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Matrix: o filme que reinventou o cinema e antecipou o nosso colapso digital

Alguns filmes não preveem o futuro. Eles apenas escancaram o que já estava começando a nos destruir

Matrix 1999
Imagem: Reprodução

Você já deve ter sentido ao menos uma vez na vida aquela sensação de tentar acordar de um sonho que não escolheu sonhar...


Em 1999, quando Matrix estreou, ninguém sabia exatamente o que tinha acabado de acontecer. Era mais do que um blockbuster estiloso, mais do que ficção científica, mais do que uma nova mitologia cyberpunk. O filme das irmãs Wachowski se infiltrou no cinema como um vírus, alterando linguagem, estética, narrativa e filosofia de uma só vez, e, ao mesmo tempo, entregando uma profecia inquietante sobre o que se tornaria o século XXI. Uma espécie de OK Computer do cinema. Mais de vinte anos se passaram, e a sensação é que Matrix não envelheceu, fomos nós que envelhecemos dentro dele.



O impacto cinematográfico é inegável. O bullet time redefiniu a noção de movimento, o design de produção redefiniu o gosto do mainstream, o CGI redefiniu o espetáculo visual e o figurino preto, minimalista, elegante, virou uma espécie de uniforme emocional da virada do milênio. Até a forma de coreografar ação mudou depois de Matrix: Hollywood nunca mais filmou lutas da mesma maneira. Mas o ponto não é só estético; é ontológico. O filme não apenas revolucionou a forma de fazer cinema, ele mudou a forma de olhar para a realidade.


Esse foi o truque das Wachowski: usar ação, filosofia e simbolismo como se fossem camadas de um mesmo código. A caverna de Platão está ali, reconfigurada para a era digital; Baudrillard está ali, com o simulacro substituindo a vida; o mito do herói está ali, mas torcido, esvaziado, quase exausto. Matrix é um filme sobre acordar, mas também sobre o desespero de perceber que o despertar não vai te garantir liberdade. A verdade soa sempre com esse peso. A consciência não mede esforços em cobrar. Não existe retorno depois de ver o mundo nu, sujo, desumanizado. Ou será que existe? Já parou para pensar nisso? Pois é.


O que ninguém percebeu na época, mas que hoje se torna impossível ignorar, é que Matrix antecipou o século XXI com uma precisão um tanto devastadora. A sensação de estar preso a uma rotina que não faz sentido; a vida laboral como uma prisão silenciosa, um cubículo sem janelas. A sensação de que estamos sempre cansados, sempre desligados, sempre funcionando no automático. Que saco! O mundo hiperconectado que prometia liberdade, mas se tornou uma extensão do controle. A tecnologia que prometia humanizar, mas começou a nos vigiar. O trabalho que prometia realização, mas entrega exaustão.


Era tudo parte da ficção. Agora é cotidiano.



E quando falamos em colapso digital, não estamos falando de apocalipse tecnológico, mas de algo muito mais íntimo: a sensação de não saber mais distinguir o que é real do que é fabricado. Um mundo gerado por ferramentas de IA. O bombardeio de informações. As verdades frágeis. O domínio dos algoritmos. O feed infinito que molda percepções. A dependência emocional de notificações. A superficialidade do debate público. O niilismo moderno que virou linguagem dominante da internet. O deepfake que já confunde rostos e vozes. A inteligência artificial que simula proximidade e desfaz identidades.


Não é loucura, é nossa realidade. Um dia desses, li em algum lugar que as pessoas estão usando chatbots como se fossem psicólogos, pedindo orientações, conselhos e etc. Ou tudo isso pode até parecer um episódio de Black Mirror. Somos uma sociedade que usa óculos escuros para se proteger da própria luminosidade, não por estilo, por autodefesa.


É por isso que Matrix parece mais atual hoje do que no dia em que chegou ao cinema. Ele entendeu antes de todo mundo que a tecnologia não seria uma ameaça externa, mas interna. Que o perigo não era a máquina, mas o nosso esvaziamento, a nossa fragilidade e dependência. Que a desconexão emocional seria maior do que qualquer guerra digital. Que a realidade, quando atravessada por algoritmos, se tornaria uma disputa moral, estética e psicológica. Não existe mais “o mundo lá fora”. Existem versões. Camadas. Filtros. Máscaras. Simulacros.



E quando você olha para Neo, não vê mais um jovem escolhido. Vê alguém tentando acordar em uma época que faz de tudo para mantê-lo dormindo. Vê alguém que precisa duvidar do próprio cotidiano para encontrar algum sentido. Vê o medo de se libertar e a culpa de se conformar. Vê o mesmo conflito que nos atravessa hoje: a sensação de que algo está errado, mas não sabemos exatamente o quê.


Talvez seja essa a grande força e triunfo de Matrix: ele nunca foi um filme sobre máquinas dominando humanos. Foi sempre sobre humanos que, aos poucos, deixaram de dominar a si mesmos. E no fim das contas, a pergunta continua a mesma — tão urgente quanto em 99, tão incômoda quanto na primeira vez que ouvimos Morpheus falar: o que você faz quando percebe que a realidade que vive não é exatamente sua?


Porque, no fundo, a gente sabe: despertar dói, mas continuar dormindo custa muito mais caro.



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