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Joey Ramone: a voz poética que o punk nunca conseguiu repetir

Joey Ramone fez do punk um lugar também para os tímidos, os estranhos, os solitários e os apaixonados

Joey Ramone
Imagem: Reprodução


Joey Ramone nunca precisou gritar que era diferente. Bastava olhar para ele. Quase dois metros de um corpo que parecia não saber muito bem onde colocar os braços, os joelhos, o cabelo, a própria timidez. Óculos escuros. Jaqueta de couro. O microfone agarrado com as duas mãos. E então aquela voz. De onde diabos saiu aquela voz?





Não era bonita da maneira como nos ensinaram que uma voz deveria ser bonita. Também não era propriamente feroz. Joey arrastava palavras, engolia algumas sílabas, esticava outras até elas adquirirem uma pronúncia que parecia existir somente dentro das músicas dos Ramones. Havia alguma coisa de adolescente abandonado ali. De crooner perdido numa garagem. De sujeito apaixonado demais tentando fingir que estava tudo bem. Talvez seja por isso que, mais de meio século depois do surgimento dos Ramones, ainda seja impossível confundi-lo com qualquer outra pessoa.


Antes de Joey existir, porém, havia Jeffrey Ross Hyman. Nascido em Nova York em 19 de maio de 1951 e criado em Forest Hills, no Queens, Jeffrey cresceu como um garoto deslocado, alto demais, tímido, obsessivamente interessado por música. Não parece um simples detalhe quando pensamos no homem que viria depois disso. Sempre existe uma tendência compreensível de tratar a adolescência das estrelas do rock como uma espécie de prólogo obrigatório: algumas dificuldades, alguns discos, a primeira banda e pronto. Chegamos ao personagem que tanto nos interessa.


Com Joey talvez seja diferente. O deslocamento não ficou para trás quando Jeffrey Hyman virou Joey Ramone. Ele subiu ao palco junto. E isso muda bastante a história.


Antes que alguém chamasse aquilo de punk


Quando os Ramones começaram a tocar em Nova York, em 74, “punk” ainda não era aquilo que hoje enxergamos retrospectivamente com tanta facilidade. Não havia manual. Não havia uniforme oficial. Muito menos uma prateleira de loja esperando camisetas com o logotipo da banda. Havia quatro sujeitos de Forest Hills tentando descobrir o que fazer com o rock que amavam.


Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy compartilhavam referências que ajudam a desmontar uma ideia simplista dos Ramones como uma banda interessada apenas em tocar rápido e alto. Em uma entrevista de 1995, Joey colocou na mesma genealogia nomes como Ronettes, Beach Boys, Phil Spector, Doors, Stooges e MC5. Isso explica muita coisa. Talvez explique quase tudo. Porque, por baixo da distorção e da velocidade, os Ramones eram uma banda profundamente apaixonada pela canção pop. Retiraram solos intermináveis, virtuosismo, pompa, gordura. Ficou o osso. Só que dentro daquele osso ainda havia melodia. E havia coração.





O CBGB acabou se tornando o endereço mitológico dessa história. Ramones, Television, Blondie, Talking Heads, Patti Smith e outras criaturas daquela Nova York passaram pelo pequeno clube da Bowery e, olhando de 2026, parece inevitável imaginar que todos sabiam estar participando de uma revolução. Será? Provavelmente a história fica mais bonita quando contamos dessa maneira. Revoluções culturais raramente avisam que começaram. Os Ramones simplesmente tocavam. Rápido. Uma música praticamente batendo na outra. E de repente vinha a contagem. One, two, three, four. Não havia tempo para respirar.


E Joey queria ser amado

Joey Ramone
Foto: Foto Joey Ramone. Crédito: Paul Bergen.


O punk encontraria muitas vozes. Algumas cuspiriam contra governos. Outras contra polícia, monarquia, desemprego, guerra, conservadorismo, indústria musical, tédio. Haveria raiva suficiente para abastecer várias gerações. Joey fazia parte daquela demolição. Mas escute o que ele estava cantando.


“I Wanna Be Your Boyfriend”. “I Remember You”. “Oh Oh I Love Her So”. “She’s a Sensation”. “Danny Says”. Mesmo “I Wanna Be Sedated”, uma das músicas mais reconhecíveis dos Ramones, nasce de exaustão e ansiedade, embora seja cantada por multidões como se fosse uma celebração.


