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Cinco discos, cinco rupturas: outras histórias que definiram os anos 90

há 20 horas
5 min de leitura

Primal Scream, Beastie Boys, PJ Harvey, Jeff Buckley e The Chemical Brothers ajudam a contar uma década em que misturar linguagens deixou de ser exceção

Jeff Buckley
Imagem: Reprodução


Depois de vinte discos, uma coisa começa a ficar clara: tentar encontrar um único som para os anos 90 é procurar algo que nunca existiu. A década avançou por colisões.





Bandas de rock entraram em clubes e voltaram diferentes. Rappers pegaram novamente em instrumentos. A eletrônica descobriu que poderia ter o impacto físico de um show de rock. No meio disso tudo, artistas continuavam fazendo discos que não pareciam particularmente interessados em pertencer a movimento algum.


É por aí que passam os próximos cinco. Não porque contem toda a história. Mas porque cada um bagunçou uma parte dela.


Primal Scream — Screamadelica (1991)

Primal Scream — Screamadelica
Imagem: Reprodução


Coloque “Movin’ on Up” para tocar e parece que estamos diante de uma banda apaixonada pelos Rolling Stones. Espere um pouco. Quando Screamadelica termina, já passamos por acid house, dub, gospel, psicodelia, rock e cultura rave. A banda que entrou no disco não parece exatamente a mesma que saiu dele.


Essa transformação tinha muito a ver com o que acontecia no Reino Unido naquele momento. O rock independente e a explosão das raves estavam ocupando espaços diferentes da juventude britânica, mas as paredes entre esses ambientes começavam a rachar.


O Primal Scream atravessou a rachadura. “Loaded”, reconstruída por Andrew Weatherall a partir de “I’m Losing More Than I’ll Ever Have”, tornou-se o ponto de encontro perfeito. A guitarra continuava ali, mas agora dividia espaço com loops, samples e uma lógica que vinha diretamente das pistas.


Come Together levou essa ideia ainda mais longe. O interessante em Screamadelica é justamente essa falta de cerimônia. Ninguém parece preocupado em decidir se aquilo ainda é rock. A pergunta já não importava. A pista e a banda finalmente tinham se encontrado.






Beastie Boys — Check Your Head (1992)

Beastie Boys — Check Your Head
Imagem: Reprodução


Em “So What’cha Want”, tudo parece coberto por poeira. O baixo é grosso. A bateria bate seca. As vozes chegam distorcidas. Existe hip-hop ali, obviamente, mas também existe alguma coisa de garagem acontecendo por baixo.


Os Beastie Boys estavam tocando novamente. Depois da construção carregada de samples de Paul’s Boutique, Mike D, MCA e Ad-Rock voltaram aos instrumentos e transformaram Check Your Head em uma espécie de sala onde punk, rap, funk, hardcore e psicodelia poderiam entrar pela mesma porta.


Às vezes, na mesma música. “Pass the Mic” continua profundamente ligada ao hip-hop. “Gratitude” poderia sair de uma jam suja de funk-rock. “Time for Livin’” recupera a velocidade do hardcore.


Nada parece particularmente preocupado em organizar essas referências. Essa liberdade acabaria sendo uma das marcas mais importantes dos Beastie Boys. Num momento em que a indústria precisava constantemente colocar artistas dentro de alguma categoria, eles fizeram um disco que parecia perguntar por que alguém precisaria escolher.


Check Your Head não resolveu essa confusão. Transformou a confusão em método.




PJ Harvey — Rid of Me (1993)

PJ Harvey — Rid of Me
Imagem: Reprodução

O começo de “Rid of Me” quase obriga você a aumentar o volume. A voz de PJ Harvey está baixa, próxima, ameaçadora. Então a música explode.


Esse jogo entre silêncio e violência atravessa boa parte do segundo álbum do PJ Harvey. Gravado por Steve Albini, Rid of Me não tenta esconder a sala, o impacto da bateria ou o atrito das guitarras. Tudo parece perigosamente perto. E Polly Jean Harvey ocupa o centro dessa tensão.


