A mulher, a mãe e a estrela seguem em frente

Atualizado: 25 de nov. de 2021



Já são dez anos em que ela reina de maneira imponente e admirável. Nem parece tanto tempo assim e as memórias de todo aquele impacto causado pelo brilhante álbum '21' (2011) ainda permanecem bastante frescas. Fenômeno de vendas, quando os produtos físicos ainda possuíam certa força expressiva em números (e ela, de certa forma, com esse sucesso, ajudou a marcar com brilho o fim dessa era da indústria), o segundo disco de Adele gerou um efeito semelhante ao de 'Nevermind' (1991) do Nirvana, no sentido de provocar uma busca significativa por parte dos admiradores também ao trabalho inicial. Se os fãs da banda norte-americana tiveram a curiosidade despertada para o debut grunge 'Bleach' (1989), pode-se dizer que o mesmo ocorreu com relação a '19' (2008), uma boa estreia da inglesa, mas que só ganhou mesmo a devida visibilidade graças à enorme aceitação de '21' pelo grande público.


As preferências e inspirações já são percebidas através de duas lindas versões, uma em cada destes dois primeiros célebres registros. Enquanto '19' traz uma surpreendente releitura para a bela ‘'Make You Feel My Love'’ de Bob Dylan, em '21' a maravilhosa balada romântica pop-gótica ‘'Lovesong'’ do The Cure ganha elegante interpretação, digna de verdadeira homenagem de gala à primeira banda de rock que ela viu ao vivo, levada pela sua mãe ao show do grupo britânico liderado por Robert Smith. Uma boa iniciação esta, que já demonstrava indícios de prenunciar a carreira gloriosa conhecida hoje em todo o mundo. Sem falar que sua genitora também ouvia muito Jeff Buckley. Portanto, muito da construção da artista partiu de um ambiente favorável musicalmente. Vem à mente também, na citação desse espírito rocker, Adele mandando ‘'Last Nite’' (The Strokes) e o seu maior hit '‘Rolling in the Deep’' no interessante cover do Linkin Park ao vivo, maravilhoso na voz do saudoso Chester Bennington.

"O novo álbum demonstra muito mais que a maior cantora da última década se recompondo, juntando os cacos de uma fase pessoal turbulenta vivida há pouco tempo e conciliando a vida pós-divórcio e pós-maternidade com o seu processo de criação artística."

Uma separação é sempre dolorosa e, é claro, tudo muda na vida de alguém com a chegada de um filho. '30' também se impõe como um trabalho refletindo perfeitamente o quanto Adele se sente no poder e na condição confortável de ditar os rumos de sua obra, o que significa que seu crescimento na música e um consequente amadurecimento sob vários aspectos dão o tom predominante nas faixas elegantemente constituídas no registro, primando por impecáveis arranjos e harmonias, nos quais o piano conduz, predomina e proporciona a fusão perfeita com a força de sua voz.


A sonoridade, em alguns momentos, pode evocar (belas) lembranças que remetem a influências de ícones esmerados como Frank Sinatra e Tony Bennett ou mesmo das divas imortais Nina Simone e Amy Winehouse, esta última, como se sabe, uma contemporânea de Adele que se foi muito cedo, infelizmente. E bem no início do império deflagrado por '21'. Fica no imaginário mais ardoroso o nível de qualidade que legitimaria uma colaboração entre as duas. Que sonho...

Programadores de rádio e ouvintes de hits fáceis talvez ofereçam alguma resistência, afinal praticamente metade das faixas possui longa duração, com uma ou outra até se aproximando dos sete minutos. Neste incitante percurso de quase uma hora, já somos levados a uma intensidade, de cara, pela emocionante segunda faixa. O que dizer da perfeição que o piano traz em '‘Easy On Me”? Um magnificente single cartão de visitas que – arrisco a dizer - trouxe mais expectativas positivas quanto ao trabalho como um todo do que ‘'Hello'’ em 2015.


