5 álbuns que mudaram os anos 90 e fizeram a música entrar em outra era
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De Nirvana a Lauryn Hill, cinco discos que não apenas marcaram seu tempo, mas alteraram os caminhos da música pop.

É difícil explicar os anos 90 escolhendo apenas cinco discos. Foi uma década em que o rock alternativo chegou ao centro da indústria, o hip-hop ampliou seu domínio sobre a cultura pop, a música eletrônica deixou de ocupar apenas clubes e cenas específicas, e as fronteiras entre gêneros começaram a perder parte da importância que tiveram durante décadas.
Por isso, esta não é uma lista dos cinco melhores álbuns dos anos 90. Também não pretende resumir uma década musicalmente gigantesca em cinco títulos. A pergunta aqui é outra: quais discos fizeram alguma coisa mudar depois que apareceram?
Alguns álbuns vendem milhões. Outros recebem críticas extraordinárias e aparecem durante décadas em listas de melhores de todos os tempos. Mais raros são aqueles que alteram o ambiente ao redor deles. Depois que chegam, gravadoras procuram artistas diferentes, músicos descobrem novas possibilidades, gêneros antes periféricos ganham espaço e até aquilo que o público espera da música começa a mudar.
Os cinco discos abaixo fizeram isso.
Nirvana — Nevermind (1991)

Quando a guitarra de “Smells Like Teen Spirit” entrou em cena, o rock alternativo já existia havia muito tempo. Pixies, Sonic Youth, Dinosaur Jr. e outras bandas tinham preparado parte daquele terreno. O Nirvana não inventou esse universo.
O que Nevermind fez foi algo diferente: levou esse universo para o centro da cultura pop. Lançado em setembro de 91, o segundo álbum do Nirvana transformou uma banda de Aberdeen, no estado de Washington, em um fenômeno mundial. “Smells Like Teen Spirit” virou um acontecimento, mas reduzir o impacto do disco àquela música seria ignorar “Come as You Are”, “Lithium”, “In Bloom” e a própria força de um álbum que conseguia ser abrasivo e extremamente melódico ao mesmo tempo.
Havia distorção, ruído e desconforto, mas havia também refrões enormes.
Essa combinação mudou o jogo. O sucesso de Nevermind mostrou às grandes gravadoras que aquela música que circulava por selos independentes, rádios universitárias e cenas locais também poderia ocupar a MTV, vender milhões de cópias e chegar ao topo das paradas. De repente, o chamado rock alternativo deixou de ser apenas uma alternativa.
E isso produziu uma contradição interessante: quando a indústria descobriu que o underground poderia dar dinheiro, começou a procurar o underground. Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains alcançariam públicos gigantescos durante aquele período, enquanto inúmeras bandas que provavelmente teriam permanecido longe das grandes gravadoras passaram a receber atenção de executivos procurando o próximo fenômeno.
Nevermind não matou sozinho o hard rock que dominara parte dos anos 80, como uma versão simplificada dessa história costuma afirmar. Mudanças culturais nunca acontecem de maneira tão organizada. Mas o disco deixou evidente que o centro de gravidade do rock havia se deslocado.
Depois dele, parecer deslocado também podia significar estar no centro do mundo.
Dr. Dre — The Chronic (1992)

Se Nevermind ajudou a alterar o mapa do rock, pouco mais de um ano depois The Chronic mostrou que outra transformação estava acontecendo em uma escala ainda maior dentro da música americana.
Dr. Dre já carregava consigo a experiência do N.W.A quando lançou seu primeiro álbum solo, em dezembro de 1992. Mas The Chronic não parecia simplesmente uma continuação do que ele havia feito anteriormente. O disco tinha outro balanço.
Baixos profundos, sintetizadores, grooves herdados do funk, produção espaçosa e um ritmo que parecia andar sem qualquer pressa. Era o G-funk chegando ao mainstream com uma identidade sonora impossível de ignorar.
“Let Me Ride”, “Nuthin’ but a ‘G’ Thang” e “Fuck wit Dre Day” ajudaram a estabelecer aquela estética enquanto outro personagem começava a ocupar espaço: Snoop Doggy Dogg. Sua presença no álbum seria tão importante que, no ano seguinte, Doggystyle transformaria o rapper em outra estrela da nova configuração do hip-hop americano.
The Chronic também ajudou a consolidar a Costa Oeste como uma força dominante no rap daquele período e estabeleceu a Death Row Records como uma das gravadoras fundamentais da década. Sua influência, porém, ultrapassou vendas e geografia. A produção de Dr. Dre mostrou que um álbum de hip-hop poderia construir um universo sonoro próprio, reconhecível poucos segundos depois de uma música começar. O produtor não estava apenas colocando batidas atrás de rappers. Ele estava desenhando um ambiente inteiro.
Os anos 90 soariam diferentes depois disso.
Radiohead — OK Computer (1997)

