, às vezes, o silêncio se torna a forma mais bonita que a música encontra para continuar tocando dentro da alma.
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