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Black Pantera incendeia o Rock in Rio e transforma o Sunset em território de resistência

Com Nervosa, rodas punk e a força de Continental, trio mineiro fez do peso uma linguagem de confronto no festival

Black Pantera no Palco Sunset.
Black Pantera no Palco Sunset. Foto: Alexandre Cassiano

Primeiro vieram as sirenes. Depois, o vermelho tomou o palco. Quando o Black Pantera apareceu no Sunset, já não havia muito espaço para cerimônia. “Hórus” abriu o caminho com guitarras pesadas e o verso “em nome do pai, do filho e do preto santo”. A partir dali, a conversa seria outra.





A ameaça de chuva rondava o Rock in Rio, mas pouco importava diante do que começava a acontecer na frente do palco. Camisetas de bandas diferentes se misturavam na plateia enquanto o trio mineiro acelerava. “Padrão é o Caralho” veio na sequência e “Obsoleto” tratou de abrir as primeiras rodas. O público entendeu rapidamente a proposta: aquilo não seria um show para assistir parado.


O Black Pantera chegou ao festival num ponto importante da própria trajetória. Anos de estrada transformaram o grupo em um dos nomes fundamentais da música pesada brasileira contemporânea, e Continental, seu trabalho mais recente, amplia uma linguagem que nunca separou guitarra distorcida de posicionamento. O peso não aparece como adereço. Tem endereço, memória e motivo.


Foi quando Chanel da Gama colocou uma baqueta nas cordas do baixo, buscando o som de um berimbau, que o palco ganhou uma das imagens mais fortes da apresentação. A introdução anunciava “Fogo nos Racistas”. Não demorou para o título deixar de ser apenas título. A roda cresceu.


“Fogo nos Racistas” tem esse efeito porque sua violência sonora não existe no vazio. Quando o Black Pantera dispara a música diante de uma multidão, a distorção carrega uma mensagem impossível de separar do riff. Hardcore, metal e punk viram ferramentas para dizer algo que o trio nunca teve interesse em suavizar.


E o show ainda guardava outra colisão. Prika Amaral, vocalista do Nervosa, apareceu para “Serotonina”, faixa de Continental. A participação abriu caminho para uma espécie de troca de golpes entre duas bandas que construíram espaço dentro de uma cena pesada brasileira nem sempre disposta a rever quem imaginava como seus protagonistas.


O Nervosa assumiu o palco com “Ghost Notes”, “Slave Machine” e “Endless Ambition”, esta última reforçada por Charles da Gama nos vocais. Depois, as bandas se encontraram novamente em uma escolha que poderia parecer improvável até começar a tocar: “Obrigado Não”, de Rita Lee. Não era uma pausa. Muito menos alívio.





A canção ganhou músculos diferentes naquele palco antes de desembocar em um medley de “Revolução é o Caos” e “Exija”. Embaixo, as rodas continuavam girando. E talvez uma das imagens mais interessantes do show estivesse justamente ali. Durante muito tempo, o imaginário em torno do metal foi vendido com fronteiras bastante estreitas.


O Black Pantera e o Nervosa ocupando juntos um dos palcos do maior festival brasileiro fazem essa fotografia parecer cada vez mais velha. Uma banda formada por músicos negros. Outra levando mulheres ao centro de um território historicamente masculino. Nenhuma delas pedindo licença. Não era necessário fazer discurso entre cada música para que isso estivesse evidente. Bastava olhar para o palco.


O Black Pantera chegou ao Rock in Rio carregando Continental, anos de estrada e uma indignação que nunca foi domesticada pelo crescimento da banda. Saiu de lá maior sem precisar diminuir o volume de nada do que sempre disse. Quando uma roda punk se abre, durante alguns segundos surge um espaço vazio no meio da multidão. Naquela noite, o Black Pantera fez justamente o contrário. Ocupou.



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