Elton John não se despediu sozinho: o público vestiu sua história no Rock in Rio
Aos 79 anos, o músico voltou ao Brasil para um último encontro em que canções, roupas e memórias atravessaram gerações diante do Palco Mundo

Elton John passou boa parte da vida fazendo de tudo para que ninguém conseguisse tirar os olhos dele. Naquela noite, aconteceu o contrário. Bastava olhar para as pessoas ao redor. Havia plumas, paetês, óculos enormes, cristais, cores que provavelmente brigariam entre si em qualquer outro lugar do mundo. O velho uniforme do Los Angeles Dodgers, transformado em 1975 numa das imagens mais reconhecíveis da história do rock, também estava lá. Só que agora não vestia Elton.
Vestia seus fãs. Vestia cada uma que estava ali com o coração aberto e nas mãos. E isso dizia muito sobre o que estava acontecendo no Rock in Rio. Quase uma década havia passado desde a última apresentação do músico no Brasil. A Farewell Yellow Brick Road, encerrada em 2023, não chegou à América Latina por causa dos efeitos da pandemia sobre a programação da turnê. Aos 79 anos e afastado das grandes excursões mundiais, Elton voltou para fazer aquilo que havia ficado faltando: olhar para o público brasileiro mais uma vez.
Era difícil assistir àquela apresentação sem pensar que poderia ser a última. Mas não havia um homem vestido de preto fazendo cerimônia para a própria despedida. Elton apareceu brasileiro até nas cores. Amarelo na alfaiataria, verde nas laterais da calça e nos tênis, azul na camisa e nos enormes óculos. No peito, um medalhão chamava atenção em meio às joias. Poderia parecer excessivo em quase qualquer pessoa.
Nele, parecia tudo aquilo que imaginamos. Quando Elton se sentou ao piano, porém, toda aquela ornamentação perdeu importância por alguns segundos. É uma das contradições mais bonitas de sua carreira: um artista que construiu uma das imagens mais extravagantes da música pop nunca precisou de muito além de um piano para nos lembrar por que ainda estamos nos emocionando. As mãos tocaram as teclas. E décadas começaram a se misturar.
Pais estavam ali com filhos. Pessoas que conheceram Elton quando os discos ainda chegavam às lojas em vinil dividiam espaço com gente que encontrou suas músicas décadas depois. Algumas provavelmente chegaram por O Rei Leão. Outras por um CD dos pais, por um filme, por uma playlist, por “Your Song”, por “Rocket Man”, por qualquer uma das portas que sua música deixou abertas durante quase sessenta anos. Não importa o caminho.
É estranho pensar no tamanho de uma vida quando ela cabe dentro de uma canção de quatro minutos. Você já parou pra pensar nisso? Mais estranho ainda é quando milhares de pessoas têm uma lembrança diferente presa à mesma melodia. Talvez seja por isso que um show como aquele já não pertença completamente ao artista. Elton cantava. O público devolvia em presença.
Durante “Crocodile Rock”, as câmeras começaram a encontrar algumas das pessoas fantasiadas na multidão. Elas apareceram nos telões com seus óculos gigantes, brilhos e referências a diferentes fases da carreira do cantor. E aí surgiu uma das imagens mais bonitas da noite. Elton John já não precisava vestir seu passado. O público estava fazendo isso por ele.
Aquelas roupas haviam saído das fotografias, das capas, dos shows antigos e encontrado outros corpos. O homem que um dia precisou transformar Reginald Kenneth Dwight em Elton John agora podia simplesmente permanecer sentado diante do piano enquanto milhares de pessoas carregavam as versões que ele havia inventado de si mesmo. Não foi pouca coisa.
Antes de Elton John existir, havia um rapaz tímido chamado Reginald, protegido atrás do piano. A extravagância não apareceu apenas porque ele gostava de roupas bonitas. Ela ajudou a fabricar sua coragem. Enquanto outros astros do rock podiam atravessar o palco, requebrar, correr ou fazer da própria masculinidade parte do espetáculo, Elton estava preso — se é que essa palavra cabe — a um instrumento enorme. Então resolveu competir com o próprio piano.
