5 álbuns que provaram que os anos 90 não tinham uma única direção
U2, Metallica, Pearl Jam, Smashing Pumpkins e Madonna seguiram caminhos diferentes e ajudaram a transformar uma década difícil de colocar dentro de qualquer definição.

Olhe para 1991 por alguns segundos. O U2 estava em Berlim tentando desmontar o próprio som. O Metallica entrava em estúdio disposto a tornar suas músicas mais diretas. Em Seattle, o Pearl Jam preparava um primeiro álbum que logo escaparia de qualquer expectativa razoável para uma banda recém-formada.
Três discos lançados no mesmo ano. Três ideias muito diferentes sobre o que o rock poderia ser. Pouco depois, o Smashing Pumpkins empilharia guitarras até elas quase perderem a forma. E, perto do fim da década, Madonna encontraria na eletrônica uma maneira de reconstruir mais uma vez sua música.
Talvez seja justamente por isso que os anos 90 continuam rendendo listas como esta. Quanto mais discos colocamos lado a lado, menos a década parece aceitar uma definição.
U2 — Achtung Baby (1991)

Existe uma guitarra em “Zoo Station”, mas ela chega tão deformada que demora alguns segundos para reconhecê-la. Era exatamente esse o ponto.
Depois de passar os anos 80 crescendo até alcançar a escala monumental de The Joshua Tree, o U2 poderia simplesmente continuar sendo aquela banda. Em vez disso, entrou nos anos 90 disposto a mexer na própria estrutura.
Achtung Baby tem guitarras processadas, batidas eletrônicas, distorção, sensualidade e um Bono bem menos interessado na solenidade que havia marcado parte do trabalho anterior do grupo. “The Fly” parece saída de outra banda. “Mysterious Ways” encontra um groove que dificilmente caberia no U2 de poucos anos antes. “One”, no meio dessa transformação toda, mostra que experimentar não significava abandonar aquilo que a banda sabia fazer emocionalmente.
As sessões foram tensas, especialmente em Berlim, e “One” nasceu justamente durante um momento de impasse entre os integrantes. Essa fricção ficou no disco. Achtung Baby não soa como quatro músicos descobrindo tranquilamente uma nova direção. Soa como uma banda arrancando pedaços daquilo que havia se tornado para descobrir o que ainda poderia ser.
Funcionou. O U2 entrou nos anos 90 deixando parte dos anos 80 para trás.
Metallica — Metallica (1991)

A primeira coisa que “Enter Sandman” faz é esperar. A guitarra aparece sozinha. A bateria entra aos poucos. O riff cresce até ocupar tudo. Para uma banda que havia levado o thrash metal a composições longas, velozes e estruturalmente complexas, aquela economia dizia bastante.
No chamado Black Album, o Metallica não ficou leve. Ficou mais direto. Bob Rock ajudou a construir uma produção enorme em torno de riffs que respiravam mais. “Sad but True” avança devagar e pesa justamente por isso. “Wherever I May Roam” transforma simplicidade em tamanho. “Nothing Else Matters” colocou a banda diante de uma vulnerabilidade que muita gente fora do metal ainda não associava ao Metallica.
O resultado atravessou uma fronteira importante Você não precisava acompanhar thrash metal para conhecer aquelas músicas. Elas estavam no rádio, na MTV, nas casas de gente que provavelmente nunca havia comprado Master of Puppets. Isso provocou discussões entre fãs sobre concessão comercial, discussão que acompanharia a banda por muito tempo.
Mas basta colocar “Enter Sandman” para tocar para perceber uma coisa curiosa: o Metallica chegou ao mainstream sem precisar diminuir o amplificador. Mudou a arquitetura. E o tamanho do público mudou junto.
Pearl Jam — Ten (1991)

