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'The End': a canção em que Jim Morrison deixou de cantar e começou a encarar o abismo

Antes de se tornar a trilha sonora definitiva de Apocalypse Now, a obra-prima do The Doors já havia transformado o fim em um lugar de encontro entre o amor, a morte e a própria condição humana.

Jim Morrison
(Foto: Agência El Universal / AP)


Há músicas que envelhecem como fotografias. Outras permanecem suspensas no tempo, incapazes de pertencer a uma época específica. 'The End', do The Doors, pertence a essa segunda categoria. Mais de cinco décadas depois, seus quase doze minutos continuam produzindo o mesmo efeito desconcertante: a sensação de que não estamos ouvindo uma canção, mas atravessando um ritual.





É curioso que ela tenha encerrado o álbum de estreia da banda em 1967. Enquanto boa parte da Califórnia celebrava o nascimento da utopia hippie, Jim Morrison parecia enxergar algo que escapava ao entusiasmo coletivo. Onde muitos viam flores, ele via sombras. Onde havia promessas de liberdade, ele percebia o peso inevitável da existência. The End não anuncia apenas um fim. Ela questiona a própria ideia de começo.


Essa talvez seja a maior força da canção. Morrison nunca oferece respostas. Ele cria imagens. Abre portas. Convida o ouvinte a caminhar por corredores onde a lógica deixa de ser suficiente. O desconforto faz parte da experiência.


É por isso que reduzir a música a uma sucessão de provocações freudianas ou delírios psicodélicos parece simplificá-la demais. O famoso trecho envolvendo pai e mãe atravessou décadas cercado por interpretações sobre o complexo de Édipo, mas o próprio Morrison sugeria que a canção operava em outro plano. Em entrevista à Rolling Stone, afirmou que "o fim" talvez fosse apenas o adeus a uma garota, embora também pudesse representar o encerramento da infância.


Essa ambiguidade sempre foi o verdadeiro combustível de 'The End'. As primeiras sementes da composição nasceram após o fim do relacionamento entre Morrison e Mary Werbelow, seu primeiro grande amor. Os versos "This is the end, beautiful friend" carregam inevitavelmente essa marca afetiva. Mas a canção nunca permanece no terreno da memória romântica. Ela cresce, se transforma e passa a investigar perdas muito maiores do que qualquer separação.


Em outra entrevista, concedida à jornalista Lizzie James em 1968, Morrison resumiu uma ideia que parece iluminar toda a composição:


"As pessoas temem a morte ainda mais do que a dor. É estranho que temam a morte. A vida dói muito mais do que a morte. No momento da morte, a dor acaba. Sim, acho que ela é uma amiga."





Essa frase ajuda a compreender por que a faixa jamais soa como uma celebração da destruição. Existe escuridão em cada verso, mas não há fascínio gratuito pelo caos. Morrison encara a morte como quem encara um espelho inevitável. O medo não desaparece. Apenas deixa de ser escondido.


John Densmore revelou anos depois que Morrison explicava o trecho mais controverso da música como uma espécie de rompimento espiritual. "Mate todas aquelas coisas em você que não são suas", teria dito o vocalista. A violência simbólica da letra não estaria direcionada aos pais, mas às ideias herdadas, às estruturas impostas e às identidades construídas pelos outros. Antes de nascer de verdade, seria preciso destruir aquilo que nunca pertenceu ao indivíduo.


Sob essa perspectiva, 'The End' deixa de ser uma narrativa sobre morte para se tornar uma história sobre transformação.


Talvez seja justamente por isso que a música encontrou um segundo nascimento em Apocalypse Now. Francis Ford Coppola percebeu que nenhuma outra composição traduzia tão bem o colapso moral da Guerra do Vietnã. Quando o Capitão Willard atravessa a selva em direção ao Coronel Kurtz, não está apenas cumprindo uma missão militar. Está descendo às regiões mais primitivas da consciência humana. Morrison já havia feito essa viagem anos antes.


O impacto da sequência é tão poderoso que, para muita gente, tornou-se impossível separar a música do filme. Ainda assim, The End continua existindo para além daquela cena. Ela não depende das imagens de Coppola. Pelo contrário. As imagens apenas encontraram uma música que já carregava dentro de si a dimensão do apocalipse.





Há inúmeras bandas capazes de escrever grandes canções sobre amor, perda ou revolta. Pouquíssimas conseguem criar uma obra que pareça dialogar diretamente com os medos mais antigos da humanidade. The End permanece inquietante porque nunca descreve um monstro. Ela sugere que ele sempre esteve ali, esperando pacientemente atrás daquilo que chamamos de civilização.


No fim das contas, talvez Morrison estivesse menos interessado em falar sobre o encerramento da vida do que sobre o instante em que deixamos de reconhecer quem somos. O verdadeiro abismo da música nunca foi a morte.


Sempre foi o encontro inevitável consigo mesmo.



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