Por que ainda ouvimos Love Will Tears Us Apart, do Joy Division
- Marcello Almeida
- há 15 horas
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Às vezes, a gente volta pra uma música porque ela sabe de coisas que a gente não consegue dizer. E toda vez que ela toca, é como se abrisse a porta de um quarto que nunca ficou totalmente fechado.

Tem canções que não envelhecem, não porque resistem ao tempo, mas porque carregam dentro delas o tipo de fissura que o tempo nunca consegue curar. Love Will Tear Us Apart é uma dessas. E, por mais que eu tente explicar racionalmente “por que ainda ouvimos” Joy Division em pleno 2025, sempre volto ao mesmo ponto: essa faixa me encontra num lugar que pouca coisa alcança. Não é só nostalgia, não é só culto à melancolia britânica; é uma espécie de espelho torto onde a gente reconhece cicatrizes que prefere esconder.
O Joy Division sempre pareceu uma banda fora do próprio tempo. E talvez justamente por isso seja eterna. Quando Ian Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris aparecem ali no fim dos anos 70, Manchester não é glamour, não é promessa, não é futuro, é tempo úmido, cinza, desemprego e uma juventude que tentava transformar desespero em alguma forma de arte. Ian, especialmente, tinha esse peso silencioso de quem sente demais e cala tudo.
Esse silêncio dele é quase uma assinatura, uma espécie de mantra. Ele escrevia como se estivesse tentando salvar alguma coisa dentro de si, e falhando todos os dias um pouco mais. Quem escreve entende: conhece muito bem esse sentimento, essa tentativa de desnudar a alma e entregá-la ao mundo. Assim era Ian.
“Unknown Pleasures” (1979) foi aquele impacto de primeira pancada: minimalista, frio, mas queimando por dentro.E então vem “Closer” (1980), que sempre me soa como uma despedida involuntária. Um disco já marcado pela deterioração, por um romantismo triste, quase religioso, que Ian carregava sem ter forças pra administrar. Ali, o Joy Division já estava se tornando outra coisa, mais profunda, mais sombria, mais bonita, e mais insuportável pra ele próprio.
Love Will Tear Us Apart, lançada como single, orbita esse período. Ela não pertence totalmente ao Unknown Pleasures, nem ao Closer, fica no meio, como um fantasma entre dois mundos. E talvez por isso doa tanto: porque soa como um último pedido de ajuda que ninguém soube decifrar a tempo. Acho que por isso essa canção bate tão forte, mesmo depois de tanto tempo.

Ela vem sobrevivendo aos efeitos do tempo, e, curiosamente, parece cada vez mais atual, como se dissesse mais sobre a nossa atualidade do que sobre o período em que surgiu. Talvez esse seja o segredo: ela não pertence a tempo algum. Ela pertence ao momento em que você aperta o play ou coloca o vinil/CD para rodar e sente, na pele e na alma, o que ela quer nos dizer, nos alertar. Ian era um devorador de livros; consumia histórias e conseguia entrelaçar todo esse conhecimento com sua própria vivência.
E quando a gente mergulha no contexto da vida de Ian naquele momento, tudo ganha uma nitidez devastadora. Ele estava no colapso do casamento, dividido entre amor, culpa, ausência e a deterioração provocada pela epilepsia, uma doença que não só o destruía fisicamente, mas também corroía seus espaços afetivos mais íntimos. Love Will Tear Us Apart nasce desse terremoto interno. E cada verso parece escrito como quem tenta registrar um relacionamento que já escorrega pelas próprias mãos.
“When routine bites hard / And ambitions are low / And resentment rides high / But emotions won't grow”. A tradução é direta, mas o impacto vai além: quando a rotina vira uma lâmina, quando a vida encolhe, quando o ressentimento dobra de tamanho e o sentimento evapora… não existe banda, fama, nem futuro que dê conta de segurar. Ian estava descrevendo sua própria casa, sua própria pele.
E então ele pergunta: “Why is the bedroom so cold? / You've turned away on your side”. Não é só um quarto frio, é a distância que se instala no lugar onde antes havia encontro. É a ausência de toque. É o silêncio que pesa mais que qualquer briga. Depois, vem a parte mais dolorosa: “You cry out in your sleep / All my failings exposed”. É Ian admitindo suas falhas, fragilidades e arrependimentos. Aquele momento em que você percebe que feriu alguém sem querer, e não sabe mais como remendar o que foi destruído. Ele sabia que estava falhando como marido, como presença, como porto seguro. E isso o devastava. “Just that something so good / Just can't function no more”.
Esse verso poderia ser a síntese de todo o fim de relacionamento do mundo. Aquela constatação amarga: às vezes, o amor é enorme, mas não funciona mais. E isso basta para quebrar dois corações ao mesmo tempo.
A primeira vez que ouvi essa música com atenção, não aquela audição distraída, mas a verdadeira, onde você está vulnerável demais para se proteger, entendi por que ela continua viva. Há uma frieza nos sintetizadores, um distanciamento quase mecânico na voz de Ian, mas, ao mesmo tempo, existe ali um desespero que jamais se esconde. É como se ele cantasse do fundo de um quarto onde o amor já não se reconhece. Um lugar onde duas pessoas ainda se tocam, mas não se encontram mais. Estranho isso. ‘Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?’
E é aqui que entra a minha relação pessoal com a faixa. Porque Love Will Tear Us Apart fala desse momento exato em que você percebe que amar não é suficiente, e isso dói mais do que qualquer término. Eu sempre volto a essa música quando alguma coisa dentro de mim não sabe nomear o que está sentindo. Talvez por isso ela toque tão fundo: ela dá forma ao indizível. Ela não consola. Ela expõe.
“Por que ainda ouvimos?”, você me pergunta. Porque ainda somos feitos desse mesmo conflito: a vontade de ficar e a incapacidade de permanecer inteiro dentro do amor. Porque ainda tem dias em que a gente percebe que o mundo externo é mais simples do que aquilo que acontece dentro de um relacionamento desgastado. Porque ainda tem noites em que a gente entende Ian: o amor não é inimigo, mas o tempo dentro do amor às vezes é. E porque existe algo de universal nessa constatação brutal: o amor também quebra, e quando quebra, parte exatamente no lugar onde deveria caber algum tipo de eternidade.
O Joy Division se tornou imenso, não só pela estética, não só pela tragédia, não só pelo mito, mas pelo fato de que a banda colocou palavras e sons onde quase ninguém tinha coragem de tocar. E Love Will Tear Us Apart é o ponto mais alto dessa coragem triste. A cicatriz mais famosa de uma alma que já não conseguia mais lidar consigo.
Reescuto essa música porque ela me lembra que a arte não serve para curar, serve para acompanhar. Serve pra estar do nosso lado quando a gente ainda não sabe como caminhar. Ian Curtis, sem saber, escreveu uma das canções mais humanas já feitas. Não humanas no sentido romântico, humanas no sentido falho, vulnerável, fraturado.
E talvez, no fundo, seja isso: a gente ainda ouve porque não superou. Porque ninguém supera completamente aquilo que vive tão perto do limite.
E sempre que essa música volta, parece que ela nos diz baixinho:“Eu sei. Eu também senti.”