A sincera e comovente declaração para o filho em ‘'My Little Love'’ se estabelece como um dos pontos altos e marcantes deste que pode ser considerado seu trabalho mais íntimo e pessoal. Muitos se emocionarão com a beleza de "I Drink Wine'’, uns seis minutos inspiradíssimos que rememoram grandes clássicos de Mr./Sir Elton John. De arrancar lágrimas em rocha. Em ‘'Cry Your Heart Out'’, com sua deliciosa levada reggae, é possível lembrar ao mesmo tempo de Winehouse e do clássico de Bob Marley, a linda ‘'Waiting in Vain'’. Já ‘'Oh My God'’ poderia muito bem se passar por uma sobra luxuosa das sessões de '25', uma espécie de lado B de ‘'Hello'’, quem sabe. Um potencial hit de FM, considerando também a sua duração , que é menor, com menos de quatro minutos. Enquanto a próxima ‘'Can I Get It'’ faria bonito numa sequência após ‘'Rolling in the Deep'’. Soa como uma certa referência a um de seus ídolos, George Michael, saudoso gigante do pop já homenageado por ela ao vivo em famoso evento há alguns anos atrás, numa versão mais intimista de '‘Fastlove'’.

"Há também certos ecos que podem perfeitamente se ligar à sensibilidade jazzy de Norah Jones, à classe de Annie Lennox ou mesmo ao feeling de Joan Osborne. O piano e o jazz estão ali se fazendo presentes com certa força, e não é por acaso uma certa homenagem a Erroll Garner, músico falecido em 1977."

'30' pode trazer tanto fragmentos da velha Hollywood (o show especial de lançamento do disco para celebridades – diversos astros do cinema – ilustra bastante isso) , de muito tempo atrás, como também provocar imagens no pensamento sobre requintados espaços com ambiente escuro em fim de noite solitária (ou não, depende), Adele se apresentando acompanhada por Herbie Hancock, agraciada sob as eternas bênçãos de Aretha Franklin (‘'Hold On'’ poderia até ser descrita como um agradecimento sincero em forma de música à rainha maior), que manifestou sua nobre admiração pela britânica ao gravar ‘'Rolling in the Deep'’, alguns anos antes de seu falecimento.


To Be Loved'’ pode ser daquelas para se ouvir de joelhos, porém ‘'Love Is a Game'’ é uma das joias mais lindas que ela já cantou/gravou, uma das grandes músicas deste ano, sem dúvida, de arrepiar até um poste! Final arrebatador para um álbum estupendo, realizado por uma mulher segura, sem qualquer obstáculo em se abrir para o amor, por uma mãe ciente daquele que é o maior sentimento do mundo, e pela artista colossal dona de toda a convicção quanto à enormidade da estrela que se tornou, e que – assim seja - continuará por muito tempo, firme e muito à vontade, ocupando esse trono.

 

FICHA TÉCNICA:

Álbum: 30

Artista: Adele

Gênero: Pop, Jazz, R&B

Lançamento: 19 de novembro de 2021

Ouça: "I Drink Wine", "To Be Loved" e "Love Is A Game"






 

OUÇA '30' NO SPOTIFY:


 

VEJA O VÍDEO DE "EASY ON ME" ABAIXO:


 

SOBRE MARLONS:


Sempre que pode ocupa seu tempo com o som de Jorge Ben Jor, Carole King e David Bowie, os livros do Irvine Welsh, os filmes do Ingmar Bergman e umas brincadeiras com a gatinha Lilly. Gosta muito também de pedalar. Acha que sem a música e a arte em geral, a vida seria um erro e também uma piada ruim muito sem graça. Enquanto aguarda ansiosamente uma temporada nova de Black Mirror, está sempre sendo apresentado a algo do universo dos animes pela filha Stella. marlonssilva1701@gmail.com


 



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