Quando o mundo pode esperar mais um pouco: por que ainda ouvimos The Man Who, do Travis
- Marcello Almeida

- há 11 horas
- 2 min de leitura
Entre domingos preguiçosos, guitarras que respiram e canções que sabem falar baixo, o segundo álbum do Travis continua encontrando espaço dentro da gente

“Todo dia eu acordo e é domingo”, canta Fran Healy logo no início de The Man Who. E talvez seja difícil encontrar uma frase que entre tão depressa no espírito desse disco. Existe alguma coisa de domingo ali: a luz atravessando a janela, o café demorando a acabar, a vontade de não olhar o relógio. Um dia em que ninguém precisa necessariamente chegar a lugar nenhum.
Tenho uma relação muito particular com esse álbum. Ele me remete a uma época em que ouvir música ainda significava escolher um disco e permanecer nele. Colocar para tocar, deixar a primeira faixa encontrar a segunda, depois a terceira, sem a necessidade de interromper aquela atmosfera. The Man Who pede justamente isso. Ele não parece interessado em disputar nossa atenção. Prefere criar um lugar para onde podemos ir.
E “Turn” talvez seja o melhor exemplo. Começa pequena, quase tímida, e vai crescendo sem perder a delicadeza. Fran Healy não precisa levantar a voz para fazer a música alcançar alguma coisa enorme. Há uma contenção ali que diz muito. Como se algumas emoções ficassem maiores justamente porque ninguém está tentando explicá-las.
“Writing to Reach You” carrega outra espécie de distância. Existe alguém tentando alcançar alguém através da música, e talvez seja impossível não reconhecer alguma coisa de nós nessa tentativa. Depois vem “Driftwood”, com seu movimento constante, como se algumas pessoas fossem feitas para passar pela nossa vida sem nunca permanecer completamente.
E quando “Why Does It Always Rain on Me?” aparece, aquela melancolia ganha uma forma quase cotidiana. A pergunta parece simples, até banal, mas existe uma espécie de cansaço bonito por trás dela. Como quando a gente está olhando pela janela num dia cinza e, sem saber exatamente por quê, tudo parece fazer sentido naquele instante.
Parte dessa força está na produção de Nigel Godrich. Existe muito espaço entre os sons. Os instrumentos não parecem amontoados; eles respiram. Um teclado pode surgir discretamente, uma guitarra pode permanecer suspensa, um detalhe que passou despercebido na primeira audição aparece anos depois. É um álbum que recompensa quem volta.
E talvez seja isso que mais me interessa nele. The Man Who não precisa de grandes explosões para permanecer. Seu poder está justamente no contrário: naquilo que segura, no que deixa incompleto, no silêncio entre uma nota e outra. Existe uma espécie de conforto nessa contenção. Como se o disco soubesse que nem todo sentimento precisa chegar ao limite para ser verdadeiro.
“Turn” continua sendo uma dessas músicas que parecem encontrar a gente em lugares diferentes conforme o tempo passa. O que eu escutava nela anos atrás não é necessariamente o que escuto hoje. A canção continua igual. Quem mudou fui eu. Talvez seja por isso que ainda voltamos a determinados álbuns. Não para reencontrar exatamente aquilo que éramos, mas para descobrir o que aquela música consegue dizer agora.
The Man Who tem esse efeito. Ele não exige pressa. Não exige explicação. Coloca algumas guitarras na sala, deixa Fran Healy cantar e permite que o resto aconteça. E, por alguns minutos, o mundo pode esperar.
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