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5 álbuns que desafiaram o som dos anos 90

há 23 horas
6 min de leitura

Portishead, Nas, Alanis Morissette, Daft Punk e My Bloody Valentine mostram outros caminhos de uma década em permanente transformação

My Bloody Valentine
My Bloody Valentine. Foto: Paul Rider / Divulgação


Dez álbuns depois, ainda havia uma parte enorme dos anos 90 esperando para entrar nesta conversa. Isso acontece porque algumas décadas musicais podem ser compreendidas a partir de um movimento dominante. Os anos 90 resistem a essa simplificação.





Enquanto guitarras eram deformadas até perderem sua forma original, o hip-hop encontrava novas maneiras de narrar a vida nas cidades. A eletrônica atravessava clubes e chegava às paradas. Uma cantora canadense transformava ressentimento, desejo e vulnerabilidade em fenômeno mundial. Não havia uma única revolução acontecendo.

Havia várias.


Depois de Nevermind, The Chronic, OK Computer, Homogenic, The Miseducation of Lauryn Hill, Blue Lines, Automatic for the People, Enter the Wu-Tang (36 Chambers), (What’s the Story) Morning Glory? e The Fat of the Land, chegamos a outros cinco discos que ajudam a entender por que a música terminou os anos 90 tão diferente de como havia começado.


My Bloody Valentine — Loveless (1991)

My Bloody Valentine — Loveless 
Imagem: Reprodução


À primeira audição, é difícil descobrir onde termina uma guitarra em Loveless. Em alguns momentos, também é difícil descobrir onde ela começa. Kevin Shields passou anos procurando uma sonoridade em que guitarras deixassem de funcionar apenas como guitarras. Distorção, volume, alavancas de tremolo, camadas de gravação e vozes quase enterradas na mixagem transformaram as músicas do My Bloody Valentine em massas sonoras que pareciam se mover.


“Only Shallow” deixa isso claro logo nos primeiros segundos. A bateria entra. Depois vem aquele som. Não parece exatamente um riff. Parece alguma coisa enorme passando pela música. Em “When You Sleep”, melodias quase pop sobrevivem debaixo das camadas de ruído. “Sometimes” reduz a distância entre beleza e distorção até as duas coisas praticamente significarem a mesma coisa.


O shoegaze já existia quando Loveless apareceu em novembro de 1991. Bandas como Ride e Slowdive faziam parte daquele ambiente britânico. Mas o álbum do My Bloody Valentine levou as possibilidades daquela estética a um extremo. Sua influência ultrapassaria o próprio gênero.


Dream pop, rock alternativo, música experimental e gerações posteriores de bandas de guitarra encontrariam alguma coisa naquele som. Loveless mostrou que uma guitarra não precisava necessariamente soar como uma guitarra. Às vezes, ela poderia soar como o ambiente inteiro.





Nas — Illmatic (1994)

Nas — Illmatic 
Imagem: Reprodução


Nas tinha 20 anos quando Illmatic chegou às lojas. Isso continua sendo uma informação difícil de conciliar com aquilo que se ouve no disco. Em apenas dez faixas, o rapper transforma Queensbridge, em Nova York, em um espaço quase físico. Prédios, ruas, violência, amigos, ambição, medo e sobrevivência aparecem em versos construídos com um nível de observação que faz determinadas cenas parecerem acontecer diante do ouvinte.


“N.Y. State of Mind” é um dos exemplos mais evidentes. Nas não simplesmente diz onde está. Ele coloca o ouvinte dentro daquele lugar. Essa escrita encontrou uma estrutura igualmente importante. Em vez de depender de um único produtor, Illmatic reuniu nomes como DJ Premier, Pete Rock, Large Professor e Q-Tip. Cada um trouxe características próprias, mas o disco não parece uma coleção desconectada de músicas.


Parece uma obra única. Isso ajudou a estabelecer um modelo que se tornaria recorrente no hip-hop: grandes produtores diferentes reunidos em torno da visão de um rapper. Mas o impacto de Illmatic está principalmente na escrita. Nas mostrou até onde uma narrativa poderia chegar dentro de poucos minutos. Técnica, imagens, fluxo e observação social conviviam sem que uma coisa anulasse a outra.


O hip-hop sempre havia contado histórias. Illmatic ajudou a elevar novamente as expectativas sobre a maneira como elas poderiam ser contadas.




Portishead — Dummy (1994)

Portishead — Dummy
Imagem: Reprodução


Uma agulha toca o vinil. Há chiados. Uma batida começa lentamente. Então Beth Gibbons canta. Poucos segundos de “Mysterons” já são suficientes para perceber que Dummy não parece interessado em oferecer conforto.


Lançado em 1994, o primeiro álbum do Portishead surgiu da mesma Bristol que havia produzido o Massive Attack, mas encontrou uma identidade própria. Geoff Barrow, Beth Gibbons e Adrian Utley misturaram hip-hop, soul, eletrônica, samples, scratches e uma atmosfera que parecia ter escapado de algum filme antigo.


“Sour Times” poderia acompanhar um thriller de espionagem que nunca existiu. “Glory Box” carrega sensualidade e exaustão na mesma interpretação. “Roads” praticamente interrompe o tempo. O termo trip-hop acabaria reunindo artistas diferentes sob o mesmo guarda-chuva, algo que nem sempre fazia justiça às particularidades de cada um.


