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John Lennon queria envelhecer ao lado de Yoko, então escreveu “Grow Old With Me”

há 17 horas
3 min de leitura

Composta nos últimos meses de vida do ex-Beatle, a faixa nasceu com a ambição de atravessar casamentos e gerações, mas chegou ao mundo na intimidade de uma gravação doméstica.

John Lennon e Yoko Ono
Imagem: Yoko Ono Lennon


Muitas das canções de Lennon me levam a acreditar que ele passou boa parte da vida desconfiando de tudo aquilo que vem fácil, principalmente dos sentimentos. O próprio Lennon possuía uma capacidade nata de provocar McCartney justamente por aquilo que considerava excessivamente açucarado em algumas de suas canções. A ironia é que, quando chegou aos últimos anos de sua própria trajetória, John também encontrou no amor uma espécie de lugar de repouso.





E poucas músicas mostram isso tão bem quanto “Grow Old With Me”. Não existe ali o Lennon de “Cold Turkey”. Nem a aspereza de Plastic Ono Band. Tampouco o homem mergulhado nas disputas políticas que atravessaram parte de sua produção no começo dos anos 1970. A voz que aparece em “Grow Old With Me” pertence a alguém olhando para uma coisa muito menor e, talvez por isso, muito maior: envelhecer ao lado de outra pessoa.


Depois de anos turbulentos, do chamado “Lost Weekend”, da separação temporária de Yoko Ono e de uma vida pública constantemente exposta, Lennon havia diminuído o ritmo. O nascimento de Sean, em 75, mudou sua relação com o cotidiano. Durante alguns anos, fazer discos deixou de ocupar o centro de tudo.


Quando voltou à música com Double Fantasy, em 1980, voltou diferente. “Watching the Wheels” falava justamente sobre esse afastamento e sobre a estranheza que as pessoas demonstravam diante de um John Lennon que simplesmente não queria mais participar da corrida. “Beautiful Boy” mostrava o pai. “Woman”, o marido. Era como se, depois de passar décadas tentando explicar o mundo, Lennon tivesse começado a observar aquilo que estava dentro de casa.


“Grow Old With Me” nasceu nesse mesmo ambiente. A ideia era enorme, embora a gravação fosse quase o contrário disso. Yoko Ono contou posteriormente que Lennon imaginava a faixa como uma música capaz de se tornar presença constante em cerimônias de casamento, daquelas que continuariam sendo tocadas muitos anos depois. Ele pensava em metais, cordas, uma orquestra inteira envolvendo a melodia.


Não deu tempo. John foi assassinado em Nova York em dezembro de 1980, antes que pudesse desenvolver a gravação como pretendia. A música acabou aparecendo em Milk and Honey, lançado postumamente em 1984, preservando muito da fragilidade da demo doméstica.





E talvez exista alguma coisa profundamente bonita nisso. Porque uma canção imaginada para soar enorme acabou permanecendo pequena. A voz não está protegida por uma produção grandiosa. Existem imperfeições. Existe aquele caráter de fita guardada numa gaveta. Parece quase que Lennon está cantando perto demais de nós.


Anos depois, George Martin, o produtor que acompanhou os Beatles em praticamente toda a trajetória do grupo, faria um arranjo orquestral para a gravação. Era uma aproximação daquilo que Lennon havia imaginado originalmente. Mas a versão simples continua carregando uma força difícil de substituir.


É impossível ouvir alguém cantar sobre envelhecer junto sem sentir o peso de saber que ele não envelheceria. E é justamente aí que “Grow Old With Me” pesa um pouco. A faixa não nasceu como despedida. Não existe nenhum tipo de pressentimento consciente ali. Lennon não estava escrevendo sobre o próprio epitáfio. Estava fazendo planos, muitos planos, por sinal. Esse detalhe muda tudo.


Ele queria tempo. Queria envelhecer. Queria atravessar os anos ao lado de Yoko. Depois de uma vida marcada por conflitos, separações, excessos e exposição pública, uma de suas últimas composições não estava tentando mudar governos, confrontar instituições ou reinventar a música pop. Estava apenas pedindo por companhia.


Quem sabe isso seja uma das ironias mais bonitas da trajetória dele. O compositor frequentemente lembrado pela acidez, pela inquietação e pela disposição para quebrar coisas terminou deixando uma canção sobre permanecer. Paul McCartney, tantas vezes provocado por Lennon por causa de suas melodias românticas, provavelmente reconheceria bem aquele território.


Depois de tantos anos tentando colocar Lennon e McCartney em lados opostos, um mais experimental, outro mais sentimental, um mais político, outro mais melódico, sobra uma coisa que nenhum dos dois conseguiu abandonar: a necessidade de transformar sentimento em canção. Uma boa melodia dizendo algo humano. “Grow Old With Me” não precisa soar perfeita.


“Grow Old With Me” ficou sem o acabamento que Lennon imaginava, mas isso acabou deixando a canção ainda mais próxima de quem ele era naquele momento. Não existe grandiosidade ali. Existe um homem olhando para a pessoa que ama e imaginando o futuro. Lennon passou anos tentando entender o mundo, brigar com ele, mudá-lo. Em uma de suas últimas canções, não pediu nada ao mundo. Pediu tempo.




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