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Kurt Cobain e a ética feroz que fez do Nirvana mais que uma banda

Algumas vozes queimam mais alto que qualquer amplificador

Kurt Cobain
Imagem: Reprodução

Sempre que volto ao Nirvana, não é apenas a guitarra que me atravessa. Há algo mais subterrâneo, mais humano, que sempre me chamou a atenção: a postura ética de Kurt Cobain. Antes de ser rockstar, antes do ícone dilacerado do grunge, havia um sujeito que simplesmente não aceitava o mundo como ele era. A homofobia, o machismo, o racismo — tudo aquilo que o rock muitas vezes varria para debaixo do tapete, Kurt colocava no centro da conversa. E fazia isso com uma franqueza que, pra mim, sempre foi mais forte que qualquer pedal de distorção. Isso aparecia nas letras, nas entrevistas, nos encartes dos discos e na atitude em palco; era impossível separar o artista da ética que guiava cada gesto.



Esse incômodo atravessava as canções de maneira explícita. “Been a Son” já denunciava, com ironia feroz, o machismo estrutural que desvaloriza meninas desde o nascimento. “Polly” e “Rape Me” desmontavam a cultura do estupro, não para chocar pelo choque, mas para forçar o ouvinte a encarar violências que a sociedade insiste em normalizar. “Territorial Pissings” abria turnês com um manifesto quase irônico à fraternidade, lembrando que o rock não precisava ser território de intolerância. “All Apologies”, por sua vez, revelava o desconforto de quem percebia que o mundo escolhe sempre os mesmos para ferir. Nada disso era acaso. Era o reflexo de alguém que via a música como modo de expor rachaduras sociais.


Essa postura ficava ainda mais evidente fora do repertório. Em 1993, Cobain deu uma entrevista para a revista The Advocate, voltada ao público LGBT, onde contou que pichava “God is gay” em carros na cidade natal e afirmou que muitas vezes desejou ser gay só para irritar homofóbicos. Dizia também que, sendo heterossexual, isso pouco importava, que as pessoas não deveriam precisar se justificar por quem são. Essa posição reaparece de forma ainda mais incisiva nos encartes de Incesticide e In Utero, onde o Nirvana deixa registrado: “Se você odeia gays, pessoas de outras cores ou mulheres, não compre nossos discos e não venha aos nossos shows.” Poucas bandas mainstream dos anos 90 colocaram isso no papel de maneira tão direta, tão inequívoca. Esse tipo de posicionamento não era marketing; era desconforto transformado em atitude.


Foto de Joe Giron/Corbis
Foto de Joe Giron/Corbis

O feminismo de Kurt também nunca soou decorativo. Ele falava sobre sua adolescência cercado de meninas e de como percebia injustiças que muitos fingiam não ver. Em entrevistas, criticava a lógica que tenta ensinar mulheres a se defender, enquanto ninguém se dedica a ensinar homens a não estuprar, uma crítica duríssima à cultura do estupro que, mesmo hoje, ainda seria considerada corajosa. Esse olhar sensível não fazia de Cobain um herói perfeito, mas mostrava alguém consciente do próprio lugar no mundo e disposto a se posicionar, mesmo quando isso significava perder fãs.


O episódio que mais sintetiza essa ética aconteceu em 1992, na Argentina. O Nirvana levou como banda de abertura a Calamity Jane, grupo punk formado apenas por mulheres de Portland. O público local, tomado por misoginia crua, não só vaiou como jogou objetos e humilhou as meninas até que elas saíssem chorando do palco. Aquilo devastou Kurt. Há relatos de que ele queria cancelar o show inteiro e até se ferir, impulso que só quem conhece o histórico emocional dele entende. Kris Novoselic precisou conversar, acalmar, puxar de volta. E foi ali que surgiu a resposta que só o Nirvana poderia dar: transformar indignação em protesto artístico.



A banda subiu ao palco decidida a sabotar o próprio show. O setlist foi quase todo composto por lados B de Incesticide, contrariando as expectativas de quem queria apenas os hits. “Come As You Are”, uma das músicas mais populares, apareceu com a introdução completamente detonada, uma sequência irritante e dissonante de ruídos. Em “Polly”, Dave Grohl tocou uma bateria de brinquedo, reduzindo a música a uma performance deliberadamente infantilizada — um espelho perfeito para o comportamento do público que havia acabado de expulsar mulheres chorando do palco. Nada ali era acidental. Era um protesto calculado, feroz, silenciosamente devastador. Era ética em forma de som.


Essa coerência se repetiu em outras frentes. Em 1992, o Nirvana se uniu à campanha “No on 9”, contra uma medida no Oregon que buscava retirar proteções legais de pessoas LGBT. Assinaram manifestações públicas, tocaram em show beneficente e enfrentaram o risco real de perder parte da base de fãs. Também recusavam turnês com bandas cujas atitudes fossem abertamente misóginas ou homofóbicas. A rivalidade com Axl Rose, muitas vezes reduzida a fofoca, tinha fundo político. Kurt simplesmente não queria dividir palco com alguém que representava justamente aquilo que ele combatia.



Por tudo isso, veículos como BBC e Washington Post lembram Kurt Cobain como um dos ícones de inclusão mais importantes do rock mainstream. Ele não falava da margem, falava do centro, no auge da fama, quando cada palavra repercutia. E talvez seja isso que mais me toca quando revisito sua história: no meio de um gênero marcado por masculinidade tóxica e atitudes vazias disfarçadas de rebeldia, ele abriu espaço para outra forma de existir.



Tornou aceitável, para uma geração inteira de garotos jovens, apoiar feminismo, defender direitos LGBT, questionar estruturas violentas. Mostrou que rebeldia de verdade não é performar descontrole, é se posicionar quando ninguém quer.


Revisitar o Nirvana por esse ângulo é lembrar que o rock não nasce apenas da distorção, mas de ética. E que algumas vozes continuam queimando, mesmo depois que o barulho termina.

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