Plumas. Saltos. Lantejoulas. Óculos absurdos. Cores que não pediam permissão umas às outras. Ele chegou a resumir essa relação de maneira maravilhosa: “Eu nunca conseguiria subir ao palco e parecer normal.” Ainda bem. Porque “normal” teria sido um desperdício.
Em 1975, essa liberdade ganhou uma de suas imagens definitivas. Para tocar no Dodger Stadium, em Los Angeles, Elton vestiu um uniforme criado por Bob Mackie a partir das roupas do time local. Só que, obviamente, não poderia ser apenas um uniforme. Vieram os cristais e as lantejoulas. Nas costas, “Elton”. Abaixo, o número 1. Mais de 100 mil pessoas assistiram àquelas apresentações.
Décadas depois, aquele uniforme deixou de pertencer exclusivamente a 1975. Tornou-se um código. Basta alguém colocar aquela combinação de brilho, nome e número nas costas e não precisamos perguntar o que significa. No Rock in Rio, fãs fizeram exatamente isso.
É aí que a roupa deixa de ser fantasia e vira memória.
O próprio Elton já havia revisitado aquela imagem em 2022, quando retornou ao Dodger Stadium durante sua despedida dos grandes palcos. Em vez de simplesmente reproduzir o passado, vestiu uma criação da Gucci coberta por lantejoulas azuis e prateadas, enquanto Bob Mackie recriou o famoso boné.
O jovem que havia chegado ao estádio em 1975 estava, de alguma maneira, olhando para o homem que voltava quase meio século depois. No Brasil, em 2026, a imagem completou outro percurso. Agora estava na plateia. É isso que acontece quando um artista permanece tempo suficiente na vida das pessoas. Na minha vida. Em algum momento, aquilo que era dele começa a ser nosso. Começa a ser meu também.
As músicas também fazem esse caminho. Uma canção deixa de pertencer ao ano em que foi gravada e vai parar num casamento. Em uma separação. Numa viagem de carro. Na falta que certos olhos me fazem. Na sala da casa dos pais. Em alguém que já morreu. Em alguém que acabou de chegar. Elton compôs e gravou durante décadas, mas já não controla onde essas músicas moram. Ninguém controla.
Perto do fim, a despedida que havia ficado pendente finalmente chegou. Elton falou sobre o carinho recebido no Brasil durante a carreira e sobre ter voltado para agradecer. Depois veio “Don't Let the Sun Go Down on Me”. E alguma coisa me levou para muito longe daquele palco. Pensei na escola, nas brincadeiras na rua, numa tarde qualquer na casa dos meus pais vendo TV. Não aconteceu nada extraordinário naquela tarde. Nem sei dizer por que ela ainda está guardada em algum lugar.
A memória tem dessas coisas: passa anos em silêncio e, de repente, uma música encontra a porta. Por alguns segundos, eu não estava pensando na despedida de Elton John. Estava pensando no menino que fui, numa casa que parecia muito maior, nas pessoas que estavam por perto e naquela época em que a gente ainda não sabia que determinadas tardes um dia fariam falta. Então a música continuou. Difícil imaginar escolha mais cruel para aquele momento. Porque o sol estava, de alguma maneira, descendo — sobre o show, sobre uma época e sobre um pedaço da vida que só existe agora quando alguma lembrança resolve voltar.
Não necessariamente sobre Elton John. Sua música já escapou dele há muito tempo. Estava justamente naquelas pessoas diante do palco, nos óculos exagerados, nos uniformes dos Dodgers, nas plumas, nas músicas cantadas por milhares de vozes que carregavam histórias que ele jamais conhecerá. A última nota terminou. Elton deixou o palco. E o público começou a ir embora. Só que havia uma diferença fundamental entre aquela saída e tantas outras despedidas de shows.
As pessoas levavam Elton John consigo. Nos óculos. Nas roupas. Nas canções. Em alguma lembrança que provavelmente ainda vai aparecer muitos anos depois, quando uma música começar a tocar por acaso. Durante quase sessenta anos, Elton John se vestiu para que o mundo olhasse para ele. No Rock in Rio, bastou olhar para o público para perceber o que aconteceu depois de todo esse tempo.
O mundo mudou e como mudou, eu sei, eu lembro, mas naquele momento eu vi o mundo se vestir de Elton John.
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