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Marty Supreme: um filme que está entre o Sonho Americano e o oportunismo no esporte

Entre acertos e erros, Marty Supreme se mantém como um filme assistível, com camadas que merecem ser debatidas

Marty Supreme
Foto: Divulgação.


Filmes sobre esporte costumam usar a competição como metáfora para ambição, superação e identidade. Em Marty Supreme, o ping-pong, ou tênis de mesa, deixa de ser apenas um jogo de reflexos rápidos e precisão estratégica para se tornar símbolo de ascensão social, ego e desejo de reconhecimento. Cada saque e cada rebatida representam mais do que pontos: representam escolhas, riscos e consequências.



Dirigido por Josh Safdie em seu primeiro trabalho solo, o longa apresenta uma narrativa cinebiográfica ficcionalizada sobre Marty Reisman, carismático e controverso jogador de tênis de mesa que sai da marginalidade para buscar grandeza no esporte durante o início da década de 1950, período em que a modalidade ainda não era profissionalizada. A premissa é promissora: acompanhar a trajetória de um anti-herói que enfrenta preconceitos, apostas ilegais e seus próprios impulsos para alcançar o sucesso.


O filme carrega diversas camadas emocionais e propõe reflexões interessantes sobre ambição e sonho alto. A mensagem de que é preciso ousar para conquistar espaço é válida. O problema surge quando essa ideia se aproxima demais de uma romantização do chamado “sonho americano”, como se ele estivesse igualmente disponível a todos. Ao recorrer a excessos dramáticos e a uma abordagem por vezes sexualizada e previsível, a narrativa perde força e revela que, no fundo, a história parece falar mais sobre oportunismo do que sobre o esporte em si.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Timothée Chalamet, conhecido por papéis marcantes como Paul Atreides em Duna e Bob Dylan em Um Completo Desconhecido, entrega uma atuação competente e intensa. Ele sustenta o filme com carisma e presença de cena. No entanto, há momentos em que a performance soa excessivamente autoafirmativa, como se o ator quisesse provar constantemente a grandiosidade do personagem. O talento é inegável, mas a construção poderia ter sido mais contida para alcançar maior profundidade emocional.


O elenco de apoio contribui de maneira sólida. Gwyneth Paltrow e Odessa A’zion funcionam bem como interesses românticos, adicionando camadas ao protagonista. Fran Drescher surpreende positivamente ao transitar para um registro mais dramático, mostrando versatilidade além da comédia que a consagrou. Tyler, the Creator também chama atenção, demonstrando habilidade nas cenas envolvendo o tênis de mesa e adicionando autenticidade às sequências esportivas.


A direção de Josh Safdie, sem a parceria habitual com seu irmão Benny Safdie, mantém certo dinamismo característico, mas apresenta um ritmo apressado e por vezes irregular. A montagem frenética cria intensidade, porém compromete o desenvolvimento de algumas situações e personagens. A sensação é de que o filme corre para provar algo, quando poderia ganhar mais força se respirasse melhor suas próprias cenas.


Um dos grandes acertos está na trilha sonora. A seleção musical, com nomes como Fats Domino, Tears For Fears, New Order, Peter Gabriel e Public Image Ltd, adiciona textura e personalidade à narrativa. A trilha original de Daniel Lopatin complementa o clima com uma atmosfera sonora envolvente, criando momentos que elevam a experiência cinematográfica.



Marty Supreme funciona como o próprio ping-pong que retrata: alterna momentos de brilho com pequenos deslizes. Não é um filme extraordinário, mas também está longe de ser descartável. É uma comédia dramática com boas atuações, reflexões relevantes e uma energia que, apesar dos tropeços, mantém o interesse do espectador.


No fim, o longa deixa uma pergunta implícita: até que ponto o sucesso é fruto de talento e até que ponto é resultado de oportunismo? Entre acertos e erros, Marty Supreme se mantém como um filme assistível, com camadas que merecem ser debatidas — especialmente para quem aprecia cinema esportivo, biografias ficcionalizadas e narrativas sobre ambição.


Veja o trailer de "Marty Supreme":


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