Angine de Poitrine: o duo que está reinventando a guitarra e bagunçando as regras do som
- Marcello Almeida
- há 17 horas
- 3 min de leitura
Com microtons, máscaras e caos calculado, banda canadense chama atenção até de nomes como Mike Portnoy

O Angine de Poitrine não virou assunto só entre ouvintes curiosos de música alternativa. O barulho já chegou em quem entende do assunto. Mike Portnoy, um dos nomes mais respeitados do rock progressivo, foi direto: disse estar “viciado” no som da dupla depois de assistir a uma apresentação no canal KEXP.
Não é pouca coisa. E não é por acaso.
Desde 2020, o duo canadense vem construindo uma identidade difícil de encaixar em qualquer rótulo simples. Tem Jazz, tem Rock Progressivo, tem Math Rock, tem referências globais que aparecem e somem no meio do caminho. Mas a verdade é que o som deles não cabe exatamente em nada disso. É outra lógica.
E essa lógica começa no instrumento. No centro de tudo está uma guitarra que parece saída de um experimento, e, de certa forma, é mesmo. Um instrumento de dois braços, modificado manualmente, que funciona dentro de um sistema microtonal. Metade guitarra, metade baixo, com trastes adicionais esculpidos à mão para permitir intervalos que simplesmente não existem na música ocidental tradicional.
A origem disso é quase improvisada. Klek de Poitrine contou que a primeira versão surgiu com uma serra, sem grande planejamento. Soava estranho até para eles. E foi justamente aí que a coisa começou a fazer sentido.
O guitarrista Khn pegou essa estranheza e transformou em linguagem. Em vez de usar microtons como efeito, ele constrói tudo a partir disso. As músicas nascem dessa instabilidade, dessa tensão constante, criando uma sonoridade que parece sempre prestes a sair do eixo, mas nunca perde o controle.
Curiosamente, as referências não são tão distantes quanto o resultado faz parecer. Nomes como Miles Davis e John Scofield aparecem como base harmônica. Só que o Angine de Poitrine pega essa base e leva para outro lugar, mais caótico, mais fragmentado, mais imprevisível.
E não é só no som que a dupla chama atenção
Visualmente, eles também constroem uma identidade própria. Figurinos de bolinhas em preto e branco, máscaras de papel machê, uma estética que mistura performance, estranhamento e um certo humor surreal. Não é só música. É experiência.
Esse conjunto ajudou a impulsionar o grupo nas redes. A apresentação na KEXP viralizou, acumulando milhões de visualizações e colocando o nome da banda em circulação muito além do nicho experimental. O impacto foi imediato, não só entre o público, mas dentro da própria indústria.
O produtor Rick Beato comentou que raramente viu tanta gente falar de um mesmo artista ao mesmo tempo. Já Cory Wong também demonstrou interesse no trabalho do duo. Existe um efeito curioso acontecendo aqui: quanto mais complexo o som, mais ele parece despertar curiosidade.
E talvez seja esse o ponto central. O Angine de Poitrine ocupa um espaço raro. É um projeto profundamente experimental que, ao mesmo tempo, consegue atravessar bolhas e alcançar um público mais amplo. Não pela simplificação, mas pelo impacto. Pela sensação de estar vendo algo novo acontecer em tempo real.
Com o segundo álbum, Vol. II, previsto para abril, a ambição fica ainda mais clara. Não é só continuar explorando, é expandir. Tirar a música microtonal do campo da curiosidade e colocá-la em circulação de verdade.
No fim, o que o duo faz não é apenas misturar estilos ou criar um instrumento diferente.
É questionar, na prática, quantas possibilidades ainda existem dentro da música, e quantas delas a gente simplesmente ainda não ouviu.
Talvez não seja estranho demais, talvez a gente só esteja ouvindo cedo demais.