A voz de Eddie Vedder em “Alive” parece grande demais para caber dentro da música.
A guitarra também.Ten nunca teve a secura de Nevermind. O Pearl Jam carregava algo mais próximo do hard rock dos anos 70, com solos, riffs largos e músicas construídas para crescer. Isso importa porque as duas bandas seriam rapidamente colocadas dentro da mesma história.
Seattle. 1991. Grunge. Pronto. Só que basta ouvir os discos. “Even Flow” tem movimento quase físico. “Jeremy” transforma uma história terrível em uma música de tensão crescente. “Black” vai aumentando emocionalmente até Vedder praticamente abandonar qualquer contenção no final.
O sucesso demorou alguns meses para explodir, mas quando aconteceu, Ten tornou o Pearl Jam uma das maiores bandas de sua geração. E ajudou a revelar como a palavra “grunge” era pequena para explicar o que estava acontecendo no noroeste americano. Nirvana, Soundgarden, Alice in Chains e Pearl Jam dividiam geografia, circuitos e parte de uma cultura.
Musicalmente, porém, cada um carregava suas próprias cicatrizes. Ten deixou isso bem alto.
The Smashing Pumpkins — Siamese Dream (1993)

Billy Corgan não queria apenas uma guitarra grande. Queria várias delas ocupando o mesmo espaço. Em Siamese Dream, guitarras foram gravadas umas sobre as outras até riffs começarem a adquirir textura. Em “Cherub Rock”, o som cresce como uma parede. “Rocket” parece flutuar dentro da distorção. “Mayonaise” encontra beleza justamente no ruído.
Aí aparece “Disarm”. Cordas, violões, sinos e uma fragilidade quase desconfortável.
Essa contradição é uma das coisas que fazem Siamese Dream permanecer tão interessante. O álbum consegue ser pesado sem viver apenas de agressividade e delicado sem perder tensão.
Butch Vig e Corgan perseguiram obsessivamente aquele som no estúdio. A fama de perfeccionismo das sessões não é difícil de acreditar quando se ouve o resultado: tudo parece enorme, mas quase nada parece colocado ali por acaso. Em 1993, “rock alternativo” já havia virado uma expressão suficientemente ampla para vender praticamente qualquer coisa com guitarras.
O Smashing Pumpkins mostrou o quanto ainda dava para fazer com elas. Às vezes, colocando outra guitarra por cima. E depois mais uma.
Madonna — Ray of Light (1998)

A voz que abre “Drowned World/Substitute for Love” não parece preocupada em lembrar ao ouvinte quem Madonna havia sido. Isso já seria motivo suficiente para prestar atenção.
Quando Ray of Light apareceu, Madonna não precisava provar que sabia fazer música pop. Sua carreira já havia atravessado os anos 80 e boa parte dos 90 sob exposição permanente. A questão era outra: o que fazer depois de tudo aquilo? A resposta veio ao lado do produtor William Orbit.
Sintetizadores, ambient, techno, guitarras processadas e batidas eletrônicas passaram a cercar uma Madonna mais introspectiva. “Frozen” é fria e enorme. “The Power of Good-Bye” transforma separação em elegância. E a faixa-título corre como se alguém tivesse aumentado a velocidade do mundo.
Mas Ray of Light não funciona simplesmente porque Madonna resolveu “fazer eletrônica”.
A eletrônica já estava por toda parte em 1998. O interessante é ouvir uma das maiores estrelas pop do planeta tratando aquela linguagem não como decoração, mas como parte central de sua música.
Madonna tinha 39 anos quando o álbum foi lançado, uma idade em que a indústria pop frequentemente começa a tratar mulheres como se sua fase mais relevante estivesse ficando para trás. Ela respondeu fazendo um de seus discos mais inquietos.
No fim dos anos 90, o futuro também podia pertencer a quem já tinha vivido várias vidas dentro do pop.
Não havia um único caminho
Coloque esses cinco discos em sequência e a ideia de um “som dos anos 90” começa a ficar estranha. Achtung Baby desmonta uma banda gigantesca para reconstruí-la.
Metallica reduz a velocidade e aumenta seu alcance. Ten mostra uma Seattle muito maior do que um único som. Siamese Dream transforma guitarra em textura. Ray of Light encontra dentro da eletrônica uma nova possibilidade para o pop. Nenhum deles chegou ao mesmo lugar. Essa é a graça.
Os anos 90 não avançaram em linha reta. Foram para todos os lados ao mesmo tempo.
Ainda bem.
.png)




Comentários