Prince passou a vida procurando uma música que ainda não existia
- Marcello Almeida

- há 20 horas
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Do funk ao rock, do pop à música eletrônica, Prince fez da inquietação uma forma de criar e continuou procurando novos sons até os últimos anos de sua vida

Prince podia ter parado. Em algum momento dos anos 80, depois de 99, Purple Rain e Sign o’ the Times, ele já havia conquistado aquilo que costuma conceder aos grandes artistas o direito de repetir a si mesmos. Havia um som reconhecível, uma imagem impossível de confundir, público, dinheiro, influência e algumas das melhores canções de sua geração.
Bastava continuar. Prince nunca pareceu particularmente interessado em bastar. Essa talvez seja uma das maneiras mais interessantes de entrar em sua obra. Não pela genialidade, palavra que usamos tantas vezes para descrevê-lo que ela já começa a explicar muito pouco, mas pela inquietação. Prince parecia desconfiar de qualquer lugar onde permanecesse tempo demais. Quando alguma coisa começava a adquirir contornos definidos, ele mexia nela. Rock, funk, soul, pop, psicodelia, eletrônica, jazz, gospel.
Guitarras que poderiam ocupar uma arena inteira e máquinas que pareciam interessadas em expulsar qualquer vestígio humano da sala. E então sexo. E então Deus. Às vezes na mesma música. Que espécie de artista passa a vida inteira tentando escapar daquilo que acabou de inventar? Prince.
Não era apenas uma ideia nova
Questlove passou boa parte da vida tentando entendê-lo. Fã obsessivo antes de se tornar amigo, encontrou na música de Prince uma espécie de educação paralela sobre aquilo que era permitido fazer dentro de uma canção.
Uma delas foi “Something in the Water (Does Not Compute)”, de 1999. “Uma música como ‘Something in the Water (Does Not Compute)’ me mostrou que Prince não era uma pessoa comum, nem um músico comum”, recordou Questlove. O que o impressionava não era apenas a composição. Prince havia retirado o baixo presente na demo original, colocado uma combinação vertiginosa de caixa e chimbal e assumido uma interpretação fria, quase mecânica.
“Não era apenas uma ideia nova; eram várias, todas juntas.”
A ausência do baixo importa. Parece um detalhe técnico até lembrarmos de quem estamos falando e do tipo de música que Prince estava fazendo. O baixo era uma das fundações do funk, do soul e de grande parte da música negra americana que formou seu vocabulário. Retirá-lo significava abrir um buraco justamente onde o corpo esperava encontrar o chão.
Prince gostou do buraco.
Pouco depois faria algo ainda mais radical em “When Doves Cry”, uma das maiores músicas de sua carreira, novamente sem uma linha convencional de baixo. E aí aparece uma característica essencial para entendê-lo: Prince não quebrava regras apenas para parecer experimental. Ele parecia genuinamente curioso para descobrir o que aconteceria depois que a regra fosse quebrada. É diferente. A provocação era consequência da curiosidade.
O problema de ser Prince
Existe uma armadilha quando falamos sobre artistas como ele. Depois de certo tempo, começamos a descrevê-los apenas pela excepcionalidade. Prince tocava vários instrumentos. Prince produzia. Prince compunha. Prince dançava. Prince cantava. Prince escrevia para outros artistas. Prince entrava no estúdio e parecia capaz de construir sozinho aquilo que normalmente exigiria uma banda inteira. Tudo verdade. E tudo perigosamente próximo de transformar um ser humano em uma lista de superpoderes.
Mais interessante é perguntar o que alguém faz quando consegue fazer praticamente qualquer coisa dentro de um estúdio. Ele escolheu continuar procurando. Isso também explica parte das aparentes inconsistências de sua discografia. Para alguns ouvintes, acompanhar Prince podia ser frustrante.
Um caminho aberto num álbum poderia simplesmente desaparecer no seguinte. A estética mudava, a instrumentação mudava, a banda mudava, a imagem mudava. Em determinados momentos, até o nome desapareceu. Mas exigir coerência de um artista talvez seja exigir justamente aquilo contra o qual ele passou a carreira lutando. A coerência estava na mudança.
