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Robert Smith e o disco que ele nunca conseguiu aceitar no The Cure

Mesmo amado pelos fãs, o álbum de estreia da banda carrega uma frustração que moldou toda a sua trajetória

Robert Smith
Crédito: Daniel Boczarski.

Quando Robert Smith chama uma de suas próprias músicas de “decepcionante”, como já fez com “Lovesong”, fica claro que estamos lidando com um artista que nunca se acomodou. Essa postura não é pontual. Ela atravessa toda a relação dele com o The Cure.



Smith sempre foi o tipo de criador que olha para trás com desconfiança, mais interessado no que ainda pode fazer do que no que já foi celebrado. Talvez por isso, mesmo com uma discografia reverenciada, ele nunca hesitou em contrariar a percepção dos fãs.


Essa diferença de perspectiva aparece de forma mais evidente quando o assunto é Three Imaginary Boys (1979). Para muitos, o disco de estreia tem um valor quase mítico: a energia crua, o espírito pós-punk ainda em formação, a sensação de uma banda descobrindo a própria identidade em tempo real. Mas, para Smith, o álbum carrega um peso diferente.


Em entrevista à Rolling Stone, ele foi direto ao ponto ao dizer que aquele era seu trabalho menos favorito dentro do catálogo da banda. E o motivo não está exatamente nas músicas.

Segundo ele, o problema central foi a falta de controle. A produção, a escolha das faixas, a ordem do disco e até a arte de capa foram decisões tomadas sem sua aprovação, sob a condução do produtor Chris Parry.


Para alguém que sempre enxergou o The Cure como uma extensão direta da própria visão artística, isso foi determinante. Ele mesmo resumiu a frustração ao relembrar aquele momento: sentia que estava realizando o sonho de fazer um álbum, mas sem poder decidir nada de fato. A partir dali, tomou uma decisão que mudaria o rumo da banda: garantir que, dali em diante, teriam controle total sobre tudo.


Esse ponto é essencial para entender não só a rejeição ao disco, mas também a identidade que o The Cure construiria nos anos seguintes. A autonomia criativa virou princípio. Não se tratava apenas de estética, mas de propriedade artística. É em parte por isso que a banda manteve uma coerência tão forte ao longo das décadas, mesmo transitando entre fases sonoras bastante distintas.



Curiosamente, quando fala das músicas em si, Smith suaviza um pouco o julgamento. Ele reconhece que muitas foram escritas ainda na adolescência, entre os 16 e 18 anos, o que naturalmente limita a profundidade temática.


Em tom quase irônico, já comentou que faixas como “Boys Don’t Cry” soam ingênuas a ponto de parecerem absurdas. Ainda assim, admite que, considerando sua pouca experiência de vida na época, há momentos ali que funcionam. Não é uma rejeição completa, é mais uma insatisfação com o contexto em que o disco foi feito.


E isso cria um contraste interessante. Para o ouvinte, Three Imaginary Boys pode soar como o início legítimo de tudo, um registro pulsante, direto, cheio de identidade em formação. Para Smith, no entanto, ele representa uma versão incompleta daquilo que o Cure poderia ter sido desde o começo. Não pela falta de talento, mas pela ausência de autonomia.



No fim, talvez essa tensão explique muita coisa. O fato de um artista olhar para seu próprio ponto de partida com desconforto não diminui a obra, pelo contrário, revela o nível de exigência que sustenta o restante da carreira. No caso de Robert Smith, essa inquietação nunca desapareceu. E talvez seja exatamente isso que mantém o The Cure relevante até hoje.


Para quem nunca se satisfaz, até o começo pode parecer um erro.




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