Por que ainda ouvimos “Giz”, da Legião Urbana
Mais de três décadas depois, uma das canções mais delicadas da banda continua falando sobre aquilo que o tempo leva, aquilo que fica e as pessoas que seguimos carregando conosco

Eu já vivi amores que duraram anos. Outros ocuparam um espaço bem menor no calendário. E uma coisa que o tempo me ensinou é que essa conta não significa muita coisa quando entramos no território da memória.
Dez anos podem deixar uma vida inteira espalhada pela casa, pelos hábitos, pelas músicas, pelos lugares. Alguns meses também podem deixar uma marca difícil de explicar. Não existe uma matemática muito confiável para isso. Algumas pessoas passam muito tempo conosco e, depois, tornam-se uma lembrança distante. Outras ficam pouco e continuam aparecendo quando menos esperamos.
Uma rua. Um filme. Um perfume. Uma frase que você percebe que começou a usar por causa de alguém. Uma música tocando no lugar errado, na hora errada. É curioso como a vida vai guardando essas pequenas coisas sem pedir nossa autorização. Penso nisso quando ouço “Giz”.
Não necessariamente em uma pessoa. Penso em várias versões de mim mesmo. Em quem eu era quando determinadas pessoas estavam ao meu lado. No que aprendi, no que perdi, no que ficou. Porque, depois de algum tempo, lembrar de um amor antigo também é lembrar de quem nós éramos quando aquele amor existia. E isso muda tudo.
Há uma diferença enorme entre sentir falta de alguém e reconhecer que aquela pessoa ainda ocupa algum lugar na sua história. A vida segue. Novos afetos aparecem. Outras preocupações tomam conta dos dias. Você trabalha, conhece gente, muda de cidade, envelhece, se apaixona novamente. Só que algumas coisas não obedecem completamente a essa ideia organizada de seguir em frente.
Elas ficam. “Giz” apareceu em O Descobrimento do Brasil, disco lançado pela Legião Urbana em 1993. Mais de três décadas se passaram desde então. E há algo muito bonito no fato de uma composição tão antiga continuar encontrando pessoas em momentos completamente diferentes da vida.
Quando somos mais novos, amor parece sempre estar ligado ao agora. Queremos estar perto, queremos que dê certo, queremos respostas. Depois, começamos a conhecer outra parte dele: aquilo que permanece quando já não há mais nada para resolver. É aí que essa música cresce.
Não sinto nela aquela necessidade desesperada de reconstruir uma relação. O que me pega é justamente o contrário. Há uma espécie de aceitação incompleta. A pessoa não está mais ali, a vida aparentemente encontrou seu curso, mas alguma coisa continua existindo.
Não como antes. Também não desapareceu. E talvez... não. Nem “talvez”. A vida é assim mesmo. A gente carrega pessoas. Algumas permanecem no jeito como enxergamos o mundo. Outras aparecem em nossas escolhas, nos medos que adquirimos, nos limites que aprendemos a colocar. Tem gente que deixou músicas. Tem gente que deixou lugares.
Algumas deixaram cicatrizes. Outras deixaram coisas boas que demoramos anos para perceber. Nem tudo o que termina precisa ser apagado. Há uma imagem nessa composição que sempre me pareceu maior do que qualquer explicação que se possa dar sobre ela: “Eu rabisco o sol que a chuva apagou.”
É uma frase simples. Só que quanto mais a vida acontece, mais difícil ela fica. Porque fazemos isso o tempo inteiro. Tentamos desenhar novamente alguma coisa que já passou. Não necessariamente para recuperá-la. Nem sempre queremos voltar. Às vezes sabemos perfeitamente por que uma história terminou e não mudaríamos essa decisão.
Ainda assim, voltamos até ela por alguns segundos. Pegamos uma lembrança e reconstruímos uma tarde, uma conversa, uma viagem, uma pessoa. O sol já não está lá. A chuva passou. Mesmo assim, a memória rabisca outra vez. E acho bonito que seja justamente giz. Não pedra, não tinta, não alguma coisa feita para permanecer. Giz.
Algo que deixa uma marca e que também pode desaparecer. Durante muito tempo, quando falávamos de relações que terminaram, parecia existir uma obrigação de apagar. Esquecer fotografias, esquecer lugares, esquecer pessoas, como se superar significasse eliminar qualquer vestígio daquilo que vivemos.
Hoje não penso assim. Alguns amores fizeram parte de quem eu me tornei. Isso não significa querer essas pessoas novamente na minha vida da maneira como estiveram um dia. Significa apenas reconhecer o óbvio: eu estava lá. Aquilo aconteceu comigo. Houve felicidade, houve conflito, houve desejo, houve planos, houve despedidas. E alguma coisa daquela experiência veio comigo.
Não precisa existir ressentimento. Também não precisa existir romantização. Só memória. É por isso que algumas músicas mudam conforme nós envelhecemos. A gravação continua exatamente igual. Nós é que já não somos os mesmos.
Em 93, alguém podia ouvir “Giz” pensando numa paixão. Em 2026, essa mesma pessoa pode escutá-la lembrando de alguém com quem dividiu uma década da vida. Outra pode pensar num relacionamento de poucos meses que deixou uma marca inesperada. Outra não pensará em amor nenhum. Vai lembrar de uma casa, de uma cidade, dos pais, da juventude ou de uma versão de si mesma que simplesmente deixou de existir.
A música permite tudo isso porque não tenta organizar o sentimento. A vida também não organiza. Mais de trinta anos depois, aquelas palavras continuam andando conosco porque cresceram junto com quem as ouviu. Aos poucos, deixaram de pertencer apenas à Legião Urbana e passaram a ocupar histórias que Renato Russo jamais conheceu. As nossas.
No fim, talvez seja isso que o tempo faça de mais estranho: ele apaga muita coisa, mas nunca apaga exatamente como gostaríamos. Alguns traços permanecem. E, de vez em quando, sem qualquer aviso, a gente pega um pedaço de giz e desenha o sol outra vez.
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