Há 35 anos, o Guns N’ Roses lançava dois discos de uma vez e levava o rock ao limite
Em 1991, antes que a música coubesse no bolso e o mundo inteiro estivesse a um toque de distância, o Guns N’ Roses colocou dois discos nas lojas e fez do excesso um acontecimento

Para entender o tamanho daquela noite, é preciso lembrar de uma coisa que o tempo tratou de apagar: música ainda pesava. Pesava no bolso, na mochila, na estante. Tinha plástico envolvendo a capa, cheiro de encarte novo, lado A, lado B, fita rebobinando dentro do toca-fitas. Um disco não aparecia silenciosamente numa tela à meia-noite. Era preciso sair de casa, encontrar uma loja, esperar, comprar, voltar carregando aquilo nas mãos.
Na madrugada de 17 de setembro de 91, mais de mil lojas de discos abriram nos Estados Unidos à 0h01 para vender Use Your Illusion I e Use Your Illusion II. Em Los Angeles, centenas de pessoas esperaram diante da Tower Records da Sunset Strip. Eu era criança naquele 91 e não tinha dimensão do que estava acontecendo. Foi anos depois, já mergulhado na música, que comecei a entender o peso daquele lançamento e, sobretudo, daquele ano.
É difícil imaginar uma cena dessas hoje sem que ela pareça pertencer a outro planeta. Ninguém ali tinha ouvido o disco inteiro vazado dias antes. Não havia uma sequência de quinze segundos circulando no celular, reação no YouTube, ranking instantâneo, algoritmo oferecendo a próxima faixa antes mesmo que a anterior terminasse. Havia curiosidade. E havia espera. Uma espera física, quase nervosa.
E me bate aquela saudade de tudo aquilo que eu não vivi. Ou, como cantava Renato Russo em “Índios”: “Essa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi.”
Então o Guns entregou dois discos. Não uma edição deluxe, não sobras de estúdio colocadas como bônus, não um pacote pensado para alimentar plataformas. Eram dois álbuns completos lançados no mesmo dia: 30 músicas e mais de duas horas e meia de uma banda que, naquele momento, parecia grande demais para caber dentro do próprio rock. Use Your Illusion I e Use Your Illusion II chegaram juntos em 17 de setembro de 1991.
Pouco depois, o segundo ocuparia o primeiro lugar da Billboard 200 e o primeiro ficaria logo abaixo, em segundo. Mas os números contam somente a parte que pode ser medida. O resto está no som. O Guns de Appetite for Destruction parecia uma banda que tinha acabado de arrombar a porta. Nos Illusions, ela já estava dentro da casa, derrubando os móveis.
Há sujeira, piano, guitarras gigantes, metais, cordas, blues, punk, baladas que parecem querer tocar o céu, músicas compridas demais, ideias demais, ego demais. Axl Rose não canta como alguém preocupado em parecer razoável. Slash toca como se cada solo pudesse precisar dizer alguma coisa antes que o mundo acabasse. Duff McKagan, Izzy Stradlin, Matt Sorum, Dizzy Reed. Tudo parece em movimento, mesmo quando a banda quase desmorona sob o peso da própria ambição.
E talvez seja justamente aí que esses discos ainda respirem. Eles não pedem desculpas pelo excesso. “November Rain” leva quase nove minutos para atravessar amor, separação, piano, orquestra e uma guitarra que parece rasgar o céu no meio. “Estranged” se estende por mais de nove minutos sem demonstrar qualquer urgência em chegar ao fim.
“Coma” passa dos dez. “Civil War” olha para um mundo que acabava de atravessar a Guerra Fria e descobre que a paz também podia chegar cheia de ruído. “You Could Be Mine” corre como uma máquina desgovernada. “Don’t Cry” aparece nos dois discos, como se nem a mesma música precisasse aceitar uma única vida.
Nada ali parece interessado em economia. E 91 também não era exatamente um ano de silêncio. A Guerra do Golfo havia acabado poucos meses antes. A União Soviética vivia seus últimos meses. O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final colocava Schwarzenegger diante de um futuro metálico enquanto “You Could Be Mine” explodia junto com o filme. A MTV ainda tinha o poder de transformar um videoclipe em acontecimento coletivo. Poucos dias depois dos Illusions, o Nirvana lançaria Nevermind e ajudaria a deslocar o centro do rock para Seattle.
Era como se uma década inteira estivesse tentando nascer ao mesmo tempo. No meio disso, o Guns N’ Roses fazia o movimento contrário ao minimalismo que logo ocuparia parte do imaginário do rock alternativo: crescia. Mais piano. Mais guitarra. Mais minutos. Mais drama. Mais dinheiro. Mais confusão. Mais tudo. Era perigosamente humano.
Porque pessoas raramente sabem a hora certa de parar.
A gente fala demais quando está apaixonado. Fica tempo demais onde deveria ter ido embora. Faz promessas enormes. Briga. Volta. Compra uma fita e escuta até gastar. Rebobina uma música porque alguma coisa naquela voz parece ter entendido uma coisa que ninguém ao redor conseguiu entender. Antes das playlists infinitas, um álbum podia virar território.
Você morava nele durante semanas. O encarte ganhava marcas dos dedos. As letras eram
decoradas sem perceber. Certas músicas ficavam ligadas a um quarto, a uma pessoa, ao banco traseiro de um carro, a uma rua vista pela janela enquanto o mundo passava. Uma canção não precisava disputar sua atenção com outras cinco telas. Quando o play era apertado, por alguns minutos aquilo era tudo.
Os Use Your Illusion pertencem profundamente a esse mundo. Não porque o passado fosse melhor. Não era. Mas porque havia outra relação com o tempo. Esperar um disco fazia parte de ouvi-lo. Comprar fazia parte. Carregar para casa fazia parte. Virar a fita fazia parte. Errar o ponto ao rebobinar fazia parte. Descobrir meses depois uma música que estava ali desde o primeiro dia também fazia parte.
E provavelmente seja por isso que, 35 anos depois, aqueles dois discos ainda guardem uma espécie de desordem que não envelheceu completamente. Eles têm falhas. Têm exageros. Têm escolhas que uma produção contemporânea provavelmente tentaria aparar. Poderiam ser menores, mais organizados, mais disciplinados. Ainda bem que não são.
Porque Use Your Illusion I e II preservam uma coisa cada vez mais difícil de encontrar em obras grandes: a sensação de que ninguém entrou na sala para pedir que os músicos se comportassem. Em 17 de setembro de 91, milhares de pessoas ficaram acordadas até tarde para comprar música. Saíram de lojas carregando duas caixas de plástico.
Dentro delas havia quase duas horas e meia de barulho, beleza, raiva, piano, guitarras, arrogância, vulnerabilidade e contradição. Elas ainda não sabiam, mas levavam para casa mais do que dois discos. Levavam um pedaço de um mundo que estava prestes a desaparecer.
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