Clarence Carter, voz clássica do soul americano, morre aos 90 anos
- Marcello Almeida
- há 19 horas
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Cantor de “Patches” e “Slip Away” enfrentava câncer de próstata em estágio quatro e deixa um legado marcante dentro da soul music

O cantor e compositor Clarence Carter morreu aos 90 anos. A informação foi confirmada à revista Rolling Stone por Rodney Hall, presidente do FAME Studios, lendário estúdio localizado em Muscle Shoals, no Alabama, espaço profundamente ligado à trajetória do artista.
Segundo informações divulgadas por representantes próximos da família, Carter enfrentava recentemente um câncer de próstata em estágio quatro, além de complicações causadas por pneumonia e sepse.
Nascido em Montgomery, Alabama, em 1936, Clarence Carter construiu uma das trajetórias mais singulares da soul music americana. Cego desde a infância, encontrou na música não apenas uma profissão, mas também uma espécie de abrigo emocional.
Foi no fim dos anos 1960 que sua voz rouca, intensa e carregada de personalidade começou a alcançar o grande público. Primeiro com “Slip Away”, hit que chegou ao Top 10 da Billboard.
Depois com “Back Door Santa”, faixa que atravessaria décadas até ser redescoberta por novas gerações através de samples, releituras e da cultura pop. Mas talvez nenhuma música tenha definido tanto sua trajetória quanto “Patches”. Lançada em 1970, a canção se transformou no maior sucesso de sua carreira e lhe rendeu um Grammy de Melhor Canção de R&B no ano seguinte.
Anos depois, o próprio Carter refletiria sobre o impacto da música:
“Acho que ‘Patches’ realmente me consolidou no mundo da música. As pessoas provavelmente se lembrarão de mim por muito tempo. Algo que eu sempre quis, mas nunca imaginei que aconteceria dessa forma.”
Antes da fama, Carter começou sua trajetória musical tocando em clubes do Alabama ao lado do também músico cego Calvin Scott. Embora o início não tenha trazido sucesso comercial imediato, ajudou a moldar o artista que mais tarde se tornaria uma figura importante da soul music sulista.
Sua relação com a música sempre foi profundamente pessoal.
“Desde que perdi a visão, a música não só me entreteve e me garantiu o sustento, como também tem sido um enorme conforto para mim. Quando estou triste e me sentindo para baixo, simplesmente pego meu violão e canto”, declarou certa vez.
Mesmo quando sua popularidade diminuiu durante os anos 70, Carter nunca suavizou completamente sua personalidade artística para se adaptar às tendências do rádio. E foi justamente essa autenticidade que acabou lhe proporcionando um retorno inesperado nos anos 80 com “Strokin’”.
A faixa, considerada explícita demais por muitas emissoras, acabou se tornando um enorme sucesso popular e vendeu mais de um milhão de cópias.
Fora dos palcos, Clarence Carter também teve uma relação bastante conhecida com Candi Staton. Os dois se casaram em 1970 e tiveram um filho juntos antes do divórcio, ocorrido em 1973. Apesar das turbulências do relacionamento, Staton manteve carinho pelo ex-marido ao longo dos anos.
“Clarence Carter foi um marido incrível e é um homem brilhante. Guardo ótimas lembranças dele”, escreveu a cantora em 2025.
Clarence Carter deixa dois filhos. E também deixa uma voz impossível de confundir. Uma voz que carregava dor, desejo, ironia, vulnerabilidade e soul music em estado puro.
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