Angine de Poitrine, Vol.II: a coisa mais linda e mais estranha que você vai ouvir hoje
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 3 min de leitura
Tem coisa nova surgindo, e você percebe na hora

Nos últimos dias, na internet, só se fala em Angine de Poitrine, um duo canadense que vem chamando a atenção pela estética e sonoridade. E o som deles é viciante (risos). O que já era bom ficou melhor ainda: a dupla lançou hoje (3 de abril) Vol. II e não é exagero dizer, é um daqueles discos que não só prendem, eles deslocam. Tem algo ali que foge do eixo comum da música contemporânea, mas, ao mesmo tempo, te puxa pra dentro com uma facilidade quase estranha.
Desde 2020, o duo vem construindo uma identidade que simplesmente não se encaixa. Tem ecos de jazz, de rock progressivo, de math rock, mas nada disso explica de fato o que está acontecendo. Porque o ponto não é a mistura, é a lógica própria que eles criaram. E essa lógica começa no instrumento.
No centro de tudo está uma guitarra modificada manualmente, de dois braços, operando dentro de um sistema microtonal. Metade guitarra, metade baixo. Trastes adicionais esculpidos à mão que permitem intervalos que simplesmente não existem dentro da música ocidental tradicional.
A origem disso é quase acidental. Segundo Klek de Poitrine, a primeira versão surgiu com uma serra, sem grande planejamento. Soava errado, até para eles. E foi justamente esse “erro” que abriu caminho. O guitarrista Khn transforma essa instabilidade em linguagem. Aqui, o microtonal não é efeito, é estrutura. As músicas nascem desse desequilíbrio controlado, dessa tensão constante que parece sempre à beira de colapsar, mas nunca perde o controle. É aí que mora o vício.
As referências ajudam a entender a base, mas não explicam o resultado. Nomes como Miles Davis e John Scofield aparecem como ponto de partida harmônico. Só que o Angine de Poitrine distorce isso tudo até virar outra coisa, mais fragmentada, mais imprevisível, mais viva.
E não é só som. Tem mais coisas ainda envolvidas. Visualmente, o duo constrói uma estética que reforça essa sensação de deslocamento. Figurinos de bolinhas em preto e branco, máscaras de papel machê, uma mistura de performance, humor e estranhamento.
Não é só um show, é uma experiência visual e sonora integrada. Esse conjunto ajudou a impulsionar o grupo para além do nicho. A apresentação na KEXP viralizou, acumulando milhões de visualizações e colocando o nome da banda em circulação global. O impacto foi imediato.
Figuras como Rick Beato e Dave Grohl, do Foo Fighters, comentaram sobre o fenômeno, destacando a quantidade incomum de atenção simultânea. Já Cory Wong também demonstrou interesse. Existe um movimento curioso aqui: quanto mais complexo o som, mais ele desperta curiosidade. E Vol. II chega exatamente nesse ponto. Mais seguro, mais intenso, mais consciente da própria identidade. Um disco que não tenta explicar nada, só aprofunda tudo.
Ao longo das seis faixas e cerca de 36 minutos, a obra se comporta menos como uma coleção de músicas e mais como um organismo em constante mutação. Não há uma condução linear clara. As ideias surgem, se fragmentam e se reorganizam o tempo todo, muitas vezes dentro da própria faixa. E talvez seja justamente isso que torna tudo tão viciante: uma repetição instável, quase hipnótica, que nunca se resolve completamente e faz com que cada nova escuta revele algo que passou despercebido antes.
No fim, o Angine de Poitrine não está apenas misturando estilos ou inventando instrumentos. Está colocando em prática uma pergunta que pouca gente ainda teve coragem de fazer direito: quantas possibilidades ainda existem dentro da música? E talvez a sensação seja essa mesmo. Não é que seja estranho demais. A gente só está ouvindo cedo demais.







