Nem Nirvana: para o Sonic Youth, quem definiu os anos 90 foi o Pavement
- Marcello Almeida
- há 22 horas
- 2 min de leitura
Lee Ranaldo aponta Slanted and Enchanted como o disco que melhor capturou o espírito caótico da década

O rock dos anos 90 parecia uma feira aberta de ideias. De um lado, o peso emocional do grunge em Seattle; de outro, o espírito DIY do Riot Grrrl, o pop britânico do Britpop e até os excessos do nu-metal. Era um período em que tudo coexistia, às vezes em conflito, às vezes em sobreposição. E, no meio disso, o Sonic Youth seguiu como sempre fez: sem se prender a nada.
Para uma banda nascida da no wave nova-iorquina, os anos 90 foram quase um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o grupo finalmente alcançava um público mais amplo com discos como Goo, ainda havia uma sensação clara de que eles não estavam interessados em agradar ninguém. A lógica sempre foi outra. Desde os primeiros passos sob a influência de Glenn Branca, a música vinha antes de qualquer expectativa externa.
Essa posição acabou colocando a banda em um lugar curioso dentro da cena alternativa. Eles estavam ali, no centro, mas nunca completamente integrados. Ainda assim, sua presença era sentida em todo lugar. Kurt Cobain era abertamente fã, e Kathleen Hanna chegou a cruzar caminhos com eles em momentos emblemáticos. Era como se o Sonic Youth fosse uma espécie de eixo invisível daquela década.
Mas, para Lee Ranaldo, havia uma banda que capturava melhor do que qualquer outra o espírito daquele período: o Pavement. Falando sobre seus discos favoritos, ele foi direto:
“Pra mim, o Pavement foi a minha banda favorita dos anos 90. Eles representaram melhor a década do que o Nirvana ou qualquer outra, porque eram meio desleixados, misturavam tudo o que veio antes — tinha Sonic Youth ali, tinha grunge, tinha de tudo.”

O ponto de virada, nesse caso, atende pelo nome de Slanted and Enchanted, lançado em 1992. Um disco que soa quase improvisado, mas nunca vazio. Desorganizado na superfície, mas cheio de intenção por baixo. A estética da imperfeição como linguagem.
Ranaldo vai além da música em si. Para ele, o que o Pavement fazia era quase um gesto artístico contínuo.
“O Stephen Malkmus tinha uma escrita muito literária, e a banda era incrível, mesmo funcionando de um jeito meio caótico. Eles quase não ensaiavam, as músicas nasciam meio no improviso, mas aquilo tudo me inspirava mais do que qualquer outra coisa na época.”
Talvez seja isso que conecta as duas bandas de forma tão natural. Não é uma questão de som, exatamente. É uma questão de postura. De entender que o rock não precisa ser perfeito, nem definitivo. Ele pode ser instável, fragmentado, até meio torto, desde que seja verdadeiro.
E, olhando para trás, faz sentido. Em uma década obcecada por rótulos, quem melhor representaria tudo do que uma banda que nunca coube em nenhum?
No fim, o som dos anos 90 talvez não tenha sido o mais alto, mas o mais livre.
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