Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, e aquela sensação estranha de estar no lugar certo, mas no tempo errado
- Marcello Almeida
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Daqueles encontros e desencontros que a vida nos proporciona e só vamos entender tempos depois

Esses dias atrás estava eu aqui de bobeira e resolvi rever o fascinante Encontros e Desencontros. Sim, adoro revisitar certas obras depois de algum tempo, ou até mesmo anos do seu lançamento. Porque existem filmes que contam uma história. E existem aqueles filmes que acontecem e explodem dentro da gente. E Encontros e Desencontros, da ótima Sofia Coppola, literalmente pertence ao segundo grupo.
Um longa sobre a vida e sobre amores, sim, mas gosto de enxerga-lo como aquele intervalo estranho, eu diria, entre o que somos e o que achávamos que seríamos. Uma história sobre estar vivo e, ainda assim, se sentir deslocado do mundo, do próprio tempo. Complexo, né? Mas, muito real e presente no dia a dia. Principalmente nesse mundo de excessos e tecnologias no qual vivemos, onde tudo passou a ser raso e instantaneo.
Bob Harris é um ator em fim de linha, interpretado com precisão melancólica por Bill Murray. E que atuação, meus amigos. Charlotte, vivida por Scarlett Johansson, sempre linda e encantadora com aquele olhar, é jovem, recém-casada, mas já atravessada por uma inquietação que não sabe nomear. Eles se encontram em Tóquio, uma cidade que pulsa luz, ruído e excesso. Mas o que os aproxima não é o lugar. É o vazio.
Bob está ali para gravar um comercial de uísque. Charlotte acompanha o marido fotógrafo, sempre ausente, mesmo quando está por perto. Dois estrangeiros em uma terra estrangeira, separados do mundo por um fuso horário emocional. A insônia vira ponto de encontro. O bar do hotel vira refúgio. E, pouco a pouco, nasce algo que não se encaixa em rótulos fáceis.
Sofia Coppola não está interessada em grandes viradas narrativas. O que ela filma são microgestos. Olhares que duram um segundo a mais. Silêncios que dizem mais do que qualquer declaração e nos fazem se sentir vivos, aquela sensação de borboletas no estômago. Encontros e Desencontros é, no fundo, um romance sem consumação. Um diário de viagem sem estrada. Uma história sobre conexão em estado bruto, sem aquela promessa de permanência.
Existe algo profundamente existencial nesse encontro. Bob e Charlotte não se apaixonam por quem o outro é, mas pelo que o outro permite sentir. Um espelho temporário. Uma pausa no caos. Um lembrete de que ainda é possível ser compreendido, nem que seja por alguns dias.

O filme também funciona como um retrato delicado da solidão contemporânea. Aquela que não grita. Aquela que mora em quartos de hotel, em casamentos silenciosos, em carreiras que já não fazem sentido. Coppola filma essas fraturas com suavidade, sem julgamento, sem cinismo. É uma solidão agridoce, humana, onde a gente se reconhece.
E muito disso passa pela trilha sonora, que não acompanha o filme, dialoga com ele. As canções de Kevin Shields, especialmente “City Girl”, “Goodbye”, “Ikebana” e “Are You Awake”, parecem ecoar o estado mental dos personagens. “Too Young”, do Phoenix, surge como um comentário irônico sobre amadurecer antes da hora. “More Than This”, do Roxy Music, carrega aquela nostalgia que dói sem machucar.
E então vem o golpe final. “Just Like Honey”, do The Jesus and Mary Chain, encerrando o filme como quem fecha uma ferida com cuidado. Não há explicação. Não há resolução total. Apenas a certeza de que algo aconteceu ali, e que isso basta.
Encontros e Desencontros fala daquela sensação estranha de estar no lugar certo, mas no tempo errado. Daquelas relações que não foram feitas para durar, mas que deixam marcas profundas. Daqueles encontros que só fazem sentido muito depois, quando já viraram memória.

É um filme aparentemente simples, mas profundamente honesto. Um marco silencioso da cultura pop. Um lembrete de que algumas conexões duram o tempo de uma canção, mas permanecem com a gente para sempre.
Daqueles filmes para guardar no coração. E revisitar quando o mundo parecer barulhento demais.