Existe algo curioso nisso tudo. Como um dos homens responsáveis por endurecer o som do rock acabou sendo uma de suas figuras mais vulneráveis? Talvez a pergunta esteja errada. Talvez vulnerabilidade e punk nunca tenham sido opostos.


Joey podia parecer ameaçador numa fotografia. Cabelo cobrindo o rosto, óculos escuros, couro preto. Mas bastavam alguns minutos dentro das músicas para a armadura começar a apresentar rachaduras. Ele queria garotas. Queria companhia. Queria fugir. Queria voltar para casa. Queria que alguém ficasse. Coisas terrivelmente pouco revolucionárias. Coisas terrivelmente humanas. E talvez esteja justamente aí uma parte da revolução.


Aquela voz



Tente imaginar “Blitzkrieg Bop” cantada por um vocalista tecnicamente perfeito. Provavelmente seria pior. A voz de Joey não funcionava apesar de suas peculiaridades. Funcionava por causa delas. Havia uma nasalidade estranha, uma elasticidade nas vogais e aquela maneira quase preguiçosa de pronunciar certas palavras enquanto Johnny Ramone atacava a guitarra como se tivesse alguma coisa pessoal contra ela. A guitarra empurrava. Joey parecia flutuar por cima. Esse contraste ajudou a criar os Ramones.


Pra mim, a voz mais poética que o punk já teve!


Johnny era precisão, disciplina, ataque. Dee Dee carregava caos, composição, impulso. Tommy entendeu cedo que aquela música precisava de uma bateria que não tentasse ser maior do que a própria música. E Joey? Joey colocava humanidade naquela máquina.


Talvez “voz poética do punk” pareça uma definição grande demais para alguém que passou boa parte da vida cantando músicas de dois minutos sobre garotas, cola, tédio, insanidade e vontade de ir embora. Mas quem decidiu que poesia precisa ser complicada e complexa?


Joey e Johnny


Existe outra fotografia dos Ramones que não aparece nas camisetas. Dois homens permanecendo na mesma banda durante anos praticamente sem possuir uma amizade verdadeira. Joey e Johnny eram diferentes em temperamento, comportamento e visão de mundo. E no meio dessa relação entrou Linda, então namorada de Joey, que posteriormente se envolveu com Johnny e acabaria se casando com ele.





A história virou uma das grandes mitologias internas do rock. Linda afirmou posteriormente que seu relacionamento com Joey havia sido profundo e que a situação com Johnny colocou os três diante de algo maior que as relações pessoais: a continuidade dos Ramones. Segundo ela, “a banda sempre vinha primeiro”.


É tentador transformar tudo em novela. Joey, o romântico ferido. Johnny, o amigo que roubou sua garota. Linda entre os dois. Uma música como vingança. Fim. A vida raramente coopera tanto com bons roteiros.


Durante anos, “The KKK Took My Baby Away” foi associada ao rompimento e às diferenças políticas entre Joey e Johnny. A história é repetida tantas vezes que quase se tornou parte oficial da letra, embora as versões sobre sua origem não sejam completamente consensuais. O que sabemos é que a ruptura entre os dois existiu e que, mesmo assim, eles continuaram trabalhando juntos. Linda posteriormente descreveu a relação como menos absoluta do que a lenda costuma sugerir.


Talvez isso seja ainda mais estranho. Não eram dois inimigos que simplesmente foram embora. Ficaram. Disco depois de disco. Show depois de show. Cidade depois de cidade. One, two, three, four. Outra música. Existem casamentos que duraram menos.


Os Ramones mudaram o mundo. O mundo demorou a perceber

 Ramones
Imagem: Reprodução


Há uma ironia cruel na história dos Ramones. Poucas bandas foram tão influentes e, ao mesmo tempo, passaram tanto tempo sem experimentar um sucesso comercial proporcional à própria importância. Eles não viraram Beatles. Não lotaram estádios como Led Zeppelin. Não dominaram as paradas americanas. Mas alguma coisa acontecia quando alguém os escutava: outras bandas apareciam.


Na Inglaterra, aquele primeiro álbum dos Ramones funcionou quase como uma bomba enviada de Nova York. A velocidade, a simplicidade e principalmente a possibilidade sugerida por aquelas músicas ajudaram a alimentar uma geração inteira. Não era necessário esperar autorização. Talvez nem fosse necessário tocar tão bem assim. Era necessário ter alguma coisa para dizer e descobrir uma maneira de dizê-la.


