Por que ainda ouvimos “Under the Milky Way”, do The Church
- Marcello Almeida
- há 19 horas
- 2 min de leitura
Às vezes a gente não entende a música. A gente apenas fica ali dentro dela.

O que faz uma música sobreviver através do tempo e atravessar gerações, aquela música que, sempre que colocamos para rolar, soa com ar jovial sem apagar o tempo ao qual ela pertence. Parece que existem canções que não estão ali simplesmente para exigir a sua atenção; elas pedem outra coisa: silêncio, euforia, vai saber. O gostoso mesmo é esse elo, essa experiência na qual não sabemos nomear, mas existe sempre que aquilo toca.
Under the Milky Way com certeza é uma delas. Aquela faixa que fica ali flutuando, não quer chegar a um lugar específico, não quer oferecer respostas, apenas seguir seu fluxo. Gravada pela banda australiana The Church, a canção carrega uma estranheza confortável. Lançada no ótimo Starfish, de 1988, a faixa segue sendo esse prisma na cultura pop.
Tudo nela soa distante, mas íntimo. Como se você estivesse observando alguém passar pela janela. A gente vê, mas não consegue alcançar. Sente, mas não sabe definir. A música acontece nesse espaço indefinido entre presença e ausência.
Há um detalhe curioso que ajuda a entender esse clima: o título faz referência a um espaço real, o Melkweg, centro cultural de Amsterdã frequentado por Steve Kilbey. Mas a música nunca soa presa nesse conceito. O lugar existe, sim, mas vira símbolo. Um ponto de encontro que também é desencontro. Um endereço físico atravessado por sentimentos que não se fixam.
Para mim, Under the Milky Way não quer falar de uma história isolada ou fechada. Isso aqui está mais para um estado de espírito. Aquele sabor agridoce de solidão sem drama, de desejo sem posse, um fascínio que explode e não promete nada.
Sabe aquela sensação de olhar para alguém e não saber exatamente o que ele ou ela busca? Ou o que você mesmo espera encontrar ali. Tudo acontece sob o mesmo céu, repetido noite após noite, como se o tempo passasse, mas aquela inquietação permanecesse.
E tudo colabora para essa suspensão. O arranjo é espaçoso, quase etéreo. Nada invade, nada força demais. O vocal parece mais um pensamento em voz alta do que uma declaração. A música não cresce com o intuito de explodir. Ela segue, constante, como um deslocamento lento. Um caminhar sem destino, sem mapa, testando as direções.
Talvez seja por isso que “Under the Milky Way” tenha envelhecido tão bem. Ela não pertence a uma tendência específica dos anos 80, nem depende de uma estética marcada pelo seu tempo. Ela fala de algo anterior e posterior a qualquer época: a dificuldade de entender o outro e a si mesmo. A estranha beleza de aceitar que algumas coisas simplesmente não se explicam.
A gente ainda ouve essa música porque ela não tenta nos convencer de nada. Ela apenas fica ali. Como o céu à noite. Como perguntas que não pedem resposta.











