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Antes de conquistar o mundo, o Oasis precisou acreditar que ele era seu

Há 32 anos, Definitely Maybe transformava a inquietação de cinco jovens de Manchester em um dos grandes discos de estreia do rock britânico

Oasis. capa do disco Definitely Maybe 
Imagem: Divulgação


Existe uma diferença enorme entre cantar sobre o sucesso depois de conquistá-lo e cantar como se ele já fosse seu quando ninguém ainda sabe quem você é. É dessa segunda matéria que Definitely Maybe foi feito.





Quando o Oasis lançou seu primeiro álbum, em 29 de agosto de 1994, Liam Gallagher ainda não era o sujeito que pisaria em Knebworth diante de uma multidão absurda. Noel Gallagher ainda não havia escrito Wonderwall. Não existiam as capas de tabloides, as brigas acompanhadas pelo país inteiro, os milhões de discos, os estádios ou o tamanho quase mitológico que o sobrenome Gallagher ganharia.


Existia Manchester. Existiam empregos ruins, apartamentos pequenos, pubs, cigarros, amplificadores e uma vontade quase irracional de escapar de uma vida que parecia previamente determinada. Então Liam abriu o disco cantando Rock ’n’ Roll Star. Não era uma constatação. Era uma mentira. E talvez esteja justamente aí uma das coisas mais bonitas que o Oasis já fez. Porque algumas mentiras são apenas sonhos pronunciados cedo demais.


Antes do mito


Definitely Maybe costuma ser lembrado pela arrogância. Faz sentido isso. Há arrogância por toda parte dessas canções. Liam canta como se estivesse olhando o mundo de cima mesmo quando ainda estava praticamente no mesmo lugar que seus ouvintes. Noel escrevia músicas gigantes antes que alguém tivesse lhe dado permissão para pensar grande. Mas ouvir o álbum 32 anos depois revela algo que talvez a própria mitologia do Oasis tenha escondido: por trás daquela confiança havia uma enorme urgência.


Aquelas músicas são sobre querer. Querer sair. Querer viver. Querer alguém. Querer dinheiro. Querer liberdade. Querer uma noite que faça a semana inteira valer a pena. Querer acordar e descobrir que existe alguma coisa além da rotina.


É por isso que Definitely Maybe envelheceu de maneira tão diferente de muitos discos associados ao britpop. Você não precisa ter vivido a Inglaterra de John Major, conhecer Manchester ou entender a rivalidade cultural entre norte e sul do país para reconhecer o sentimento que existe ali. Basta ter tido vinte e poucos anos e a impressão incômoda de que a vida deveria ser maior do que aquilo. Já pensou nisso?


“Talvez eu só queira voar”


Em Live Forever, Noel encontrou a síntese desse sentimento. A música nasceu em um período no qual boa parte do rock alternativo parecia fascinada pela dor, pela alienação e pela autodestruição. Ele queria outra coisa. Não ingenuidade, exatamente. Esperança. Quando Liam canta “Maybe I just wanna fly”, não há uma grande teoria por trás da frase. E ela não precisa de uma. Talvez eu só queira voar.


É simples porque determinados desejos são simples. O Oasis entendia isso extraordinariamente bem. Noel nunca precisou esconder uma emoção atrás de dez metáforas quando três palavras poderiam fazer milhares de pessoas levantarem os braços ao mesmo tempo. Essa aparente simplicidade, tantas vezes tratada como limitação, tornou-se uma de suas maiores virtudes.


As melhores músicas do Oasis parecem existir antes mesmo de serem compostas. Você escuta um refrão pela primeira vez e tem a estranha sensação de já conhecê-lo. Definitely Maybe está cheio desses momentos.





Um disco feito de quartos pequenos e sonhos enormes


Há também algo profundamente cotidiano naquele álbum. Digsy’s Dinner imagina uma felicidade quase ridiculamente doméstica. Cigarettes & Alcohol olha para o tédio, o trabalho e a falta de perspectivas sem qualquer romantização. Supersonic parece nascer de pensamentos jogados ao acaso e transformados em atitude. Columbia praticamente abandona a necessidade de explicar qualquer coisa e deixa a repetição, o volume e o transe fazerem o trabalho.


E então existe Slide Away. Se boa parte de Definitely Maybe mantém o peito estufado, Slide Away deixa a guarda baixar. Liam não parece interessado em interpretar o personagem do astro insolente. Há desejo naquela voz, mas também dependência, medo e entrega. A guitarra de Noel cresce ao redor dele enquanto a música parece chegar cada vez mais perto de desmoronar. Pra mim, uma das canções que melhor explicam o Oasis. Eles podiam fazer barulho para esconder sentimentos, mas os sentimentos continuavam ali.


O som de uma banda grande demais para a própria realidade


Tecnicamente, Definitely Maybe está longe de ser um álbum delicado. As guitarras ocupam quase todo o espaço disponível. Há camadas sobre camadas, distorção, volume e uma sensação constante de que alguma coisa está prestes a transbordar dos alto-falantes.

Isso também conta uma história. O Oasis ainda não tocava para dezenas de milhares de pessoas, mas já queria soar como uma banda que tocava.


Noel nunca escondeu suas referências. Beatles, T. Rex, Sex Pistols, Rolling Stones, Stone Roses e uma longa linhagem da música britânica aparecem espalhados pelo DNA das canções. A genialidade daquele primeiro Oasis não estava em fingir que o rock começava com eles. Estava em pegar tudo aquilo e dizer: agora é nosso. E funcionou.


O álbum chegou ao primeiro lugar da parada britânica e tornou-se, naquele momento, o disco de estreia que vendeu mais rapidamente na história do Reino Unido. De repente, aquela confiança absurda já não parecia tão absurda. A mentira de Rock ’n’ Roll Star começava a virar verdade.


E então eles realmente chegaram lá


Talvez seja impossível ouvir o disco hoje sem conhecer o que aconteceu depois. Sabemos de Morning Glory. Sabemos de Wonderwall. Sabemos de Knebworth. Sabemos das brigas, dos excessos, da separação em 2009 e também sabemos que, décadas depois, Liam e Noel voltariam a dividir um palco. Mas tente retirar tudo isso por alguns minutos. Volte para 94. Eles ainda não conquistaram nada.





É nesse instante que Definitely Maybe recupera toda a sua força. Porque estamos ouvindo cinco sujeitos antes de saberem o final da história. Estamos ouvindo ambição antes de ela virar patrimônio. Estamos ouvindo juventude antes de virar nostalgia. Estamos ouvindo uma banda criar o próprio mito enquanto ainda precisava pegar emprestado dinheiro, equipamento e confiança para fazê-lo existir. Trinta e dois anos depois, talvez seja essa a razão pela qual o disco continua encontrando novos fãs.





Definitely Maybe não fala apenas sobre ser jovem. Fala sobre aquele momento muito específico da vida em que a distância entre quem você é e quem gostaria de ser parece gigantesca, mas você ainda acredita que consegue atravessá-la. Algumas pessoas chamam isso de arrogância. Outras chamam de ingenuidade. O Oasis chamou de rock and roll. E durante pouco mais de cinquenta minutos, em 94, cinco caras de Manchester fizeram o mundo acreditar junto com eles.




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