Desejo, ciúme, controle, sexo, dependência e poder aparecem sem qualquer obrigação de tornar a narradora agradável. “50ft Queenie” transforma essa força em provocação. “Man-Size” brinca com gênero e domínio. A faixa-título leva obsessão até um ponto quase sufocante.


É um disco desconfortável porque não tenta organizar essas emoções para nós. Em 1993, o rock alternativo já havia se tornado uma mercadoria altamente rentável. Rid of Me chegou naquele ambiente parecendo pouco interessado em ser domesticado por ele. A guitarra é áspera. A voz também.






Jeff Buckley — Grace (1994)

Jeff Buckley — Grace
Imagem: Reprodução

Jeff Buckley começa “Mojo Pin” quase sussurrando. Alguns minutos depois, sua voz está em outro lugar.


Essa distância entre contenção e explosão atravessa Grace. O único álbum de estúdio que Buckley lançou em vida não parecia interessado nas fronteiras que organizavam boa parte do rock dos anos 90.


Havia Led Zeppelin ali. Folk. Soul. Jazz. Leonard Cohen. Nina Simone. Guitarras que podiam desaparecer atrás da voz e, segundos depois, disputar espaço com ela.


“Last Goodbye” chega perto de uma canção pop perfeita sem perder estranheza. “Grace” cresce até parecer maior que o próprio arranjo. E sua interpretação de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, retira quase tudo da música até sobrarem voz, guitarra e silêncio.


Buckley não criou uma cena em torno de Grace. Também não precisava. Sua influência apareceria de maneira mais dispersa, principalmente em cantores e bandas que perceberam que intensidade não precisava significar apenas volume.


Em uma década obcecada por distorção, Jeff Buckley mostrou que uma voz também podia fazer barulho.




The Chemical Brothers — Dig Your Own Hole (1997)

The Chemical Brothers — Dig Your Own Hole
Imagem: Reprodução


“Block Rockin’ Beats” começa como se alguma coisa estivesse prestes a quebrar.

E quebra.


O segundo álbum do Chemical Brothers não trata música eletrônica como algo delicado, futurista ou distante. Tom Rowlands e Ed Simons constroem batidas pesadas, baixos enormes, sirenes, ruídos e samples que parecem feitos para atingir primeiro o corpo e depois perguntar o que aconteceu.


O curioso é que muita gente do rock entendeu aquilo imediatamente. Não porque o Chemical Brothers estivesse tentando virar uma banda de guitarras, mas porque a energia era familiar. “Elektrobank” tem a violência de um riff sem precisar de um. “Setting Sun”, com Noel Gallagher nos vocais, torna explícita uma aproximação que já estava acontecendo entre os dois mundos.


E então aparece “The Private Psychedelic Reel” no final, esticando o álbum para uma viagem psicodélica de quase dez minutos. Em 1997, eletrônica já não precisava permanecer confinada aos clubes.


Produtores estavam ocupando festivais, capas de revistas e paradas enquanto artistas vindos do rock começavam a olhar para máquinas, loops e samplers com outros olhos. Dig Your Own Hole chegou exatamente nesse ponto. O DJ já podia provocar o mesmo estrago de uma banda.




A década das portas abertas


Existe uma distância enorme entre Screamadelica e Grace. Ainda maior entre PJ Harvey e Chemical Brothers. E é justamente aí que esses cinco discos se encontram.





Não numa sonoridade comum, mas numa disposição para atravessar lugares que antes pareciam separados. Rock entrou na rave. Hip-hop encontrou novamente os instrumentos. Eletrônica absorveu a força física do rock. PJ Harvey levou sentimentos pouco confortáveis para o centro das músicas. Jeff Buckley simplesmente ignorou boa parte das categorias disponíveis.


Os anos 90 não eliminaram os gêneros. Fizeram algo mais divertido com eles. Deixaram as portas abertas.



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O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

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