Toy Story 5 transforma brinquedos em uma reflexão sobre memória, tecnologia e tudo o que insistimos em guardar
- Marcello Almeida
- há 2 dias
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Mais do que uma continuação, Toy Story 5 usa seus brinquedos para refletir sobre memória, tecnologia e a infância que continua existindo dentro de nós

Dizer que a franquia Toy Story perdeu sua magia e encanto é uma visão um tanto distorcida em relação à qualidade que a Pixar vem mantendo nessa história de Woody e Buzz. São personagens que cresceram com a gente e ajudaram a repaginar o campo da nossa imaginação.
Apesar de este que vos escreve acreditar que o final ideal para essa turminha fique ali na trilogia, eles ainda dizem muito sobre a vida. E esse é um dos pontos mais interessantes sobre Toy Story 5. A Pixar sabe muito bem que não está fazendo um filme apenas sobre brinquedos. Ela está traduzindo, de maneira poética e nostálgica, a infância em uma época em que a infância mudou.
Se a gente voltar um pouco no tempo, o primeiro filme, lá de 1995, nos fazia uma pergunta pertinente: o que acontece quando a criança cresce? O terceiro respondia essa pergunta de forma quase perfeita. Andy vai embora, doa seus brinquedos e entende que crescer não significa, necessariamente, esquecer. Por isso, eu e tantos outros consideramos aquele o verdadeiro final da saga.
O quarto filme mudou essa pergunta. Em vez de falar sobre crescer, falou sobre identidade. Woody percebe que sua existência não depende apenas de servir a uma criança. Ele pode encontrar outro propósito. Foi uma despedida mais íntima do personagem.
A verdade é que, desde 1995, Woody, Buzz e seus companheiros nunca foram apenas brinquedos. Eles sempre funcionaram como metáforas para medos, afetos e mudanças que acompanham qualquer ser humano. O medo de ser substituído. A dificuldade de aceitar o tempo. A dor de deixar alguém partir. A busca por um novo propósito. Cada capítulo da saga encontrou uma forma diferente de discutir essas questões sem perder a leveza de uma animação.

O quinto capítulo amplia ainda mais esse universo. O conflito deixa de ser apenas pessoal e passa a ser geracional. A infância mudou. Os brinquedos já não ocupam o mesmo espaço de antes. Tablets, celulares, inteligência artificial, vídeos infinitos e jogos online passaram a disputar a atenção das crianças.
O filme reconhece essa transformação sem transformar a tecnologia em vilã. O problema nunca foi o avanço tecnológico. O verdadeiro conflito é outro: o que acontece quando a imaginação passa a dividir espaço com um mundo que entrega quase tudo pronto?
Talvez esse seja o ponto mais importante destacado no filme. A narrativa não tenta convencer o público de que o passado era melhor. Em vez disso, convida o espectador a lembrar de uma época em que brincar significava inventar mundos inteiros dentro do próprio quarto.
Quem cresceu nos anos 80, 90 ou começo dos anos 2000 provavelmente vai reconhecer essas lembranças. A ida à loja para comprar um boneco do He-Man, dos Cavaleiros do Zodíaco ou dos Power Rangers. As tardes jogando bola na rua até escurecer. A bicicleta largada na calçada. As locadoras lotadas na sexta-feira, quando escolher um filme fazia parte da diversão.
Os CDs cuidadosamente organizados na estante, ouvidos do começo ao fim porque aquele álbum precisava ser vivido como uma experiência completa. Hoje quase tudo está na palma da nossa mão. É impossível negar que nunca tivemos acesso tão fácil à cultura. O streaming colocou milhares de filmes, discos e séries ao alcance de um toque. A inteligência artificial amplia possibilidades que pareciam inimagináveis poucos anos atrás.

Mas toda essa facilidade também transformou nossa relação com o tempo. Antes existia expectativa. Hoje existe disponibilidade. Acho que essa é a palavra ideal para esses tempos. E talvez seja exatamente isso que Toy Story 5 esteja perguntando ao espectador: o que perdemos quando tudo passa a estar disponível o tempo inteiro?
A resposta nunca vem como uma nostalgia vazia. A Pixar entende que o futuro não precisa apagar o passado. Tecnologia e memória podem coexistir. O que nenhuma inovação consegue substituir é o valor sentimental das experiências.
Quando lembramos de um brinquedo, quase nunca estamos lembrando apenas do plástico. Lembramos da ansiedade antes de comprá-lo, das histórias inventadas, das tardes que pareciam infinitas e da sensação de que qualquer objeto podia se transformar em uma aventura. É por isso que Woody continua sendo um dos personagens mais humanos da história da animação.
Ele não deseja ser importante porque é raro ou especial, sabe? Ele deseja significar alguma coisa para alguém. No fundo, esse também é o maior desejo de qualquer pessoa. A amizade entre Woody e Buzz continua sendo o coração da franquia justamente porque atravessa mudanças, despedidas, diferenças e o próprio tempo.
Toy Story 5 não é um filme sobre brinquedos tentando sobreviver à tecnologia. É um filme sobre pessoas tentando preservar suas lembranças em um mundo que muda rápido demais. E vai ver seja por isso que tantos adultos saíram emocionados da sessão.
Porque ele nos faz lembrar da infância que ficou para trás, das locadoras que desapareceram, dos CDs guardados em caixas, dos brinquedos esquecidos no fundo do armário e de uma época em que bastavam alguns bonecos espalhados pelo chão para acreditar que qualquer história era possível.

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