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Elemento Zero EZ transforma o presente em paisagem pós-punk em “Deserto”

há 15 horas
3 min de leitura

Primeiro single do próximo EP da dupla, “Deserto” mergulha em isolamento, intolerância e desgaste emocional sem abandonar a melancolia que já se tornou parte da identidade da Elemento Zero EZ.

Elemento Zero EZ
Imagem: Reprodução


Tem banda que passa anos tentando descobrir onde quer chegar. A Elemento Zero EZ parece ter entendido cedo que seu caminho não precisava apontar para fora, mas para dentro.





Depois de Efêmera, EP que ajudou a ampliar o alcance do projeto na cena independente, Marcelo Schiffer e Jack voltam com “Deserto”, primeira música de um novo trabalho que ainda está sendo produzido. E não existe ruptura brusca aqui. O que existe é continuidade. Aquele pós-punk carregado de melancolia, baixo pulsando por baixo de tudo, guitarras que parecem ocupar espaços vazios e sintetizadores criando uma espécie de névoa continua presente. Só que agora a paisagem parece ainda mais árida.


O título entrega uma pista. “Deserto” olha para relações humanas num momento em que todo mundo parece ter alguma coisa para dizer e pouca disposição para realmente ouvir. Polarização, intolerância, discursos de ódio, radicalização. Tudo isso atravessa a canção, mas sem transformá-la num panfleto. A banda usa o desgaste das relações afetivas como ponto de partida para falar de um mundo em que os vínculos também parecem estar se desfazendo.


E talvez seja justamente aí que a música encontre sua força. Porque a Elemento Zero EZ nunca pareceu interessada em separar completamente aquilo que acontece dentro da gente daquilo que está acontecendo do lado de fora.


Um término, uma ausência, o luto, a sensação de não pertencer, o medo de perder alguém, a violência do cotidiano. Tudo acaba entrando no mesmo ambiente emocional. Não como respostas, mas como inquietação.





É uma característica que já aparecia em Efêmera. Quando escrevemos sobre a banda anteriormente no TC, definimos sua discografia como uma espécie de diário emocional gravado em fita cassete, carregado de melancolia e resistência. “Deserto” parece continuar exatamente desse ponto, sem tentar apagar as marcas deixadas pelo caminho.


A diferença é que o desconforto agora olha diretamente para o presente. Musicalmente, a dupla formada por Marcelo Schiffer, voz, guitarra e teclados, e Jack, voz, baixo, teclados e programação, continua orbitando um território que inevitavelmente lembra nomes como Joy Division, The Cure e New Order. São referências difíceis de esconder quando se trabalha com determinadas texturas, timbres e atmosferas. Mas reduzir a Elemento Zero EZ a essas influências seria perder boa parte da história.


A banda foi encontrando seu próprio espaço dentro dessa linguagem. O baixo não aparece apenas como sustentação. Muitas vezes ele conduz. As guitarras não precisam ocupar tudo. Os sintetizadores entram quase como uma luz fraca num quarto escuro. E existe sempre aquela sensação de que alguma coisa está prestes a desmoronar, mesmo quando a música continua caminhando.


É um pós-punk que entende muito bem de onde veio, mas não tenta viver em 1985. Esse equilíbrio também explica por que o trabalho da banda começou a circular por rádios independentes dentro e fora do Brasil, passando por emissoras como Mutante Rádio, Rádio NetRock, Compasso FM, Rocket 977, Music Boat Radio, Only Rock Radio, Rádio Antena Zero e até a Studio FKM, no Japão.



A imprensa independente também começou a prestar atenção. Ao falar sobre Efêmera, o Pop Fantasma imaginou o EP lançado em vinil ainda em 1988 e afirmou que ele provavelmente teria se tornado objeto de culto décadas depois. O Disconecta, por sua vez, chamou atenção para a construção sonora baseada em baterias eletrônicas, baixos marcantes, sintetizadores e guitarras pós-punk. O Olhar Dinâmico destacou justamente a continuidade dessa identidade dentro da cena alternativa.


Nada disso parece ter feito a Elemento Zero EZ mudar de direção. E isso é importante. Porque “Deserto” não soa como uma banda procurando desesperadamente uma música maior, mais acessível ou mais fácil de encaixar. Ela parece interessada em aprofundar aquilo que já vinha construindo.


Às vezes, consolidar uma identidade não significa repetir a mesma coisa. Significa saber exatamente de onde você está falando. No caso da Elemento Zero EZ, esse lugar continua sendo habitado por memória, perda, esperança, fragilidade e uma certa inquietação diante do mundo. Só que agora existe um deserto no caminho. E atravessá-lo parece ser o próximo passo.




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