No caso do Portishead, porém, havia algo especialmente importante acontecendo.

A tecnologia não era usada para sugerir futuro. Era usada para construir memória. Ruídos de vinil, samples, timbres envelhecidos e referências cinematográficas davam ao álbum uma sensação estranha: Dummy parecia antigo e moderno ao mesmo tempo.


Essa estética atravessaria a segunda metade dos anos 90 e deixaria marcas muito além de Bristol. O Portishead descobriu que a música eletrônica também poderia soar como uma lembrança ruim que você não consegue abandonar.






Alanis Morissette — Jagged Little Pill (1995)

Alanis Morissette — Jagged Little Pill 
Imagem: Reprodução


“You Oughta Know” não pede licença. Alanis Morissette canta como alguém que já passou da etapa de organizar aquilo que sente antes de dizer. Quando Jagged Little Pill apareceu em 1995, ela tinha 21 anos e já havia lançado dois discos no Canadá. Mas aquela Alanis parecia muito distante da artista que o público canadense havia conhecido anteriormente.


O álbum produzido com Glen Ballard colocava guitarras, pop e elementos do rock alternativo ao redor de letras sobre relacionamentos, desejo, insegurança, religião, raiva e contradições pessoais. “You Oughta Know” virou o choque inicial.


Depois vieram “Hand in My Pocket”, “Ironic”, “You Learn” e “Head over Feet”. O impressionante é que Jagged Little Pill conseguiu transformar essa exposição emocional em um dos maiores fenômenos comerciais da década. E havia algo importante nisso. A raiva feminina evidentemente não começou com Alanis. Décadas de punk, pós-punk e rock já haviam produzido mulheres escrevendo e cantando sobre assuntos semelhantes, e a própria cena alternativa dos anos 90 estava cheia delas.


A diferença estava na escala. Milhões de pessoas estavam ouvindo uma jovem cantar sobre ressentimento, sexo, insegurança e relações fracassadas sem que essas emoções precisassem ser suavizadas para caber no rádio. Depois de Jagged Little Pill, esse tipo de franqueza tinha um espaço ainda maior dentro do mainstream. A vulnerabilidade podia vender milhões. A raiva também.





Daft Punk — Homework (1997)

Daft Punk — Homework
Imagem: Reprodução


Dois robôs ainda não existiam. Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo apareceriam escondidos atrás de capacetes alguns anos depois. Em Homework, o que importava primeiro era outra coisa: a repetição.


“Da Funk” constrói sua força em torno de uma linha insistente. “Around the World” transforma praticamente uma única frase em música pop. “Revolution 909” parece encontrar pequenas mudanças dentro de estruturas que poderiam continuar indefinidamente. Era house. Mas havia algo diferente acontecendo em Paris.


Durante a segunda metade dos anos 90, produtores franceses começaram a desenvolver uma linguagem que seria associada ao French touch. Disco, funk, filtros, samples e house encontravam uma identidade particular nas mãos de artistas como Daft Punk, Cassius e Étienne de Crécy.


Homework tornou-se uma das grandes portas internacionais para aquele universo.

O Daft Punk também compreendeu cedo uma coisa que se tornaria fundamental nas décadas seguintes: música eletrônica poderia produzir uma identidade pop tão reconhecível quanto qualquer banda tradicional. Não era necessário colocar um vocalista no centro do palco.


Nem era necessário seguir a velha arquitetura do rock para conquistar multidões.

“Da Funk” e “Around the World” atravessaram clubes, rádios e MTV enquanto o álbum apresentava ao público internacional uma nova geração da eletrônica francesa. Poucos anos depois, os capacetes chegariam e o Daft Punk transformaria anonimato em uma das imagens mais reconhecíveis da música. Mas antes dos robôs havia Homework.


E antes do espetáculo havia duas pessoas descobrindo o tamanho que uma batida repetida poderia alcançar.






Quinze discos e ainda falta uma parte dos anos 90


Agora são quinze. E ainda não chegamos a Ten, do Pearl Jam. Achtung Baby, do U2. Screamadelica, do Primal Scream. The Downward Spiral, do Nine Inch Nails. Metallica, do Metallica. Grace, de Jeff Buckley. Siamese Dream, do Smashing Pumpkins. Ray of Light, de Madonna.


Isso diz mais sobre a década do que qualquer tentativa de encontrar uma lista definitiva.

Porque os anos 90 não foram uma linha reta entre o grunge de 1991 e a eletrônica do final da década.


Enquanto algumas bandas destruíam as convenções do rock, outras recuperavam seu passado. Enquanto o hip-hop construía novas linguagens, a música eletrônica saía dos clubes e ocupava espaços cada vez maiores. Enquanto isso, artistas pop descobriam que vulnerabilidade, estranheza e experimentação também podiam alcançar milhões de pessoas.


Loveless, Illmatic, Dummy, Jagged Little Pill e Homework contam cinco dessas histórias. Nenhuma delas explica os anos 90 sozinha.Juntas, ajudam a entender por que ainda estamos tentando explicar aquela década mais de trinta anos depois. E ainda faltam discos.



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