Nevermind aos 35: o disco que ainda escapa das próprias explicações
Lançado em 24 de setembro de 91, o segundo álbum do Nirvana virou símbolo de uma geração, mas sua força continua justamente naquilo que nunca foi totalmente explicado

Falar de Nevermind 35 anos depois é entrar num território conhecido. Já se escreveu sobre Seattle, sobre o grunge, sobre o impacto de “Smells Like Teen Spirit”, sobre a ascensão meteórica do Nirvana e sobre como o disco ajudou a reorganizar o rock no início dos anos 90. Tudo isso faz parte de sua história. O problema é que, de tão repetida, essa narrativa às vezes encobre o próprio álbum.
Talvez o melhor exercício hoje seja simplesmente voltar às músicas. Quando Nevermind começa, o que aparece antes de qualquer contexto histórico é um disco extremamente eficiente em capturar atenção de seus ouvintes. As guitarras são pesadas, mas as melodias são diretas. Os refrões ficam rodando ali na cabeça. A bateria de Dave Grohl empurra as canções com uma força quase física. Kurt Cobain, por sua vez, escreve músicas que parecem convidar o ouvinte para perto enquanto suas letras fazem o movimento contrário.
Essa contradição é uma das grandes forças do álbum. Nevermind é acessível sem ser confortável. Suas músicas podem ser cantadas por multidões, mas dificilmente se deixam reduzir a uma única interpretação. “Come as You Are”, “Lithium”, “In Bloom” e “Drain You” funcionam imediatamente como canções pop, mesmo cercadas por distorção, ruído, sarcasmo e imagens quebradas.
É justamente aí que o disco se torna muito mais interessante. Durante muito tempo, ele foi tratado como a vitória do rock alternativo sobre o mainstream. Mas existe outra maneira de enxergar essa história toda. A obra não venceu a música pop. Ele compreendeu muito bem como ela funcionava na época. Cobain tinha um senso melódico afiado, e a produção de Butch Vig ajudou a transformar essa característica em algo impossível de ignorar. As músicas tinham peso suficiente para manter a identidade da banda e refrões grandes o bastante para atravessar as fronteiras da cena alternativa.
“In Bloom” talvez resuma essa contradição melhor do que qualquer outra faixa. A música descreve alguém que gosta das canções e canta junto sem necessariamente entender o que elas querem dizer. Pouco depois, milhões de pessoas fariam exatamente isso com o Nirvana. Não se trata de transformar a faixa numa profecia, mas de perceber como Nevermind já carregava certa desconfiança em relação à própria ideia de sucesso. Kurt era um gênio fora do seu tempo.
E o sucesso veio numa escala difícil de imaginar. O disco deixou de pertencer apenas à banda. A capa virou uma das imagens mais conhecidas da música pop, “Smells Like Teen Spirit” ganhou vida própria e Cobain passou a carregar expectativas que ultrapassavam qualquer composição. Aos poucos, as músicas foram cercadas por interpretações, mitos e explicações.
Talvez por isso seja interessante ouvi-las novamente sem toda essa bagagem. “Breed” continua agressiva. “Lithium” ainda funciona pela tensão entre contenção e explosão. “Drain You” mantém aquela mistura estranha de beleza e desconforto. “Something in the Way”, no encerramento, reduz tudo a um espaço quase íntimo, como se o disco terminasse procurando um silêncio depois de passar quase 40 minutos crescendo diante do mundo.
Aos 35 anos, Nevermind não precisa mais provar sua importância. É um dos grandes clássicos dos anos 90 e um dos discos mais reconhecíveis de sua geração. O que ainda merece atenção é outra coisa: apesar de décadas de análises, listas, documentários e celebrações, ele continua carregando algo difícil de organizar completamente.
Talvez seja essa sua maior vitória. O mundo transformou Nevermind em monumento, mas as músicas ainda conseguem soar humanas, contraditórias e, em alguns momentos, desconfortavelmente vivas.
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