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A cidade, a pirâmide e o caos: como Saguenay moldou o som do Angine de Poitrine

Entre tragédia, humor e formas geométricas, a banda transformou o absurdo em linguagem

Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

No meio de Saguenay, onde o improvável já parece rotina, existe uma pirâmide que não deveria estar ali. Erguida entre rios de nomes quase absurdos, como o Ha Ha, ela se impõe com seus 21 metros de altura e uma superfície coberta por centenas de placas triangulares.



À primeira vista, parece deslocada. Mas, olhando melhor, talvez seja exatamente o contrário. Porque, de certa forma, tudo o que sai dali carrega um pouco dessa mesma estranheza.


É desse cenário que nasce a Angine de Poitrine. Uma dupla que não só incorpora o caos visual e conceitual da cidade, mas o transforma em som. Não é coincidência. Crescer em um lugar como Saguenay significa aprender cedo que lógica e absurdo podem coexistir. E que, às vezes, o que parece não fazer sentido é justamente o que mais comunica.


A tal pirâmide, conhecida como Pirâmide Ha Ha, não surgiu por acaso. Ela foi construída após a enchente devastadora de 96, que deixou marcas profundas na região. Diante da destruição, o artista Jean-Jules Soucy decidiu responder com algo que, à primeira vista, beira o nonsense: uma estrutura monumental pensada para provocar riso. Não um riso leve, mas aquele que surge no meio do desconforto, quase como um mecanismo de sobrevivência.


E é aí que a conexão começa a ficar mais clara. O Angine de Poitrine parece operar sob o mesmo princípio. Sua música, carregada de ritmos quebrados, loops repetitivos e uma estética que flerta com o estranho, não tenta explicar nada de forma direta. Ela propõe uma experiência. Algo que você sente antes de entender, se é que precisa entender.


A obsessão por triângulos, formas e padrões não é apenas estética. Ela ecoa o próprio ambiente em que a banda foi formada. As placas da pirâmide, que carregam a mensagem “dê a preferência”, traduzem algo simples: ajudem-se uns aos outros. Existe uma camada simbólica ali, mas também existe o direito de não interpretar nada. E talvez esse seja o ponto.


Soucy, o criador da pirâmide, dizia que sua obra tinha significado, mas um significado que não se entregava facilmente. Falava de letras, de símbolos, de passagens entre conceitos. Soa confuso? É. E essa sensação não está tão distante da experiência de ouvir Angine. Há uma espécie de lógica interna que não se explica, mas se percebe.


O mais interessante é que essa estética não nasce do vazio. Ela vem de um lugar que já lidou com perdas reais, com reconstrução, com a necessidade de encontrar sentido, ou pelo menos algum alívio, em meio ao caos. A arte, nesse caso, não surge como resposta direta, mas como desvio. Como uma forma de respirar.



Por isso, quando a banda viraliza, não é apenas pela curiosidade ou pelo estranhamento. Existe algo ali que conecta. Uma sensação de que, por trás daquele som aparentemente alienígena, há um tipo de humanidade que não tenta se organizar demais. Que aceita o ruído, o erro, o excesso.



Saguenay é assim. A banda também. E talvez seja impossível separar uma coisa da outra. Porque, às vezes, entender menos é exatamente o que faz tudo fazer sentido.




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