A Terapia Certa: um filme capaz de mostrar que de terapeuta e escritor todo mundo tem um pouco
Com atuações marcantes de Ricardo Darín e Diego Peretti, o filme argentino mistura psicanálise, humor e suspense em uma trama repleta de conflitos psicológicos

Mesmo que não seja uma temática de fácil digestão, a Psicanálise costuma ser retratada em diversas produções. Claro que você pode estar diante de um filme que trata da história da Psicanálise como acontece em Freud Além da Alma (1962), ou pode contemplar até mesmo animações que fazem desse tema um estudo profundo para a composição de seus personagens e da história, caso de Divertidamente (2015).
Dirigido por Hernán Goldfrid (Tese Sobre Um Homicídio, 2013) e com roteiro de Emanuel Diez (série Meu Querido Zelador), A Terapia Certa (Lo Dejamos Acá, 2026) é um filme argentino que traz elementos da Psicanálise e que está presente no catálogo da Netflix.
Ulises Verón (Ricardo Darín) é um psicanalista de renome que não acredita tanto mais na terapia tradicional. Chegando ao ponto de recusar uma premiação. Dessa forma, Ulises aborda seus pacientes em segredo, acreditando assim ter criado um novo tipo de terapia. Porém, quando ele recebe a visita do escritor Martín Bouchard (Diego Peretti) em seu consultório, diversas mudanças passam a acontecer em sua vida.
Conforme dito anteriormente, o espectador aqui não está diante de um filme fácil. Primeiro, é preciso entrar na mente de ambos os personagens. Num filme com muitos diálogos que citam desde Lacan até Michelangelo, com uma cenografia que explora o teatral e que não depende de efeitos e de muitas cenas de Ação, a tensão engrena através da grande atuação de Darín e Peretti, sobretudo quando eles passam a se interagir de forma mais predominante.
Colocando em choque, a princípio, a personalidade de um escritor famoso que está diante de um bloqueio na sua escrita e a de um terapeuta que está convicto em seu novo método, o filme se embrenha numa alternância entre a comédia dramática e o suspense com tons sombrios.
Esse dois profissionais em momentos importantes de suas vidas, ambos que suas crises particulares, criam situações inesperadas que trarão algumas consequências. Ulises é um terapeuta que faz de Martin algo muito mais que seu paciente, uma espécie de cúmplice, chegando ao ponto de deixar outros pacientes de lado para dar mais preferência ao escritor.

Muitas das cenas buscam a atmosfera noturna e trazem o voyeurismo como aspecto principal para a composição da trama. Por vezes, existe até algo de Hitchcockiano embutido (em certo momento, uma das cenas me trouxe algo do clássico Janela Indiscreta de 1954).
O filme ainda aborda alguns dilemas morais, embora não faça disso uma extrema sustentação para sua trama. Ainda tem um espaço para dialogar com as angústias sociais, a saúde mental nos tempos modernos e o alcance da fama e do prestígio social mesmo que isso passe por cima de nossos valores.
A bronca fica por conta do final. Ele merecia um melhor retoque. Mas isso está longe de ofuscar o filme por completo. Entre bons momentos que trazem bebedeiras com tequilas, inspirações dos filmes retrôs de Suspense e diálogos criativos, difícil o espectador não se lembrar sempre da incrível cena com Darín e Peretti dançando ao som de ‘Careless Whisper’ de George Michael.
Trailer:
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