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Ainda Estou Aqui: o que o Brasil de 2026 ainda se recusa a lembrar

há 24 horas
3 min de leitura

O filme de Walter Salles revisita as marcas da ditadura militar e ganha uma nova dimensão diante de um país que, mais de cinco décadas depois, continua dividido sobre o próprio passado

Fernanda Torres, como Eunice Paiva, em Ainda Estou Aqui
Imagem: Reprodução


Em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi levado de sua casa, no Rio de Janeiro, por agentes da ditadura militar. Deixou para trás a mulher, Eunice, e cinco filhos. Nunca mais voltou. Durante décadas, a família precisou conviver não apenas com sua ausência, mas também com o silêncio de um Estado que se recusava a reconhecer o que havia acontecido.





É essa história que Walter Salles recupera em Ainda Estou Aqui. O diretor poderia ter concentrado sua narrativa nos mecanismos da repressão, mas escolheu acompanhar uma família cuja rotina foi interrompida pela violência política. Antes da chegada dos militares, havia crianças, amigos, música e uma casa movimentada. Depois, restaram as perguntas que ninguém parecia disposto a responder.


Na interpretação de Fernanda Torres, Eunice precisa encontrar maneiras de continuar vivendo enquanto procura notícias do marido. Há uma contenção muito particular em sua atuação. A personagem não tem o privilégio de se entregar completamente ao sofrimento. Precisa cuidar dos filhos, reorganizar a vida e tomar decisões em meio à incerteza.


Uma das cenas mais significativas acontece numa sorveteria. Eunice está com os filhos quando seu olhar encontra uma família reunida na mesa ao lado. Há conversas, sorrisos, uma despreocupação que ela própria conhecia tão bem. Fernanda Torres permanece em silêncio, mas sua expressão muda discretamente. Por alguns instantes, somos colocados diante de uma dor que não precisa ser explicada. Aquela família continua vivendo algo que a ditadura tirou da sua.





Eunice faria muito mais ao longo dos anos. Tornou-se advogada, participou da defesa dos direitos indígenas e dedicou parte importante de sua trajetória à busca por justiça. Em 1996, conseguiu a certidão de óbito de Rubens. Somente em janeiro de 2025, sete anos depois de sua morte, o documento foi corrigido para reconhecer que ele havia sido morto pela violência do Estado brasileiro.


Há algo profundamente incômodo nesse intervalo de tempo. Foram necessárias mais de cinco décadas para que uma informação conhecida por tantos anos aparecesse oficialmente no registro de sua morte.



Ainda Estou Aqui
Imagem: Reprodução


Agora, em outubro de 2026, quando Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno da eleição presidencial, o filme encontra um país que ainda mantém uma relação difícil com a memória da ditadura. Não se trata de transformar uma obra cinematográfica em propaganda eleitoral. Mas também não é possível ignorar que, em 2016, Jair Bolsonaro homenageou publicamente o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff.


Discordâncias políticas fazem parte da democracia. Defender a tortura, justificar desaparecimentos ou celebrar responsáveis pela repressão pertence a outra discussão. O Brasil precisa ser capaz de reconhecer essa diferença, independentemente de quem esteja no poder.


Talvez seja por isso que Ainda Estou Aqui continue tão necessário. O filme não nos pede que concordemos com as posições políticas de Rubens Paiva. Apenas nos coloca diante de uma família que teve seus direitos violados e passou décadas tentando obter uma resposta. O que aconteceu com os Paiva pertence à história do Brasil, mas a maneira como o país escolhe lidar com esse passado continua sendo uma questão do presente.


Já nos momentos finais de Ainda Estou Aqui, encontramos Eunice décadas depois, interpretada por Fernanda Montenegro. O Alzheimer comprometeu sua memória. Durante uma reunião familiar, uma reportagem na televisão mostra Rubens Paiva. Eunice, até então distante do que acontece ao redor, parece reconhecer aquela imagem. Há uma mudança em seu olhar, uma emoção que surge brevemente. Outra vez, quase nenhuma palavra é necessária.




É difícil não pensar na cena da sorveteria. Duas atrizes, em momentos diferentes da vida de uma mesma mulher, encontram no silêncio uma maneira de expressar aquilo que as palavras dificilmente alcançariam.


Esse é um dos trabalhos mais importantes que a cultura pode realizar. Não substituir a pesquisa histórica, nem decidir sozinha os rumos políticos de um país, mas permitir que experiências humanas sejam conhecidas, discutidas e transmitidas. E, enquanto ainda houver quem trate a ditadura como um período a ser celebrado, a história de Eunice estará longe de ser apenas uma lembrança.




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