Sexo, Deus e uma guitarra
Há ainda uma coisa que torna essa inquietação mais fascinante: Prince não experimentava somente com sons. Experimentava consigo mesmo. Poucos artistas populares tornaram desejo uma matéria-prima tão importante. Ele podia ser masculino e feminino, delicado e agressivo, espiritual e obsceno. Salto alto, renda, guitarra, quadris, falsete. Mas compreendeu muito cedo que o palco permitia inventar um corpo que não precisava obedecer às mesmas regras daquele que caminhava pela rua.
E havia algo profundamente sensual nessa liberdade. Prince não precisava apenas cantar sobre desejo. Muitas vezes parecia querer descobrir como o desejo soava. Uma guitarra podia gemer. Um falsete podia se aproximar demais. Uma batida podia ser reduzida até sobrar espaço suficiente para a imaginação terminar aquilo que a música havia começado.
Só que Deus estava frequentemente no mesmo quarto.
Essa tensão atravessa sua obra de maneira quase impossível de separar. Carne e espírito não aparecem necessariamente como inimigos. Às vezes brigam. Às vezes se desejam. Às vezes parece incapaz de decidir onde termina uma coisa e começa a outra. Por que deveria decidir?
Talvez uma das razões de sua música continuar provocando seja justamente essa recusa em organizar contradições para facilitar a vida de quem escuta. Prince não queria facilitar.
O aquário
E então existe uma imagem maravilhosa. Anos depois de ter aprendido Prince através dos discos, Questlove passou a conhecê-lo pessoalmente. Nas visitas à casa do músico, percebeu algo curioso. Duas obras apareciam repetidamente nas televisões: Procurando Nemo, animação da Pixar lançada em 2003, e Orfeu Negro, filme franco-brasileiro de Marcel Camus lançado em 1959. Prince deixava os dois passando continuamente.
“É, este é o meu aquário”, teria dito.
Aquário. A palavra parece perfeita para alguém como ele. De um lado, um peixe-palhaço atravessando o oceano procurando o filho. Do outro, o mito de Orfeu transportado para o Rio de Janeiro, carnaval, música, amor e tragédia. Uma animação digital do século XXI convivendo com um filme de 1959. O que ele estava procurando entre aquelas duas imagens? Não sabemos. E é melhor não fingir que sabemos.
Talvez cores. Movimento. Música. Atmosfera. Alguma combinação inexplicável entre coisas que aparentemente não deveriam ocupar a mesma sala. Ou nada disso. O interessante é imaginar o artista dentro daquele espaço, trabalhando enquanto dois mundos completamente diferentes se repetiam ao redor dele. Para alguém cuja obra inteira nasceu do encontro entre coisas que supostamente deveriam permanecer separadas, seu “aquário” parece quase uma metáfora involuntária. Prince vivia cercado por possibilidades.
A curiosidade não envelheceu
Há um momento perigoso na trajetória de praticamente todo artista consagrado. O passado começa a ficar grande demais. As pessoas querem as músicas antigas. A indústria aprende exatamente qual versão daquele artista consegue vender. O público chega aos shows carregando lembranças. Aos poucos, existe a tentação de morar dentro da própria história. Prince tinha história suficiente para construir uma cidade inteira e se mudar para lá.
Continuou procurando a saída. Isso aparece de maneira especialmente bonita perto do fim de sua vida. Enquanto muitos músicos de sua geração já poderiam perfeitamente ignorar o que estava acontecendo fora de seu próprio catálogo, Prince continuava ouvindo artistas novos.
Em 2015, seu entusiasmo estava voltado para To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar.
"O álbum inteiro do Kendrick Lamar”, disse ele. “Ele simplesmente tem algo a dizer. É puro. E com o Thundercat no álbum? Fala sério. Você não vai tirar ‘Alright’ da minha playlist!”