Em 97, o Radiohead já não precisava provar que conseguia escrever grandes músicas de rock. The Bends, lançado dois anos antes, havia resolvido essa questão. Então a banda resolveu complicar tudo.
OK Computer começa com “Airbag”, passa pela estrutura monumental de “Paranoid Android” e, durante pouco mais de cinquenta minutos, constrói um mundo povoado por máquinas, estradas, consumo, ansiedade, isolamento e pessoas tentando continuar humanas dentro dele.
Não era exatamente um disco sobre computadores. Era pior. Era um disco sobre nós. O curioso é ouvi-lo hoje e perceber como muitas de suas inquietações parecem pertencer mais ao século XXI do que a 1997. A tecnologia estava se aproximando cada vez mais da vida cotidiana, a internet comercial crescia rapidamente e a promessa de um futuro permanentemente conectado começava a ganhar forma.
O Radiohead olhou para aquilo e não pareceu particularmente confortável. Musicalmente, a mudança também era importante. Guitarras continuavam ali, mas já não precisavam comandar tudo. Texturas eletrônicas, manipulações de estúdio, estruturas pouco convencionais e ruídos passaram a dividir espaço com a formação tradicional de uma banda de rock.
O impacto de OK Computer está também no que ele permitiu imaginar. Uma das maiores bandas de guitarra de sua geração acabava de mostrar que o futuro do rock poderia estar justamente em abandonar algumas certezas sobre como uma banda de rock deveria soar. Três anos depois, o próprio Radiohead levaria essa ideia muito mais longe com Kid A.
Mas a porta já estava aberta.
Björk — Homogenic (1997)

Existe um momento em “Jóga” em que cordas enormes parecem disputar espaço com batidas eletrônicas que poderiam desmontar a música por dentro. Só que nada desmorona.
Essa tensão ajuda a entender Homogenic.
No terceiro álbum solo de Björk, lançado em 97, instrumentos de cordas, programação eletrônica, beats ásperos e uma voz absolutamente humana ocupam o mesmo espaço. Em vez de suavizar as diferenças entre esses elementos, Björk faz com que eles colidam.
“Jóga”, “Bachelorette”, “Hunter” e “All Is Full of Love” mostram diferentes lados dessa construção. Naquele ponto da década, a música eletrônica já havia avançado muito além do underground. Techno, house, trip-hop, drum and bass e inúmeras outras linguagens circulavam pela cultura popular. O que Homogenic demonstrou com uma força particular foi que eletrônica e composição pop não precisavam estabelecer uma relação de hierarquia.
Uma não estava ali para decorar a outra.
Björk podia tratar beats eletrônicos com a mesma importância emocional de uma seção de cordas. Podia construir música experimental sem abandonar melodias. Podia produzir algo profundamente tecnológico sem retirar dele a vulnerabilidade.Essa liberdade ajudaria a se tornar cada vez mais comum na música das décadas seguintes. Homogenic não precisava escolher entre o orgânico e o eletrônico.
O futuro seria justamente a mistura dos dois.
Lauryn Hill — The Miseducation of Lauryn Hill (1998)

Depois de quatro discos discutindo transformações sonoras, chegamos a um álbum cuja mudança passa também por quem estava contando a história. Lauryn Hill já era conhecida mundialmente pelo Fugees quando lançou The Miseducation of Lauryn Hill em agosto de 1998. Ainda assim, seu primeiro álbum solo parecia uma apresentação.
Dessa vez, a voz era completamente dela. “Doo Wop (That Thing)”, “Ex-Factor”, “Everything Is Everything”, “To Zion” e “Lost Ones” atravessam hip-hop, soul e R&B sem a preocupação de anunciar quando um gênero termina e o outro começa. Lauryn canta. Lauryn rima Lauryn escreve sobre amor, maternidade, relações, fé, frustração e identidade.
Tudo pertence ao mesmo disco. Essa integração ajudou a desmontar uma separação que ainda aparecia com frequência entre rapper e cantora. Hill podia ocupar os dois lugares sem tratar nenhum deles como secundário. E fazia isso dentro de um álbum profundamente pessoal que, ao mesmo tempo, alcançou uma dimensão comercial gigantesca. O impacto cultural foi igualmente importante.
Uma mulher negra ocupava o centro do hip-hop e da música popular mundial sem precisar reduzir sua escrita, sua vulnerabilidade ou sua complexidade para chegar ali. No Grammy de 1999, The Miseducation of Lauryn Hill venceu Álbum do Ano, e Lauryn Hill se tornou a primeira artista de hip-hop a conquistar a categoria. Era mais do que uma premiação importante.
Era uma indicação bastante clara de quanto o centro da música popular havia se movido.
A década terminou em outro lugar
Coloque Nevermind e The Miseducation of Lauryn Hill lado a lado. São apenas sete anos entre os dois. Mesmo assim, parece que uma quantidade absurda de coisas aconteceu naquele intervalo.
O rock alternativo atravessou o underground e virou fenômeno mundial. O hip-hop ampliou sua presença até se tornar uma das principais forças da cultura popular. A eletrônica deixou de ser tratada como um território separado. Artistas começaram a atravessar gêneros com cada vez menos cerimônia. E algumas das maiores obras daquele período já estavam preocupadas com um futuro tecnológico que mal havia começado.
Nenhum desses cinco álbuns fez tudo isso sozinho. Discos não mudam a cultura isoladamente. Eles aparecem dentro de movimentos que já estão acontecendo, absorvem aquilo que veio antes e acabam empurrando alguma coisa alguns metros adiante. Às vezes, porém, esses poucos metros são suficientes. Porque há discos que pertencem a uma década. E há aqueles depois dos quais a década já não consegue continuar sendo a mesma.
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