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Bruce Springsteen: quando o rock se recusa a ficar em silêncio

há 22 horas
3 min de leitura

Em Streets of Minneapolis, o músico transforma a violência de agentes federais nos Estados Unidos em uma canção de protesto e reafirma que questionar o poder também faz parte da democracia

Bruce Springsteen
Bruce Springsteen (Foto: Emma McIntyre/Oscars/Getty Images)

Bruce Springsteen levou apenas quatro dias para transformar a morte de Alex Pretti em música. O enfermeiro de 37 anos foi morto a tiros por agentes federais em Minneapolis, em 24 de janeiro de 2026. Renée Good, também de 37 anos, havia sido baleada por um agente do serviço de imigração americano dezessete dias antes. Em 28 de janeiro, Streets of Minneapolis chegava ao público, carregando os nomes dos dois e a indignação de um artista que se recusava a assistir aos acontecimentos em silêncio.





Aos 76 anos, Springsteen não precisava provar absolutamente nada. Sua trajetória já havia atravessado guerras, crises econômicas, governos e transformações sociais. Mas o homem que passou décadas cantando sobre trabalhadores, veteranos e pessoas abandonadas pelo sonho americano ainda encontrava motivos para questionar o próprio país.


A nova canção tem a aspereza de uma notícia que ninguém gostaria de receber. Springsteen acusa o governo de Donald Trump de promover violência por meio das operações federais de imigração e questiona as justificativas apresentadas para as mortes. A Casa Branca contestou suas declarações, enquanto imagens dos episódios levantaram dúvidas sobre as versões oficiais.


Há uma questão fundamental nessa história: o Estado possui autoridade para fazer cumprir as leis, mas essa autoridade não o coloca acima delas. Fiscalizar o uso da força, exigir investigações e questionar decisões governamentais não representa uma ameaça à democracia. Faz parte de seu funcionamento.


E Springsteen conhece bem a diferença entre patriotismo e obediência. Em Born in the U.S.A., lançada em 84, ele já havia exposto as frustrações de um veterano da Guerra do Vietnã diante de um país incapaz de cumprir suas promessas. A canção, frequentemente confundida com uma celebração nacionalista, carregava uma crítica amarga à experiência americana. Quatro décadas depois, o compositor continua interessado nessa distância entre os ideais de uma nação e a realidade vivida por seus cidadãos.


O amor por um país não exige concordância permanente com seus governantes. Também não deveria impedir a denúncia de injustiças cometidas em seu nome. É nesse ponto que Streets of Minneapolis ultrapassa as fronteiras americanas. O debate sobre segurança, imigração e autoridade pública pertence a diferentes sociedades, inclusive à brasileira.




Governos podem divergir profundamente sobre suas políticas, mas o respeito à vida, às garantias legais e à responsabilização pelo uso da força não deveria depender da identidade política de quem ocupa o poder.


A música também recorda uma responsabilidade histórica do rock. De Bob Dylan a Rage Against the Machine, diferentes gerações transformaram suas inquietações políticas em arte. Nem todas as canções oferecem respostas, e tampouco deveriam. Mas algumas conseguem formular perguntas que os discursos oficiais prefeririam deixar sem resposta.


Springsteen não escreveu Streets of Minneapolis para substituir uma investigação ou determinar responsabilidades judiciais. Sua manifestação é artística e política, assumidamente crítica. O que a canção oferece é outra forma de testemunho, uma tentativa de impedir que duas vidas sejam reduzidas à linguagem impessoal dos relatórios e das disputas governamentais.


Em tempos nos quais a indignação pode desaparecer com a próxima atualização das redes sociais, registrar esses acontecimentos também é uma maneira de preservar sua memória. Renée Good e Alex Pretti não eram personagens criados para sustentar uma composição. Eram pessoas que tinham famílias, histórias e uma vida para além das circunstâncias de suas mortes.


Bruce Springsteen escreveu uma música sobre elas. E enquanto houver perguntas sem respostas, seus nomes continuarão atravessando o silêncio.



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