Quando Roger Waters foi embora, David Gilmour precisou descobrir o que ainda era o Pink Floyd
A saída de Waters deixou mais do que uma vaga na banda. Deixou uma pergunta que Gilmour levaria anos para responder

The Final Cut termina e alguma coisa parece ter terminado junto com ele. Não apenas porque o disco de 83 é pesado, amargo e atravessado pela Guerra das Malvinas, pela memória do pai de Roger Waters e por uma Inglaterra que ele observava com crescente desencanto. O próprio funcionamento do Pink Floyd havia mudado. Richard Wright já não estava ali.
As composições eram creditadas a Waters e até a apresentação do álbum deixava escapar o tamanho que ele havia assumido naquele momento: era quase como se estivéssemos diante de um trabalho de Roger Waters interpretado pelo Pink Floyd. David Gilmour ainda estava lá. Sua guitarra também.
Mas o que exatamente significava estar no Pink Floyd naquele momento? Essa pergunta ficou maior quando Waters deixou o grupo em 1985. Para ele, aquela história havia chegado ao fim. Gilmour e Nick Mason enxergaram outra possibilidade. O nome poderia continuar. O problema era descobrir o que ainda existia dentro dele.
Porque Pink Floyd nunca foi uma equação simples. Syd Barrett foi fundamental para que tudo começasse. Waters transformou inquietações em grandes conceitos. Gilmour podia fazer uma guitarra parecer distante quilômetros ou perigosamente próxima. Richard Wright encontrava acordes que deixavam espaço para tudo aquilo respirar. Nick Mason segurava uma pulsação que raramente precisava chamar atenção para existir.
Tire uma dessas peças e alguma coisa muda. Com Waters fora, porém, não desaparecia apenas um baixista. Saía o homem que havia assumido enorme peso na escrita e nos conceitos dos últimos trabalhos da banda. Gilmour poderia continuar tocando guitarra como Gilmour. Poderia continuar cantando como Gilmour. A dificuldade era outra. Como continuar sendo Pink Floyd?
A Momentary Lapse of Reason, de 1987, nasceu no meio dessa pergunta. E gosto de pensar no disco justamente por essa perspectiva. Não como a resposta definitiva de Gilmour a Waters, muito menos como uma tentativa de decidir quem venceu aquela ruptura. Há uma banda procurando a própria forma depois que uma das pessoas responsáveis por defini-la foi embora.
O resultado carrega bastante de seu tempo. Baterias enormes, produção marcada pelos anos 80, músicos externos, sintetizadores ocupando espaços que em outros momentos seriam preenchidos de maneira diferente. É possível discutir eternamente se aquilo possui a mesma força de Wish You Were Here, Animals ou The Dark Side of the Moon.
Só que existe algo quase físico em ouvir “Learning to Fly” dentro daquele contexto. O título parece maior do que a música. A letra trabalha com imagens de voo, território bastante familiar a Gilmour, mas é difícil escutar um Pink Floyd recém-saído de uma ruptura cantando sobre aprender a voar sem enxergar outra coisa acontecendo ali. Eles estavam tentando descobrir se ainda conseguiam sair do chão.
E conseguiram. O sucesso comercial mostrou que havia um público enorme disposto a continuar acompanhando aquela versão do Pink Floyd. Mas vender discos e lotar estádios não respondia completamente à pergunta artística. Uma banda pode continuar existindo no cartaz muito antes de descobrir novamente quem é quando entra no estúdio. É por isso que The Division Bell, sete anos depois, me interessa ainda mais dentro dessa história.
Richard Wright estava novamente envolvido de maneira muito mais significativa. Gilmour, Mason e Wright pareciam outra vez compartilhar espaços dentro das músicas. E é curioso que um disco produzido depois de tantos conflitos tenha acabado atravessado justamente por uma ideia tão simples e tão difícil: comunicação. Depois de tantos anos de gente incapaz de permanecer na mesma sala, conversar virou matéria-prima.
Então aparece “High Hopes”. Aquela música olha para trás sem transformar o passado em decoração. Há nela uma consciência incômoda de que certas épocas ficam maiores dentro da memória justamente porque não conseguimos entrar nelas novamente. Quando a guitarra de Gilmour chega ao final, não precisa vencer discussão nenhuma. Não precisa provar que Waters estava errado.
Não precisa provar sequer que aquele Pink Floyd era melhor. Ela ocupa o espaço. E isso diz mais sobre a distância entre The Final Cut e The Division Bell do que qualquer disputa entre dois homens. Um nasceu quando o Pink Floyd praticamente já não conseguia funcionar como banda. O outro apareceu mais de uma década depois, feito por músicos que precisaram descobrir novamente como dividir uma ideia.
Isso não diminui Roger Waters. Seria impossível contar a história do Pink Floyd dessa maneira. Também não transforma David Gilmour automaticamente no vencedor de uma guerra pelo direito de representar a banda. A história é melhor justamente porque ninguém saiu inteiro dela.
Waters levou consigo uma capacidade extraordinária de transformar política, trauma, guerra, ausência e obsessões pessoais em conceitos gigantescos. Gilmour ficou com um nome carregado de expectativas absurdas e com a responsabilidade de descobrir se aquele nome ainda poderia significar alguma coisa sem o homem que havia dominado seus últimos capítulos.
E há uma frase de Gilmour que ajuda a entender o peso daqueles anos. Ao recordar o período posterior a The Wall e as sessões de The Final Cut, ele não tentou embelezar a memória:
“Todo o período pós-The Wall e o período de The Final Cut são um verdadeiro pesadelo para mim, então tendia a apagar tudo isso dos meus pensamentos.”
É uma declaração dura porque não fala simplesmente de um disco de que ele não gosta. Fala de memória. De querer empurrar uma parte da própria história para algum lugar onde não seja necessário visitá-la o tempo inteiro.
Só que algumas histórias não desaparecem porque decidimos não olhar para elas. Gilmour continuou tocando músicas do Pink Floyd. Waters continuou carregando aquelas canções em seus próprios shows. Wright retornou. O catálogo permaneceu. As discussões também. Décadas depois, ainda há gente tentando decidir de qual lado ficar. Nunca achei essa a pergunta mais interessante.
Coloque The Final Cut para tocar. Depois escute The Division Bell. Volte para Wish You Were Here. Escute Wright entrando em determinados acordes. Mason deixando espaço onde outro baterista colocaria uma virada. A guitarra de Gilmour atravessando “High Hopes”. Depois volte para Waters cantando suas feridas em The Final Cut.
Alguma coisa muda toda vez que uma dessas pessoas entra ou sai da equação. Por isso a pergunta que ficou depois de 1985 nunca foi simplesmente se David Gilmour conseguiria substituir Roger Waters. Ele não conseguiria. Ninguém conseguiria. A pergunta era se o Pink Floyd conseguiria encontrar outra maneira de existir depois dele.
E durante alguns anos, enquanto todo mundo discutia quem tinha direito ao passado, Gilmour, Mason e Wright fizeram uma coisa bem mais difícil: tentaram descobrir o que ainda poderia existir no futuro.
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