Disintegration não é um disco triste é um disco para quem sente demais
- Marcello Almeida

- há 10 horas
- 4 min de leitura
Do amor à saudade, da euforia ao vazio, o álbum do The Cure continua sendo aquele lugar para onde voltamos quando alguma coisa dentro da gente pede para ser sentida sem precisar de explicação

Durante muito tempo, pareceu que Disintegration pertencia aos adolescentes. Aos quartos escuros, aos cadernos rabiscados, às roupas pretas, às paixões que pareciam o fim do mundo. Robert Smith virou uma espécie de personagem definitivo daquela idade em que qualquer sentimento chega com o volume no máximo. Só que o disco ficou. E nós crescemos.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas em voltar para Disintegration tantos anos depois: perceber que aquilo que parecia pertencer exclusivamente à juventude continua fazendo sentido quando a vida já trouxe outras histórias, outras pessoas, outras perdas e uma quantidade considerável de coisas que a gente não imaginava que sentiria.
“Plainsong” começa e não parece uma abertura de um simples disco. Parece uma paisagem. Os sinos, os sintetizadores, a guitarra surgindo lentamente, tudo enorme e ao mesmo tempo distante. É como olhar para alguma coisa que não conseguimos alcançar completamente, mas que, ainda assim, reconhecemos. Então Robert Smith canta. Não precisa gritar, não precisa dramatizar. O disco já sabe o tamanho daquilo que está dizendo.
É curioso como Disintegration ganhou a fama de ser um álbum deprimente. Ele pode ser isso, claro. Se você chegar até ele querendo tristeza, encontrará bastante. Mas também encontrará outra coisa: acolhimento. Há uma espécie de abrigo dentro dessas músicas.
Você pode entrar carregando uma saudade, uma paixão, uma lembrança antiga, uma noite ruim ou simplesmente aquela sensação difícil de explicar que aparece quando o mundo fica quieto demais. O disco não pergunta o que aconteceu. Só deixa você ficar.
“Pictures of You” talvez seja a expressão mais bonita disso. Não é necessário saber quem está naquela fotografia. Cada pessoa coloca um rosto diferente dentro da música. Uma pessoa que foi embora. Alguém que ainda está por perto. Uma versão de nós mesmos que ficou presa em algum ano. A memória tem dessas coisas. Às vezes ela não devolve uma história inteira. Devolve um detalhe. Um rosto, uma voz, uma tarde, um cheiro. E uma música pode ser suficiente para abrir tudo outra vez.
Depois vem “Lovesong”, e ela desmonta um pouco a caricatura do Cure como trilha sonora oficial da tristeza. Porque, no meio de um álbum tão imenso e sombrio, Robert Smith escreveu uma das declarações de amor mais bonitas que chegaram ao pop. Talvez seja por isso que essa música tenha ganhado um significado tão particular para mim. Em algum lugar entre essas palavras, existe uma mulher escondida. Ela não aparece na história, não tem nome, não precisa ser apresentada. Está apenas ali, presa a uma lembrança que a música sabe alcançar melhor do que eu conseguiria. Talvez ela nem saiba. Ou talvez saiba exatamente.
E talvez seja justamente isso que faça Disintegration ser tão grande: ele não escolhe entre a luz e a escuridão. Aceita as duas.
“Fascination Street” é desejo, vertigem, cidade, alguma coisa pulsando por baixo da pele. “Lullaby” transforma o estranho em hipnose. A faixa-título parece levar tudo para um ponto em que as coisas começam a perder a forma. Mas o disco nunca parece morto. Muito pelo contrário. É um disco cheio de vida porque está cheio de sentimento.
E talvez seja aqui que a gente precise abandonar aquela velha ideia de que Disintegration é simplesmente um álbum para ouvir quando estamos mal. Não. Ele é para quando alguma coisa dentro da gente está grande demais. Pode ser felicidade, amor, saudade, tesão, solidão ou aquela vontade de desaparecer por algumas horas do barulho do mundo. O sentimento muda. O disco permanece.
É por isso que determinados álbuns acabam se transformando em lugares. Não lugares físicos, evidentemente, mas lugares que a memória reconhece. Você coloca o disco e, antes mesmo de perceber, alguma porta se abre. Disintegration é um desses lugares. A gente entra diferente toda vez.
A gravação é a mesma. Smith continua com a mesma voz. As guitarras continuam ocupando aquele imenso espaço. “Pictures of You” continua sendo “Pictures of You”. Mas nós chegamos carregando outras coisas: uma pessoa que não existia antes, uma ausência que não estava ali, uma história que terminou, uma história que começou, um pedaço de nós que mudou de nome.
E é por isso que uma música pode significar uma coisa aos vinte anos e outra completamente diferente aos quarenta. Não foi ela que mudou. Fomos nós. Talvez seja essa a verdadeira razão para ainda ouvirmos esse disco. Não para voltar ao passado, mas para descobrir o que aquele passado ainda consegue fazer com a gente agora.
Talvez seja por isso que eu ainda volte a Disintegration. Não para recuperar alguma coisa que ficou para trás, nem para procurar a mesma emoção de tantos anos atrás. Volto porque o disco continua abrindo espaço para aquilo que ainda não sei dizer. E, depois de tudo o que muda na vida, isso vale muito.
A noite pode estar quente, a casa silenciosa, o mundo acontecendo em algum lugar do lado de fora. “Plainsong” começa, aquelas guitarras ocupam o quarto, e por alguns minutos ninguém precisa saber exatamente o que está acontecendo aqui dentro. A música sabe.
E basta.
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