“One Man’s Fool”: o Genesis olhou para o terrorismo e fez uma pergunta que continua sem resposta
Escondida no último álbum de estúdio do Genesis com material inédito, a faixa nasceu do atentado de Manchester de 1996 e acabou carregando uma inquietação que sobreviveria ao próprio contexto em que foi escrita

Calling All Stations carrega uma fama difícil de desmontar. É o disco do Genesis sem Phil Collins, o álbum de Ray Wilson, a tentativa de Tony Banks e Mike Rutherford de descobrir se ainda existia uma banda depois da saída de um sujeito que, a essa altura, já tinha se tornado uma das figuras mais reconhecíveis da música pop.
Foi lançado em 1997, vendeu muito menos que seus antecessores em mercados importantes e acabou ocupando aquele lugar ingrato reservado aos discos que a própria história parece empurrar para um canto.
Só que discos mal amados também guardam coisas que o tempo demora para encontrar. No fim de Calling All Stations, depois de quase uma hora de um Genesis tentando entender a própria identidade, aparece “One Man’s Fool”. São quase nove minutos. Ray Wilson canta, Mike Rutherford toca guitarra e baixo, Tony Banks ocupa o espaço com seus teclados, e a música vai crescendo sem a urgência de provar que aquele ainda era o Genesis de “Invisible Touch”, “Mama” ou “Land of Confusion”. Não era. E talvez o maior erro daquele período tenha sido esperar que fosse.
A letra, escrita por Banks, parte de uma imagem brutal: prédios desabando, fumaça e poeira subindo, gente olhando para a destruição enquanto, em algum lugar, alguém acredita ter motivos para sentir orgulho daquilo. Isso não nasceu de uma abstração.
Em 15 de junho de 1996, um caminhão-bomba explodiu no centro de Manchester. O IRA assumiria a responsabilidade pelo atentado. Mais de 200 pessoas ficaram feridas, muitas atingidas por estilhaços de vidro, mas ninguém morreu porque uma enorme operação de evacuação havia sido iniciada depois de avisos codificados. O centro da cidade ficou devastado.
Banks viu aquilo e ficou preso a uma pergunta que é muito mais difícil do que discutir política, território ou estratégia militar: o que acontece dentro de alguém para que a destruição de outras vidas passe a parecer aceitável?
É essa pergunta que me deixa atordoado em “One Man’s Fool”. Porque a música não tenta entrar na cabeça do terrorista para torná-lo interessante. Também não procura uma frase confortável que organize o horror. Banks olha para os escombros e para a satisfação de quem acredita ter cumprido alguma missão e encontra um abismo moral. O sujeito que aperta o botão provavelmente tem uma justificativa. Tem uma causa. Tem uma história que conta para si mesmo. E é justamente aí que a coisa fica assustadora.
Quase ninguém se enxerga como monstro. As pessoas aprendem a chamar violência de necessidade, crueldade de justiça, morte de consequência inevitável. Encontram palavras capazes de limpar o sangue antes mesmo que ele seque. E, quando isso acontece, qualquer atrocidade pode ganhar uma explicação elegante o bastante para caber num discurso.
“One Man’s Fool” foi escrita olhando para Manchester, mas não ficou presa a Manchester.
Anos depois, Tony Banks percebeu uma coisa perturbadora. Se alguém escutasse aquela letra depois de 11 de setembro de 2001 sem conhecer sua origem, poderia facilmente imaginar que ele estava escrevendo sobre as Torres Gêmeas. Não estava. A canção já existia havia anos.
Em 2025, Banks voltou ao assunto e disse que a primeira metade da faixa, centrada em terrorismo e bombas, continuava lhe parecendo especialmente forte justamente por soar como se tivesse sido escrita depois do 11 de Setembro. Isso não faz da canção uma profecia. Faz dela algo mais triste.
Mostra o quanto somos capazes de repetir as mesmas imagens. Prédios caem. Pessoas correm. Há fumaça, sirenes, sangue, fotografias, discursos, bandeiras, justificativas. Mudam a cidade, o idioma, a religião, o grupo, a causa. A pergunta permanece praticamente intacta: em que momento alguém decide que pessoas que nunca conheceu podem morrer para que uma ideia sobreviva?
Banks não encontrou uma resposta em 1996. Nós também não encontramos. E existe uma ironia amarga no lugar que essa música ocupa dentro da história do Genesis. A faixa está escondida justamente num álbum que durante anos foi tratado quase como nota de rodapé. Calling All Stations não deu ao Genesis uma nova vida. Ray Wilson ficou pouco tempo. A experiência não produziu uma segunda era duradoura para a banda. O disco se tornou uma espécie de quarto pouco visitado numa casa enorme.
Mas entre as coisas deixadas naquele quarto estava essa música. Banks afirmou que sempre teve orgulho da letra e lamentou que, por causa da recepção do disco, ela acabasse se perdendo um pouco. Ele tinha razão. Porque ouvir “One Man’s Fool” hoje provoca uma sensação estranha. Não pela produção de 1997, nem pela discussão interminável sobre quem poderia ou não substituir Phil Collins. Isso tudo fica pequeno quando a letra começa a mostrar gente contemplando destruição e acreditando que aquilo valeu a pena.
A música envelheceu. O problema, não. E isso incomoda. Vivemos cercados por maneiras cada vez mais eficientes de deixar de enxergar o outro como pessoa. Às vezes basta uma nacionalidade. Uma religião. Uma ideologia. Uma fronteira. Uma cor. Uma bandeira. Um lado. Quando alguém vira apenas “o outro”, fica muito mais fácil aceitar o sofrimento que jamais aceitaríamos para alguém sentado à nossa mesa.
É assim que a humanidade vai secando sem perceber. Talvez Tony estivesse tentando entender terroristas quando escreveu “One Man’s Fool”. O que ficou gravado, porém, alcança uma pergunta bem mais próxima de nós: quanto da nossa humanidade estamos dispostos a entregar para continuar acreditando que o nosso lado está certo? Calling All Stations pode continuar sendo o disco que muita gente pula quando percorre a discografia do Genesis.
Tudo bem.
Mas “One Man’s Fool” merece que alguém volte até lá, apague um pouco o ruído em torno daquele período e escute o que Tony Banks estava tentando dizer. Porque quase trinta anos depois, os prédios continuam caindo. E ainda existe alguém, em algum lugar, olhando para a fumaça e achando que venceu.
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