Há algo importante nessa declaração que vai além do elogio. Prince estava ouvindo. Parece banal. Não é. Existe uma diferença enorme entre ser uma influência e continuar disposto a ser influenciado. Aos 56 anos, depois de décadas sendo apontado como referência por praticamente todo mundo, Ele ainda conseguia encontrar um disco novo, perceber alguma coisa acontecendo ali e ficar excitado com a descoberta. Essa curiosidade diz muito sobre quem ele foi.
O futuro ainda podia surpreendê-lo
To Pimp a Butterfly fazia exatamente aquilo que costumava interessar Prince: recusava fronteiras fáceis. Hip-hop, jazz, funk, soul, spoken word, política, história negra americana, experimentação. Kendrick Lamar havia construído um disco que não parecia preocupado em permanecer dentro do lugar reservado a ele.
Prince reconheceu aquilo. Claro que reconheceu. Talvez tenha visto uma inquietação familiar. Há algo bonito também na inversão. Durante décadas, artistas olharam para seu jeito tentando descobrir caminhos que ele já havia aberto. Agora Prince olhava para uma geração posterior e encontrava caminhos que ainda poderiam surpreendê-lo. É assim que uma influência permanece viva sem virar museu. Não repetindo a si mesma. Continuando a circular.
Quantos Princes existiram?
É difícil encontrar um Prince definitivo. O jovem de Minneapolis que misturava funk, rock e disco? O sujeito de sobretudo e lingerie de Dirty Mind? O superstar de Purple Rain? O arquiteto psicodélico de Around the World in a Day? O homem que fez Sign o’ the Times? O artista que trocou o próprio nome por um símbolo impronunciável? O músico religioso dos anos posteriores? O veterano que não largava a guitarra e ainda queria saber o que Kendrick Lamar estava fazendo?
Escolha um. Outro aparecerá logo depois para contradizê-lo. Essa instabilidade pode explicar por que Prince permanece tão difícil de reduzir a uma narrativa confortável. Queremos encontrar uma versão essencial das pessoas. Uma personalidade verdadeira escondida debaixo das outras. E se, no caso dele, todas fossem verdadeiras? Prince transformou a mudança em identidade. Não porque não soubesse quem era, mas porque aparentemente se recusava a aceitar que alguém precisasse ser apenas uma coisa.
Prince vive através de mim
Prince morreu em 21 de abril de 2016, aos 57 anos. A notícia produziu aquele estranho fenômeno que acompanha a morte dos grandes artistas: milhões de pessoas colocaram as mesmas músicas para tocar ao mesmo tempo. De repente, uma obra construída durante décadas precisou carregar também o peso de uma despedida.
Kendrick Lamar encontraria posteriormente uma maneira particularmente bonita de falar sobre isso. Em sua participação no remix de “Mask Off”, de Future, mencionou uma mulher que havia desabado quando Prince morreu e respondeu com uma imagem simples: soltou o cabelo e declarou que Prince vivia através dele.
Não é difícil entender. Prince passou a vida absorvendo coisas. James Brown estava ali. Jimi Hendrix estava ali, apesar das comparações que ele próprio nem sempre apreciava. Sly Stone, funk, soul, rock, gospel, psicodelia, eletrônica, pop. Prince recebia essas coisas, desmontava, reorganizava e devolvia algo que já não pertencia completamente a nenhuma delas.
Depois outros fizeram o mesmo com Ele. A circulação continua. Talvez seja assim que artistas realmente permanecem. Não congelados numa fotografia. Não perfeitamente preservados. Muito menos obedientemente imitados. Permanecem quando alguém escuta aquilo que fizeram e pensa: posso ir mais longe. Prince passou a vida inteira procurando alguma coisa que ainda não havia escutado. Mesmo depois de Purple Rain. Mesmo depois dos Grammys, dos estádios, dos milhões de discos, das brigas com gravadoras e de se tornar influência para uma geração inteira.
Ainda havia alguma coisa nova para ouvir. Alguma coisa nova para tocar. Alguma coisa nova para desejar. No fim, talvez seu “aquário” fosse muito maior do que duas telas ligadas dentro de casa. Prince passou a vida inteira dentro dele. E nunca parou de procurar uma saída.
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