Isso parece óbvio agora. Não era. Décadas depois, Joey reconhecia que a importância dos Ramones finalmente começava a ser compreendida. Em 1995, ao falar sobre a influência do grupo, lembrou que Joe Strummer havia apontado o primeiro disco dos Ramones como referência para bandas que surgiriam depois. Joey também reclamava da transformação crescente da música em negócio.


Há alguma justiça tardia nisso. Também há uma piada. A banda que ajudou a devolver o rock para a rua acabou se tornando uma das marcas mais reconhecíveis da história da cultura pop.


A camiseta


Você conhece a camiseta. Talvez alguém esteja usando uma enquanto este texto é lido. O selo presidencial americano transformado no logotipo dos Ramones. A águia. Os nomes. O preto e branco. Está em shopping, está em loja de departamento, está na internet. Está em corpos de gente que conhece todos os discos e de gente que talvez nunca tenha ouvido “53rd & 3rd”. E daí?


"Se você acha que pode, então vamos lá, cara"

Talvez exista certo esnobismo na velha indignação de fã diante de alguém usando uma camiseta sem conhecer a banda. Linda Ramone, curiosamente, já disse não se incomodar com isso. Para ela, manter o nome circulando também mantém os Ramones vivos. Mas existe uma pergunta mais interessante. Quando uma banda vira símbolo, quanto da banda ainda existe dentro daquele símbolo?


Porque os Ramones ficaram bonitos com o tempo. Organizados. Canonizados. Entraram para a história. E os Ramones de verdade eram uma bagunça. Havia ressentimento. Brigas. Dinheiro. Frustração. Doença. Personalidades incompatíveis. Sonhos comerciais que nunca chegaram exatamente como deveriam. Havia quatro seres humanos dentro daquelas jaquetas.


Joey talvez seja aquele que mais facilmente desaparece quando olhamos apenas para o logotipo.


Jeffrey ainda estava lá


Os Ramones encerraram a trajetória em 1996. Depois de mais de duas décadas vivendo dentro de uma banda que parecia incapaz de parar, Joey finalmente estava sozinho. Mas não por muito tempo. Ele continuou fazendo música. E então veio a doença.


Joey morreu em 15 de abril de 2001, aos 49 anos, após lutar contra um linfoma. No ano seguinte apareceu Don’t Worry About Me, seu álbum solo póstumo. O título já parece uma provocação involuntária. Não se preocupe comigo. Como não?


O disco começa com Joey cantando “What a Wonderful World”, canção eternizada por Louis Armstrong. Pense nisso por alguns segundos. Joey Ramone. Um dos sujeitos que ajudaram a destruir a ideia de como o rock deveria soar. Doente. Perto do fim. Cantando sobre um mundo maravilhoso. Seria muito fácil transformar isso numa cena bonita demais. Melhor não. Joey não precisava disso.


Sua versão não soa como despedida solene. As guitarras entram, a bateria corre e ele continua sendo Joey Ramone. Nem diante de uma das melodias mais conhecidas do século XX aquele homem conseguia soar como outra pessoa. Talvez seja aí que esteja tudo.





Eu me volto para a voz poética do punk


A camiseta sobreviveu. O logotipo sobreviveu. O “Hey! Ho! Let’s go!” sobreviveu. O CBGB não. Aquela Nova York também não. Dee Dee morreu em 2002. Johnny, em 2004. Tommy, o último dos quatro integrantes originais, em 2014. Joey foi primeiro. E ainda assim é estranho usar o passado quando aquela voz começa a tocar.


Talvez a grande contribuição de Joey não tenha sido simplesmente ajudar a inventar o punk. Há gente suficiente discutindo há décadas quem inventou o quê, em qual cidade, em qual clube e em qual disco. Deixemos essa briga para outra noite. Joey fez outra coisa. Ele mostrou que três acordes podiam carregar solidão, que velocidade não eliminava delicadeza, que uma jaqueta de couro não precisava proteger ninguém de sentir e que um sujeito estranho, tímido, comprido demais para a própria fotografia podia subir num palco e, sem deixar de ser estranho, fazer milhares de outros estranhos se reconhecerem nele. Eu.


Isso é punk? Talvez. Isso é poesia? Quem se importa? Coloque “I Wanna Be Your Boyfriend” para tocar outra vez. A guitarra começa, a voz aparece e Jeffrey Hyman, aquele garoto esquisito de Forest Hills que um dia inventou para si o nome Joey Ramone, ainda está ali. Não perfeitamente preservado. Ainda bem. Continua estranho, vulnerável, apaixonado. Ainda não se parece com ninguém. Talvez seja essa a eternidade que interessa.



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